"Não! Por quê? Parece?" ele replicou.
"Não! Não! Está meio diferente, sei lá!"
"Não! Não cortei não..." e foi sentar na poltrona.
"Quer um café?" ela perguntou.
"Não, obrigado! Você vai demorar muito? O filme começa em uma hora e pelo jeito você nem arrumou o cabelo!" ele disse.
"É claro que arrumei! Por quê? Não parece?"
"Parece sim!" sorriu "Estava só brincando!" mentiu.
Ela saiu da sala, ele pegou um jornal e começou a procurar algo que o interessasse.
"Não vai demorar que vai ter fila! Sabe como são esses festivais!" ele gritou da sala. Ela voltou.
"Está melhor?"
"O quê? O cabelo? Mas é claro! Já estava bom antes!" disse alternando os olhos entre o jornal e os cabelos dela.
"Você disse que parecia desarrumado!"
"Eu falei brincando!"
"Vou pegar o secador!"
Ele largou o jornal, levantou e se aproximou "Está ótimo! Deus do céu! Eu gosto assim! É mais selvagem! Fica mais cool!"
"Esse é seu melhor elogio?"
"Sim! Agora veste logo um sapato que já estamos atrasados."
"Eu não tenho nenhum sapato bom!"
"O quê? Você tem um milhão de sapatos!"
"Mas nenhum que combine com esse vestido... Nem com o cabelo!"
"Você está de brincadeira! Metade das garotas na sala do cinema não estão nem aí com o sapato que elas estão vestindo." ele argumentou.
"Você que se engana! É muito mais difícil seguir essa moda de hoje em dia!"
"Então não siga moda nenhuma!" ele protestou.
"Mas essa é a ideia! Não seguir moda nenhuma, entende? Não seguir nada é seguir alguma coisa! Por isso é tão difícil escolher o sapato certo! Porque não tem sapato certo."
"No final vocês vão estar todas vestindo o mesmo estilo!" checou as horas no celular "Caramba! Estamos atrasados! Veste aquele verde com detalhes de florzinhas que fica bom!"
"Como você sabe que eu tenho esse sapato?" ela se espantou.
"Eu sei lá! Reparei uma vez!"
"Foi você quem me deu de presente, não lembra?"
"É! Isso também! Agora vamos!"
Esperando pelo elevador.
"Por que você insiste em fingir que não liga pra essa coisas?" ela perguntou.
"Que coisas?" ele apertou novamente o botão para chamar o elevador.
"Essas coisinhas fofas! Aposto que você conhece cada sapato que eu tenho."
"Eu sei desse verde porque fui eu quem te dei! Não fico reparando nos outros."
"Fica sim que eu sei! E você às vezes finge que não lembra que me deu tal coisa só pra dar uma de durão."
"É! É isso mesmo!" checou as horas "Depois de você!" e entraram no elevador.
"Grosso!" e fechou a cara.
"O quê? O filme começa em meia hora e a gente nem comprou os ingressos! Depois a gente discute o quão durão eu tento aparentar, pode ser? Agora vamos!"
Na fila.
"Ainda bem que conseguimos!" disse ele aliviado.
"É claro que conseguimos! Ninguém mais quer ver esses filmes."
"Bom... Até que a fila está grande! Hei! Olha ali! Uma menina vestindo o mesmo sapato que você!"
"Onde? Ah! Que droga! Eu sabia que devia ter vestido outro." disse se escondendo atrás dele.
"Pare de besteira! É só um sapato! E outra, o seu cabelo é bem mais selvagem que o dela! Você está muito mais cool!"
"Você adora essa palavra, né? E vá pro inferno! Meu cabelo está ótimo! Melhor que o seu!"
"Como assim? O meu está super cool!"
"De novo! Enfim, você devia dar um aparada nele! Sei lá..."
"Você sempre disse que gostava dele assim!"
"Sim! Eu gosto, mas não sei! Talvez tenha crescido muito, não sei!"
"Eu gosto dele assim!"
"Você é preguiçoso, isso sim!"
"É! É isso mesmo!" disse acompanhando a fila que começava a andar "Depois de você!"
E entraram na sala escura.
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| Antoine et Colette (François Truffaut, França, 1962) |





