quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Jovens choques

Da série "Choques"

Já conversavam por algumas horas sentados no sofá e partiam para a segunda garrafa de vinho.
Na TV, um clipe de alguma banda qualquer.
Depois de tantos temas discutidos, remexidos, relembrados, caíram no clássico tema de relacionamentos.
"Vou desencanar de vez! Dá muito trabalho" disse ela.
Ele com um leve sorriso na boca e olhando para o nada disse:
"Desistir assim de repente não tem graça... Precisa de um trauma, uma coisa grave."
"E como você sabe que não passei por algo assim no passado?" questionou ela.
"Seu rosto, sua fala, seu jeito não guardam muitos segredos" disse ele virando só a cabeça e dando um gole no vinho ao que completou "E nem idade pra tantos traumas assim você tem"
"Como se você fosse muito mais velho" debochou ela.
"Mas eu sei..." disse beirando a arrogância que, ele percebeu, não a agradou.
"Não..." disse ela sorrindo debochadamente sem poder pensar em algo melhor para dizer e indicando sinais de sono.
Por mais que ele quisesse virar, chegar mais perto dela, dizer algumas palavras e por fim beijá-la, sabia que os riscos de não conseguir eram grandes. Para evitar constrangimentos, não encaminhava a empreitada. Ficava no sofá.
"Vou começar a ficar só por ficar" disse ela.
"A velha história" disse virando os olhos e continuou "Começa assim: fico por ficar e quando vê, já está apaixonada..."
"Você toma por base as garotas com quem já ficou" disse ela incomodada "Nem todas são assim" completou.
"Tudo bem, não posso generalizar... Mas em grande parte..." deu mais um gole.
"Você já levou um fora?" perguntou ela.
"Mas é claro! Faz parte da vida... Mas eu gosto de chamar de falta de sintonia. Quando não rola não rola e não é você que vai mudar isso."
"E todo aquele poder de sedução que você tinha me dito que usava?" insinuou ela.
"Nem sempre deve ser aplicado. Às vezes é muito esforço pra pouca coisa, entende?" argumentou pensando se a regra não se aplicava à ocasião.
"Quer dizer então que você só avança se a outra demonstrar interesse?" perguntou ela.
"Na verdade eu só demonstro interesse se ela demonstrar" disse convicto.
Pensou que talvez pudesse usar essa conversa em seu favor.
"E se ela não demonstrar que está afim..." disse ela.
"Não movo um dedo" mentiu ele.
"É engraçado poder falar dessas coisas com você" disse sem insinuações "Não converso sobre isso com muitos caras"
"Ou você é muito azarada ou muito sortuda por isso" disse ele rindo.
"Como assim?" riu "Sei lá... Me sinto natural falando disso com você, só isso... Apesar de você ser irmão da minha melhor amiga, você sabe..."
Talvez fosse esse o momento de avançar, mas hesitou. Não poderia ser nem muito direto, nem muito sutil. Talvez ela viesse com a solução, e veio:
"Porque você é o tipo de cara que eu sei que se ficasse comigo não ia sair por ai falando pra todo mundo, nem ia se apaixonar por mim" disse argumentando seriamente, como se fosse uma teoria relevante.
"No entanto" ele terminou o vinho da taça e disse "Há alguns motivos para que não fiquemos..."
"Não! Não é isso que quis dizer" interrompeu ela.
"Preste atenção: já passamos do estágio onde ou transamos ou viramos amigos, certo?"
Ela fez que sim.
"Já passou um tempo. Conversamos sobre muita coisa. Sabemos de algumas intimidades que só se reportam aos amigos e não amantes"
Ela fez que sim, apesar de não concordar.
"E eu adoraria dizer que você não faz meu tipo, no entanto dentro dos grupos de mulheres que fazem o meu tipo" fez que ia contar nos dedos olhando pra cima "você até que se encaixa num grupo talvez... Mas..."
Sem esperar ganhou um beijo dela.
Fazendo desmoronar toda sua teoria, retribuiu.
Nunca fora tão difícil, mas fácil, porém inusitado.
Nada como uma pitada de desprezo despretensioso.

Ouvindo Regina Spektor

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Memória Botecal

Já passara um tempo, mas ele lembrava com nostalgia do boteco em que comia algumas vezes por semana na época em que trabalhava lá pelas bandas do centro. A verdade é que desde criança fora apaixonado por botecos. Seu pai teve um bar e ele lembra até hoje das vezes em que, quando com fome, chegava da escola e pedia uma coxinha engordurada. O pai negava e dizia que sua mãe não iria gostar, mas no final ,depois de muita birra acabava cedendo. Fato que lhe renderia algumas broncas da esposa de noite quando o filho se queixava de enjoo e a mãe perguntava quase que inquisitoriamente "O que você comeu hoje?" deixando a criança impossibilitada de mentir e o pai numa situação mais que desconfortável.
"Falei pra não dar besteira pro menino" dizia a mãe.
"Mas ele estava com fome e não tinha almoço pronto em casa" retrucava o pai.
"Alguém tem que trabalhar de verdade nessa casa" revidava certeiramente a mãe de três filhos que trabalhava o dia inteiro.
E a briga se seguia e se repetia quase toda semana. No começo, achava que a briga era por conta das besteiras gordurosas que saboreava quando chegava da escola e lhe faziam mal ao fígado, mas reparou que seria bom demais se o motivo fosse só esse.
Aconteceu de o pai vender o bar depois do terceiro roubo ao lugar.
Ele viu com tristeza as portas do bar serem fechadas. As luzes de dentro apagadas, mas ele podia ver o velho sofá no fundo, a pia, o baleiro que sofrera em suas mãos, a caixa registradora, tudo entregue a escuridão assim que as portas foram cerradas só sendo reabertas para uma loja que reformaria todo o lugar anos mais tarde.
O fato é que toda vez que comia no boteco do centro, sentia essa felicidade escondida dos os tempos de infância.
O balcão de higiene duvidosa, a salada sempre variada e um pouco murcha "Sem cebola, por favor" ele pedia, a cozinheira com ares de Tia Anastácia e os copos que variavam do tipo americano ao tipo pomarola ou requeijão.
"Coquinha com gelo e limão?" indagava o dono do boteco quando ele entrava "Opa! Por que não?"
"Frango com quiabo?" lançava a atendente "Pode ser, mas sem quiabo. Só o caldinho" interava. "Manda um frango com quiabo sem quiabo, dona Isabel!" e lá do fundo ela gritava "Pode colocar macarrão?" e a atendente o olhava como que dizendo "Não vai responder?" e ele gritava meio sem jeito lembrando que lera na sala de espera do dentista numa revista feminina que não era bom pra dieta misturar massas com frango "Um pouquinho, pode ser..."
"Quiabo é afrodisíaco" dizia um velho na ponta do balcão e ele sorria. Olhava para a TV e lá uma mulher bonita cercada de marmanjos comentava os gols da rodada do campeonato. Ele sorria e se sentia bem.
Gostava do "clima botecal", como gostava de chamar. Bem melhor que aquele self-service no final da rua, ou melhor, bem mais humano que qualquer self-service onde encontrava sushis ao lado de feijoadas, tabules ao lado do arroz à grega. Por mais que tais restaurantes fossem talvez os únicos recintos onde a cultura árabe e judaica pudessem conviver sem que nada explodisse, não se sentia bem ao entregar a comanda para o homem da balança que anotava o quanto você colocara no prato e soltava um sério "Obrigado e bom apetite" e depois ia sozinho compartilhar uma mesa com desconhecidos que sequer ousariam comentar se tal prato era bom pra isso ou para aquilo. Entrar, encher, pesar, comer, pagar (fila longa) e sair.
"Ela colocou um pouco mais de caldinho pra compensar o quiabo, tudo bem?" dizia a atendente ao trazer o prato. "Ótimo" dizia.
Talvez fosse saudosista demais, ou simplesmente preferia esse "clima botecal" que ia além das paredes do boteco, ele sabia, e o que mais o entristecia é que tal clima vinha se perdendo cada dia mais.
Um dia, chegou meio mal do estômago em casa. Já não trabalhava mais pelo centro e fazia tempo que não ia num autêntico boteco (eram poucos. Só aqueles atificiais que tinham virado moda nos bairros ricos e badalados).
Resolveu ligar para a mãe para pedir a sugestão de um bom chá.
"É o estresse, mãe. Não se preocupe." dizia acalmando-a.
"Será? O que você comeu hoje?" retrucava incisiva como sempre.
"Bom, eu preferia ter almoçado um frango com quiabo sem quiabo, mas acho que foi o kibe cru que não caiu bem com o torresmo" e riu nostalgicamente deixando a mãe sem entender o motivo.

--

Retomando textos.
Notem que há umas mudanzinhas ao lado.

Abraços


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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [3]

Ou "Como mesmo cheio de trabalho pra fazer, arranjei uma brecha para desenhar"










Ainda ouvindo Bowie, com uma versão demo de Ziggy Stardust

Abraços

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [2]

ou "Como eu continuo arrajando brechas para desenhar (mal) no trabalho"








Agora em cores! Chique né?

Abraços!

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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías

Ou "como eu enrolei muito no trabalho hoje"



Ouvindo o bom e belo Bowie com "Five Years"

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sábado, 26 de setembro de 2009

Cansado

Ao entrar em estado de crise existencial, geralmente expurgo todo e qualquer sentimento através da piada, do humor ou de algo que me faça ou faça os outros rirem.
Não que necessariamente faça coisas engraçadas. Por vezes elas são superestimadas, por outras o contrário. Não me considero nenhum artista, aliás estou bem longe disso e escrever num blog é nada mais que satisfazer um pouco do meu ego extraindo o que porventura possa vir a passar dentro de minha cabeça.
Tenho ideias no ônibus, na rua, no trabalho e na faculdade. Vejo coisas e penso em textos, filmes e fotografias, mas não me surpreendo porque afinal qualquer pessoa com o mínimo de referência cultural pode tergiversar e se aventurar por qualquer campo.
E a tecnologia veio ao mundo para isso. Transforma com blogs qualquer escritor num grande escritor e com as câmeras digitais qualquer fotógrafo amador num grande fotógrafo. A tecnologia talvez endossa a ideia primordial liberal que teve seu ápice na revolução francesa, ou seja, a ideia de igualdade.
Qualquer um pode ser, para isso basta querer.
Excluindo a bordão da fraternidade, que remete a outros quesitos, a liberdade e a igualdade seguem de mãos dadas e caminham até hoje nas nossas mentes como coisa dada ou coisa posta, portanto coisa positiva, logo, natural.
Como isso está dado, fica difícil questionar.
Igualdade e a liberdade não são coisas ruins, mas talvez é bom pensar vez ou outra o quão perverso pode ser um sistema que empurra na cabeças que todos são capazes, são livres para fazer e ao fazê-lo podem ser bem sucedidos e manter as coisas girando. E danem-se aqueles que não conseguem. São vagabundos ou eternos loosers. (Num sistema alternativo, todos também seriam livres para criar o que bem entendessem, a diferença é suas obras não visariam o lucro algum)

Estão ai as câmeras, os blogs e o Youtube. Ferramentas que colocam em nossas mãos o poder de fazer mesclado ao falso poder de ser. E não é a toa que eu esteja escrevendo esse texto através de uma ferramenta assim, porque sei que a cada dia 50 mil blogs são criados no mundo e que essas palavras não passam de um pequeno bilhete depositado numa garrafa perdida no oceano.
Estou na minha ilha e joguei minha garrafa, mas ela não sai do lugar pois no mar já não há mais água e sim garrafas. Dentro delas posso ver mensagens, fotos e vídeos.
E tudo isso me deprime e o que ainda mais me deprime é querer me diferenciar dessa massa caindo na velha armadilha da diferença que iguala.
A solução?
Posso não saber, mas creio que estudando, nossas cabeças se abrem para além de meros objetivos pessoais e vaidosos. Talvez estudando, ganhamos maior consciência do todo e ai sim podemos pensá-lo de modo a ajudar a construí-lo.
O que vier a mais, com o perdão da hereseia literal, é lucro, ou usura, como preferirem.




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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Suposições

Série Saco-Cheio

Episódio Sétimo:

Festa de amigos. Eles tem alguns em comum. Meio bêbados.
Ela: Você faz  o que mesmo?
Ele: Estou na faculdade. E você?
Ela: Sou psicóloga.
Ele: Legal.
Ela: Na verdade especializada em sexo. (gole da bebida dele)
Ele: Uma sexóloga? (gole da própria bebida)
Ela: Isso! (outro gole da bebida dele)
Ele: Nossa...
Ela: O quê?
Ele: Deve ser horrível transar com uma sexóloga. Não tem muito onde inovar, não é?
Ela: ...
Ele: Não é?
Ela: É... É sempre meio complicado. (gole do próprio copo)

***

Ouvindo September Song, de um filme do Woody Allen.


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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Crise Pessoal

Série Saco-cheio:

Episódio Sexto

Andando na rua.
Ela: Você anda muito estressado. A gente quase nunca se vê e quando se encontra é só patada.
Ele: É o trabalho! E quanto mais as pessoas me enchem mais eu fico estressado.
Ela: Quanta grosseria! Você precisa relaxar um pouco.
Ele: Eu sei... Eu até tentei me masturbar hoje de manhã...
Ela: Pelo visto não funcionou.
Ele: É... Não consegui...
Ela: Precisava de mais estímulo?
Ele: Não! É que eu sou muito exigente comigo mesmo...

***

Aos assíduos dois leitores do blog,

tentarei postar com mais frequência... Pelo menos alguma coisa por semana.
A qualidade pode cair, mas a audiência aumenta, tipo Zorra Total, sacam?

Abraços

PS: A série Choques vai continuar em breve... Só me falta cabeça...

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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Eternos Choques

Sequência de Choques

- Acho que foi aquele filme do Woody Allen que me deixou um pouco deprimido.
- Woody Allen? Mas ele não faz comédias?
- É, faz, mas são justamente essas que às vezes me deixam mais pra baixo.
- Mas como assim?
- É que elas tem um sarcasmo forte com relação à vida, sabe? Um pessimismo tão grande que chega a ser engraçado.
- Mas a vida não é assim?
- É... E por isso que fiquei um pouco deprimido.
- Você é doido. Aposto que nos filmes de drama você sai por ai dando pulos de alegria.
- Nem sempre. Mas é que nesse filme eu fiquei meio angustiado.
- Era sobre o quê?
- Sobre um jovem escritor que tinha uma namorada maluca.
- Até onde eu sei quase todos os filmes do Woody Allen tem essa trama.
- Eu sei, mas é que nesse ele faz o tipo conselheiro e não consegue entender como essa juventude está cada vez mais rápido neurótica e problemática.
- Envelhecer deve ser terrível. É que nem aquela máxima que diz que quando você é jovem tem o corpo mas não tem a mente e o contrário também vale.
- Exatamente.
- Dai você assiste um filme que fala sobre isso e fica todo deprimido?
- É que isso me fez lembrar aquela moça que encontrei na festa de ontem.
- Aquela novinha que não tirava os olhos de você? É amiga da minha irmã. Incrivelmente inteligente. Bonita e tem senso de humor.
- Eu sei. Conversei um pouco com ela. Eu tomando cerveja e ela refrigerante.
- Ah! Entendi!
- O quê?
- Como o quê? Você gamou nela e não admite só porque ela é bem mais jovem.
- Deus do céu! Não posso falar de uma garota que conheci e você já acha que estou apaixonado.
- Ninguém falou em paixão aqui. É normal, ela é jovem, bonita, inteligente. Perfeita.
- Bem, eu nem sempre baseio meu gosto pelas mulheres nesse tripé, ainda mais que ele dificilmente se mantém firme.
- É! E quando ele é firme demais você sai correndo. Afinal, ela nunca vai precisar de você para preencher o calço que falta para mantê-la firme.
- Meu Deus! Por que raios você está cruelmente certo?
- Nos conhecemos há um bom tempo.
- Mas acho que falta maturidade nela.
- Sabia que você acharia alguma coisa para não sair por baixo. A menina é madura. Entende mais de jazz do que eu e você juntos, os pais dela são músicos.
- E desde quando isso faz dela madura?
- O bom gosto vem com a maturidade.
- Mas ainda falta vivência.
- É... Talvez falte.
- E imagine se eu tente algo com ela. E imagine se der certo. E imagine se nos apaixonarmos e tivermos lindos filhos.
- O que tem?
- Eu vou ter sido a única experiência amorosa dela? E os namoros que não darão certo? E os namorados cafajestes que vão enganá-la? E os apaixonados que ela vai enganar? E as brigas com as amigas por causa de um mesmo cara? E as confidências? Não é justo privá-la disso!
- Mas se estiverem apaixonados, tudo vale! Esse esteriótipo de vida que você acabou de descrever não é o único que funciona, aliás, ele funciona?
- Tudo bem, mas ela é tão novinha. Precisa viver um pouco mais, sei lá.
- Eu sei qual é o seu problema! Você acha que as pessoas só podem se apaixonar depois de terem vivido muitas experiências. Você não acredita no amor aos dezessete, dezoito anos.
- É claro que acredito! Só não aconteceu comigo.
- E por isso não pode acontecer com os outros? Lembra daquela minha namorada? Aquela do colégio?
- Sei.
- Eu a amava, tinha certeza disso. Queria vê-la sempre e apesar de achar outras mulheres atraentes, só pensava nela como amante. Eu me sentia bem com ela.
- Não foi essa que te trocou por um cara bem mais velho?
- Sim, mas e dai? Por um momento nós nos amávamos.
- Eu lembro dela. Disse que estava cansada de namorar com crianças e resolveu sair com o professor de teatro dela, não é? E você ficou arrasado.
- É claro que fiquei! Eu a amava e ela me trocou por aquele velho maldito!
- Depois o cara não trocou ela por um grande amor do passado?
- Esse mesmo! E ela descobriu que estava grávida.
- Sério?
- É... A vida é terrível não?
- Você fala isso com uma naturalidade. Isso acabou com a vida dela.
- Que nada! Hoje ela mora com os filhos, os ama bastante e não se arrepende de nada.
- E você?
- Eu achei tudo muito engraçado. Ela me procurou depois, mas dai eu disse que o problema de largar crianças é que elas crescem orgulhosas. E eu já tinha crescido.
- Depois eu é que sou o amargurado.
- Pois é...
- Mas é disso que eu estou falando. Não quero privar a garota de viver essas coisas. Desilusões, sentimentos fortes, exceto a gravidez precoce, mas você entendeu.
- Você acha que ela vai se apaixonar por você, não é?
- E se eu me apaixonar por ela?
- Dai saberemos que alguma coisa bate ai dentro.
- Eu não sei. E se ela for virgem?
- Escuta! Ela não é! Ouvi uma conversa dela com minha irmã esses dias. Ela já perdeu. Inclusive a menstruação dela atrasou e foi o maior problema na casa dela com os pais.
- Mas eles ainda estão juntos? Ela e o cara que tirou... Você sabe...
- Não sei, mas é um cara da idade dela.
- Mas é um menino.
- Quase um bebê.
- Mas se ela quis ficar com ele, o garoto deve ter potencial.
- Ele não deve ser igual a essa criançada da idade deles.
- Ou isso ou ela não tinha muita opção e apelou pro primeiro que não confundiu Monet com expressionismo alemão.
- Mas veja bem, como você realmente se sentiu com relação ao professor de teatro da sua ex-namorada quando ela resolveu ficar com ele?
- Fiquei puto!
- Então! Não quero ser um desses caras mais velhos que saem por ai em busca de menininhas inocentes.
- Primeiro: de menininha e inocente ela não tem nada. Segundo: você é um cara legal e não é tão velho quanto aquele maldito.
- Mas não é isso que vai parecer.
- Lá vem você se preocupar com o que os outros vão achar.
- Você não se preocupa?
- Claro que sim, mas não sou eu quem estou gamado numa garota de dezesseis anos.
- E meio, ela tem quase dezessete. Eu perguntei ontem.
- Pois é.
- Você acha que ela gostou de mim?
- Não tirou os olhos de você! Se quiser posso perguntar para minha irmã.
- Deus do céu! Não estamos mais no colégio. Se quiser falar com ela, eu vou até ela.
- E como chegará até ela?
- Peça o telefone para sua irmã e diga que fui eu quem pedi. Ela com certeza vai contar pra ela e as coisas vão ficar ajeitadas.
- Não éramos nós que não estávamos mais no colegial?
- Técnicas antigas não devem ser esquecidas, mas sim aprimoradas.
- Vou falar com minha irmã então.
- Escute, onde foi que ela se conheceram afinal?
- Não sei bem, acho que foi na aula de teatro.
- Droga! Espero que o professor de interpretação delas não seja um desses caras charmosos cheios de lábia.
- Se eu fosse você me preocuparia mais com o professor de expressão corporal.


Continua...

Ouvindo Billie Holiday com "The Way You Look Tonight"

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sábado, 6 de junho de 2009

Choques

O Marido de pé. A esposa sentada. A filha no quarto.
"Perdeu o quê?" disse o marido indignado.
"Isso que você ouviu. Não faça escândalo! Ela já é bem grandinha" retrucou a esposa.
"Grandinha? Ela não tem nem quinze anos!" esbravejou.
"Ela tem dezesseis e já vai fazer dezessete!" respondeu calmamente lendo sua revista.
"Que diferença faz? Quantos anos tem o rapaz?"
"O que importa? Deve ter a idade dela..." desviando a atenção da revista e já demosntrando tons de impaciência.
"Pode ser um desses caras mais velhos que namoram menininhas! Esses são os piores!" disse mexendo os braços, e completou "E já deve estar na faculdade, ter uma bandinha de rock e ser sustendado pelos pais e ainda deve ter aqueles troços estranhos no cabelo..."
"Você está exagerando! Ele é da escola dela..."
"... e ele deve fumar, fazer coisas pra parecer gente grande..." ele continuou
"Páre com isso!" disse lendo a revista.
"... e ouvir aquelas músicas que misturam tudo e não dizem nada..."
"Mas como você é chato! Deixe a menina..." disse desistindo da revista.
"Como posso deixá-la se ela está saindo com um maluco?"
"Isso é coisa da sua cabeça! Ele é da escola dela, um rapaz simpático e inteligente" a mulher partiu em defesa da filha "E até acho que eles vão engatar um namoro"
"Engatar um namoro? Em que mundo você vive? Eles são adolescentes! Nem sabem o que uma frase que contém "engatar" e "namoro" significa! É igual colocar pra eles "pensar" e "vida" numa mesma frase, entende?"
A mulher não respondeu.
"Eu vou lá falar com ela!" disse ele subindo as escadas.
"Deixe a menina" mas já era tarde.
"Err... Filha?" disse já entrando. Ela estava sentada ao computador.
"Sim?" disse sem virar a cabeça.
"Como está? Tudo bem? E a escola?" disse sem saber como entrar no assunto.
"Pai! Eu ouvi você lá embaixo! Está tudo bem, eu entendo toda essa sua indignação" disse ela virando a cadeira para registrar a reação paterna.
"Como é?" disse com aquela cara que a filha adorou.
"Eu entendo! Se eu fosse um homem não teria problema! Poderia ter acontecido até mais cedo inclusive"
"Mas..." ele estava sem palavras.
"E eu entendo toda essa sua bronca e preocupação! Até agradeço, mas acho que já tenho bastante consciência do que estou fazendo"
"Não nego isso, mas é que..."
"Eu sei que posso me arrepender e ficar magoada, mas isso é parte da vida, não é? Não é você que vive falando que essa é a idade em que se formam as cabeças? Que você devia ter quebrado mais a cara na sua adolescência, assim talvez não teria tantos problemas hoje..."
"Ok, vamos deixar meu problemas de lado, a minha questão é que..." tentou continuar.
"Pai, não tem mais jeito! Aconteceu! Não se preocupe! Eu não vou fugir com ele, transgredir as regras pra querer chamar sua atenção! Nem você fez isso!"
Descendo as escadas pensativo.
"E então?" perguntou a mulher.
"Há algo de muito errado com esses jovens" disse ele.
"O que? Você queria que ela fugisse?"
"Bem...Ao menos ameaçasse..." disse indignado.
"Você está maluco! Quer que a menina seja tudo que você não foi?"
"Não é isso..."
"Quer que ela transgrida as regras e quebre barreiras do jeito que você não o fez!"
"Bem..."
"Quer que ela faça coisas pequenas, porém memoráveis, do jeitinho que você não fez!"
"Veja..."
"Você tem sérios problemas, sabia?"
"Qual o problema com as mulheres dessa casa? Vamos deixar meus problemas de lado?"
"Não é nossa culpa se você não sabe lidar com eles!"
"A questão não é essa! É que foi um choque pra mim! Um dia a menina está me mostrando a redação dela sobre as férias e no outro ela me aparece toda pomposa, madura e... Você sabe..."
"Você diz isso porque demorou anos pra perder sua virgindade e ainda perdeu numa situação quase traumática"
"Espere ai! Eu já falei que a gente não sabia que a avó dela estava em casa naquele dia... Foi um acidente!"
"O que só fez de você mais reprimido!"
"Repri... Como é? Você já desviou toda a conversa! A questão é nossa filha! De repente aparece um cara descolado e... Enfim..."
"Você diz isso porque ela é mulher. Se fosse um menino seria diferente..."
"Ah... Então foi você que colocou essa idéia na cabeça dela, não?"
"E além de reprimido, é machista!"
"Você quer parar de me acusar?"
"Você tem sério problemas, sabia?"
"Deixe meus problemas fora disso!" e foi para a cozinha.
Bebendo um copo com água. A porta se abriu. Ele foi falando e se virando.
"Vai me acusar de mais alguma coisa?"
"Não, pai..." disse a filha.
"Ah, você..." disse voltando para a pia.
"Pai! É nessa hora que eu falo umas coisas bonitas, você também, a gente se abraça e pede desculpas um pro outro. Dai a mamãe entra e nos abraça dizendo que nós somos uma família cheia de problemas, mas que nos amamamos e vamos superar isso."
"Meu Deus! Você tem assistido a muitos filmes do Frank Capra"
"Quem?"
"Esquece! E que história é essa de "uma família cheia de problemas"? O problemático aqui sou eu, lembra?"
"Eu também tenho meus problemas"
"É claro! Você é mulher, adolescente, quer mais?"
"Pai!" disse a filha.
A mãe entra.
"Eu pensei que vocês estariam abraçados, eu me juntaria e diria algo bonito" disse ela decepcionada.
"Deus do céu! Acho que devemos ir para a locadora agora" disse o pai.
"Alugar um filme do Frank Capra?" disse a mãe.
"Mas quem é esse afinal?" disse a filha.
"Não! Eu sugiro algo entre Bergman e Gorge A. Romero."
No carro.
"Pai! Esse Bergman não é diretor de fimes eróticos?"
"Não! Esse é o Buttman" disse o pai.
"Como você sabe dessas coisas?" perguntou a mãe.
"O pai deve ter demorado pra perder a virgindade, daí recorria a esse filmes" disse a filha.
"Escute aqui! Não quero tocar nesse assunto quando você estiver por perto, pelo menos até você ter um filho, dai não poderei mais negar"
"Na verdade... Minha menstruação está um pouco atrasada" disse a filha retiscente.
Carro freia bruscamente.
"O que?" disseram os pais.

Continua...

Ouvindo Django Reinhardt com "I´ll see you in my dreams"

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