segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Desfestas

Ao se encontrar com ele, sentiu que dalí nada poderia sair. Mas insistiu.
Gostava do jeito sedutor dele. Meio entregue, meio misterioso.
Meio "sou seu", meio "não é bem assim".
Mas sabia que dalí não saia nada. Conhecia esse tipo de homem.
Desses cavalheiros por oportunidade, grossos por natureza.
Ela, apesar de tê-lo visto e percebido e se interessado primeiro, não foi falar. Esperou que ele viesse, e veio.
"Odeio esse tipo de música" disse ele.
"Eu até gosto. Por que veio então?" perguntou ela.
"Estou com uns amigos" apontou para o grupo de homens e mulheres.
Ela não estava afim de conversar. Já tinha passado dessa fase "conversa-vinho-cama", prefeira pular as duas primeiras e depois retomá-las. Mas ele não havia percebido e manteve a conversa.
"Você é daqui? Tem um sotaque." percebeu.
"Minha família não é, mas eu moro aqui" disse.
"Entendo... E você mora com algum parente?" perguntou.
Ela estava notadamente pouco afim de seguir a conversa naqueles moldes. Para quantos caras ela já não teve que contar essa história?
"Moro sozinha, um apartamento só meu! Porque você não passa lá pra gente se conhecer melhor?" pensou, mas não disse.
"Sozinha" disse de uma vez. Hesitou, pois sabia que estava num beco sem saída "E você?"
"Também! Com um amigo, na verdade" disse.
"Ele está aqui?" perguntou sem querer perguntar.
"Não, foi prum bar, brigou com a namorada e quis encher a cara"
"E você não foi com ele?" perguntou, já mais animada, apesar de lembrar vagamente de já ter tido conversa do gênero com outro homem.
"Não! Mágoas a gente engole sozinho!" disse secamente.
"Não precisa engolir as mágoas dele. Você já não tem suficientes?" perguntou, alterando o rumo da conversa.
"Não! Também briguei com a minha namorada." disse dando um gole de cerveja.
Pensou em perguntar se ele tinha namorada, mas percebeu antes de perguntar.
Disse então:
"Entendi..." e deu um gole da cerveja dele, sem pedir.
Ele sabia das intenções dela, mas ainda estava incerto e perguntou tentando não ser agressivo:
"Entende?"
"É... Também briguei com o meu namorado recentemente" mentiu sem saber o motivo.
"Sinto uma certa coincidência aqui no ar" disse ele sorrindo.
Ela ficou na dúvida se aquilo tinha sido uma cantada muito ruim ou um comentário inocente. De todo jeito, ela gostou.
"Aliás, qual o seu signo?" disse ele.
"Libra" disse ela automaticamente sem pensar no motivo da pergunta.
"Droga" disse ele "Achei que teríamos mais coincidências"
"É... Nem tudo combina" disse ela olhando pro lado com ar de desprezo mas sem desprezá-lo totalmente.
Ele pensou como poderia manter aquela conversa.
Percebeu que naquele momento qualquer coisa que ele dissesse encaminharia a noite.
Ela pensava o mesmo e esperava que ele dissesse algo.
"Você veio sozinha?" perguntou
"Não, estou com uma amiga" disse e pensou "Recomeçou mal"
"Ela também brigou com o namorado?" disse ele, ela riu e respondeu:
"Não! Não! Ela gosta de estar solteira"
"Quem não gosta?" disse ele rindo e abrindo os braços para o mundo.
"É..." sorriu, mas ficou em dúvida sobre aquela resposta.
Ela mesmo não sabia se gostava de estar solteira. Se por vezes ela adorava o fato de chegar em casa e ter uma vida só para ela, sem preocupações por terceiros e não ter que planejar seus fins de semana em função de outros, também sabia que não lhe faria mal uns beijos na costas, uma mão que não fôsse a sua pessando pelo corpo, um cheiro no pescoço, mãos nos cabelos e mais beijos.
No momento íntimo ela se aproximava, gostava, mas depois fugia. Expulsava.
Talvez fôsse adepta da filosofia do "rejeite para não ser rejeitada" e viu muitos chorarem aos seus pés. E ela, confessava, já não aguentava mais.
"Ainda está ai?" perguntou ele "Perdida em pensamentos?"
"Oi?" percebeu que sumira por um tempo, a música, as luzes, tudo havia sumido por uns instantes "Só pensando" e completou "Escuta! Você é uma graça, mas não acho que possa dar certo! Ainda não é o momento..."
"Tudo bem... Não deve ter sido fácil terminar um namoro"
"Pois é..." disse ela sustenando a mentira, mas se incomodou e perguntou "Por que acha isso?"
"Mil perdões, mas dá pra ver na sua cara que não foi um fim fácil" disse ele.
Talvez ele tenha se arrependido de ter dito aquilo, mas já não tinha volta
Ela se corroía por dento "Mas tem meses que eu não termino com ninguém, de onde ele tirou isso?"
E disse:
"Saiba que fui eu quem terminei" mentiu entre aspas.
"Como se isso fosse um mérito e te deixasse num estado bem melhor" disse ele com ironia.
Ela disse numa mescla de nervosismo, dúvida, constragimento e depois certeza.
"Eu nunca fui "terminada"! Fui sempre eu que dei o primeiro passo para o fim"
"Eu sabia que nós tínhamos muito mais em comum."
Sem palavras, ela esperou. Ele chegou mais perto, deixou a cerveja que já estava quente de lado e a beijou. Ela já esperava por aquilo desde o começo, mas não nas atuais circunstâncias.
"Mais um?" ela pensou.
"Mais uma." pensou ele.
"Ou talvez..." pensaram.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Heróis acidentados

Desceu do ônibus num pulo, pois estava atrasado, olhou para o lado e foi o que viu:
motoqueiro buzina, carro, buzinas, motoqueiro é arremessado contra uma árvore grossa no meio daqueles canteiros entre aquelas avenidas grandes no meio da grande cidade.
Sacou o celular e ligou para o resgate e viu:
seis pessoas faziam o mesmo.
Foi atendido.
"Um motoqueiro, próximo à altura mil. Ele deve ter uns vinte e cinco anos"
Olhou pro lado, e umas seis pessoas diziam o mesmo.
E percebeu que não fora o herói.
Ainda chegou perto da vítima, junto ao alvoroço disse inutilmente:
"O resgate já está chegando"
Constrangido. Afastou-se. Pegou outro ônibus, ainda sem ouvir barulhos de sirene.
E teve seu dia, sem confidenciar a ninguém o seu não-feito.
E de heróis:
nem os de cinema e nem os mortos de overdose mais prestam.
Só calam e silenciam.