sábado, 25 de outubro de 2008

Fragilmente fácil

Andando pela rua, marido e esposa viram uma criança que chorava e os adultos vinham socorrê-la. Havia caído, qualquer coisa.
Pararam para observar.
"A vida é frágil" disse a esposa.
"Frágil" retrucou. E continuou andando. Parou.
"Frágil, no entanto, chegamos até aqui, não é mesmo?" disse vagamente olhando para a criança que já era acalmada pelos mimos "Lembra quando nos conhecêmos e tivemos aquela conversa sobre a existência?" perguntou.
"Foi a pior cantada que já havia recebido, mas me encantou" respondeu a mulher sorrindo.
"Não era uma cantada, estava fazendo um estudo sério sobre o assunto" indignou-se.
"Bem sério" ironizou "E aquela história de que a nossa vida podia ser apenas os últimos segundos da vida de alguém, as lembranças que alguém nunca teve?" indagou a esposa.
"Estava certo de que a vida podia ser mais que isso, mas queria provocá-la" respondeu.
"E dizer que a qualquer momento isso tudo podia acabar e que deveríamos aproveitar ao máximo as relações humanas que eram tão ricas não parece uma cantada?" perguntou a esposa já esperando uma resposta indignada, que de fato veio.
"Eu não estava errado. Até hoje defendo isso"
"Defendeu muito bem no dia. Chegando perto de mim no sofá, falando manso, bancando o intelectual e ao mesmo tempo desprendido de ideologias e fórmulas" disse ainda em tom irônico.
"Bem..." procurou palavras no ar "Você não resistiu ao meu encanto" e sorriu.
"Nem você ao meu" completou a esposa.
"Foi ai que, chegando pertinho, eu te beijei" disse ele com os olhos noutro tempo.
"Fui eu quem te beijou. Você tremia tanto que mal conseguia segurar a taça de vinho, e então tive que agir" provocou esperando um marido indignado, que não veio. Pensativo e com um sorriso no canto da boca, disse:
"Tem razão. Sempre ficava tremendo. Aqueles momentos que precedem os primeiros beijos são sempre os mais difíceis."
"São oportunidades únicas" disse a mulher já em outro tempo também.
"E frágeis..." concluiu ele "Já faz tanto tempo. Trinta anos?"
"Trinta e cinco" respondeu ela.
Por um tempo ficaram pensativos e ela continuou "A vida..."
"é frágil..." completou ele "Bem sei..."
Sem saber quando, mas suas mãos haviam se tocado e por um tempo ficaram se encarando.
Confidenciando. Compartilhando.
E saíram, com as mãos dadas.
A criança já não mais chorava e o casal esperava até que o farol esverdeasse para que pudessem cruzar a rua. Em silêncio.


Ouvindo "I'm in the Mood for Love" por Errol Garner.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Poema da vida moderna ou Poema do ar

Nascer
crescer
acumular
perder
beber
amar
perder
sair
beber
beijar
acumular
perder
perder
ganhar
sofrer
sorrir
perder
ganhar
crescer
perder
ganhar
acumular
perder
chorar
andar
voltar
sair
cair
deitar
amar
respirar
esperar
ler
ver
perder
ganhar
sair
entrar
Morrer


Começa com esse poema esse novo Blog!
Nada de novo! Mesmo estilo, mesmas idéias...
Nome curto, porque hoje em dia, não temos tempo... Nem nada!
Mas deixe pra lá!

Abraços!