terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Sobre mães, moças e tecnologias...

Ao invés de nomes no celular, ele colocava parentes. Do gênero feminino pra ser mais exato.
Eram categorias: "irmã mais velha" eram na verdade paqueras antigas, "irmã mais nova" eram paqueras mais recentes, "tia" eram aquelas que nunca sairiam do seu pé, e "mãe", é claro, eram aquelas que estariam lá sempre que ele precisasse. Não queiram saber das primas.
Tudo funcionava muito bem. Quando estava com uma e recebia uma ligação de outra, sacava o celular sem problema algum. Não se preocupando com olhar ferino, maligno e pretensamente descontraído da moça ao seu lado que ao ver escrito na tela "Mãe" logo se enchia de alívio. Mal sabia ela das tantas outras "mães" da lista: mamãe, mãe, mãezinha, mamis, mama e por ai vai.
"Não posso hoje. Estou ocupado. Está certo! Um beijo então! Te adoro!" dizia ele ao telefone.
"Sua mãe?" perguntava a moça despreocupada.
"Sim, queria que eu almoçasse com ela" dizia.
"Nossa! Como você é carinhoso com sua mãe" comovia-se.
"Não podemos tratar mal nossas mães" dizia ele pensando numa coisa e deixando-a pensando em outra.
Ia tudo muito bem até o dia em que sofreu um sequestro relâmpago.
Saia dum desses caixas eletrônicos quando os dois elementos o abordaram.
"Passa a grana!" disse um deles numa típica cena.
Calmamente ele passou o dinheiro, um prendia suas mãos e o levava para um beco escuro enquanto o outro contava o dinheiro.
Um pegou o celular. O outro ligou direto no "Mãe"
"Estamos com seu filho" disse.
"Meu o quê?" disse ela.
"Seu filho, queremos o resgate, caso contrário ele morre" insistiu o homem.
"Mas..." parou e pensou nesses trotes mal-intencionados "Tudo bem..." disse ela que não tinha filhos e nem planejava tê-los.
"Como?" disse o homem.
"É isso mesmo! Pode matar, não me vai fazer falta" continuou.
"Mas é teu filho, dona! Ele está sangrando!" usou do emocional.
"Siceramente, é um a menos no mundo. Depois desse pretendo adotar um, sabe? Tanta criança sofrendo no mundo... Pra que ficar fazendo mais?" disse olhando para as unhas.
"Escute aqui! Estou falando sério! Só está vivo até agora porque sou paciente" ameaçou.
"Sim eu sei! E digo que está perdendo seu tempo" desdenhou ela.
"Põe ele na linha" disse o homem para o outro.
"Alô" disse ele assustado.
Olhos arregalados e o telefone quase caiu da mão dela. Por alguns segundos ela ficou sem entender, mas depois ficou claro. Bem claro. Aquela clareza que trás tudo à tona, inclusive os mais sórdidos desejos de vingança.
"Viu como estamos com ele?" disse o homem.
"Sabe, moço... Pensando bem, não precisa matar não, mas dê uma boa surra no meu filho por mim?" e desligou o telefone.
Ainda meio confuso, o homem virou para o outro e disse:
"Só pega o dinheiro mesmo e vamos embora!"
Virou-se para o sequestrado que estava caído e apavorado no chão. Jogou o celular para ele e disse "Escute, rapaz! Nunca mais trate mal sua mãe, entendeu?"
Fez que sim com a cabeça e foi embora!
No outro dia contou o ocorrido para os amigos no trabalho, na faculdade e em todo canto. Disse que sua vida passou pelos seus olhos e que não sabia o que tinham dito ao assaltante, mas aquilo salvara sua vida.
"Mas e agora? Vai tomar jeito na vida e colocar nomes às moças no seu celular?" perguntou um amigo enquanto tomavam um café.
"Que nada, mas vou selecionar bem aquelas que estão na categoria "mãe", só por segurança, sabe?"
E foi encontrar sua irmã caçula para jantar.