segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [8]

Tira colorida no photoshops feita durante a viagem de natal e que já tem continuação, mas estou com preguiça de retocar...

Depois de amanhã eu posto!








PS: Depois de amanhã porque hoje já é meu aniversário!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [7]

Última tira antes do Natal!















Ouvindo Billie Holiday...

Agora só volto pro meu aniversário!

Feliz Natal!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Estranhos na noite...

Saco-cheio adolescente.

Eles eram adolescentes e apaixonados.
Ele: Ouve essa música! Eu estava prestando atenção e percebi que tem tudo a ver com a gente!
Ela: Sério? Que romântico!
Ele: É... É do Frank Sinatra!
Ela: De quem?
Ele: Ah! Ouve...
Ela (ouvindo): É... Legal... É meio brega, né?
Ele: Oi?
Ela: Meio velho, né?
Ele: Me dá isso aqui!
Eles eram adolescentes.

Ouvindo "Strangers In The Night" com Frank Sinatra

"Love was just a glance away,
A warm embracing dance away..."


domingo, 13 de dezembro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [6]

O Leão nosso de cada dia...









Ouvindo "Queen Bitch" com David Bowie

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Tomada Infantil

As duas crianças comiam seus lanches na hora do intervalo.
Joelho com joelho, cada qual com seu lanche. Ele pergunta:
"O que você tem ai?"
"Você não iria gostar! É natural" disse ela despreocupada.
"Credo! Foi sua mãe que fez?" perguntou ele voltando ao seu lanche.
"Não! Fui eu mesma! Li numa revista em casa que era bom comer coisas naturais..." disse dando uma primeira mordida em seu sanduíche.
"Você leu? Numa revista?" disse ele espantado.
"É... É uma que minha mãe compra. O que tem?" perguntou ela.
"Eu vi na TV que é bom comer presunto! Tem aquela coisa boa pro corpo, como chama? A gente viu na aula ontem!" ele olha para a entrada das salas como se pudesse extrair alguma dica delas.
"Proteína?" ela chutou.
"Isso! Isso! Isso mesmo! Ta vendo? Aposto que nessas coisas verdes ai não tem essa tal da proteína" ele se gabou dando uma grande mordida no seu lanche.
"Mas acho que no meu tem certos nutrientes que você jamais acharia no presunto" explicou ela com tons de sabedoria.
"A gente não precisa de mais nada quando se tem proteína" ele disse olhando com orgulho para as duas fatias de pão e algumas de presunto no meio já mordidas.
"Você não prestou atenção na aula mesmo, não é? É claro que precisamos de outros nutrientes. Proteína não é vitamina, por exemplo." argumentou ela.
"Ainda fico com a proteína" deu mais uma mordida.
"Ok, fique com sua proteína então!" e mordeu seu lanche também.
Joelhos separados, cada um com seu lanche.
O sinal bate e todos os alunos soltam um coletivo suspiro de lamento. Sem mais pega-pega, sem mais gracinhas, sem mais fofocas, sem mais discussões. Era hora de voltar. Ainda faltava uma mordida, ele já de pé virou e se rendeu:
"Tá! Talvez tenham outras coisas além da protelina"
"Proteína" corrigiu ela e se levantou.
"Tá! Que seja! Talvez tenham..." disse ele olhando os colegas voltando desanimados para as suas classes.
"E talvez eu não devesse comer só os nutrientes verdes e esquecer da proteína" ela disse.
Os dois ficaram pensando.
"Quer o último pedaço?" ele estendeu a mão.
"Só se você ficar com o meu" ela repetiu o gesto.
Cada um comeu o pedaço do outro.
"É nojento!" disse ele figindo que estava quase vomitando.
"O seu tem um gosto muito forte! Argh!" ela reclamou.
Mãos dadas, eles voltaram para a sala.




Ouvindo "Ciranda da Bailarina" com Mônica Salmaso.

Cayo, el cartunista de manos vacías [5]

A gente tem cada ideia quando desce do ônibus...

"Fragilidades..."







Ouvindo a clássica "(There Is) No Greater Love" interpretada por Amy Winehouse.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [4]

Ou "Como eu enrolei para escanear meus últimos desenhos"

"Iluminado"









"Surpresa" ou "Como não prestei atenção na aula"












Ouvindo Bowie, pra variar...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Jovens choques

Da série "Choques"

Já conversavam por algumas horas sentados no sofá e partiam para a segunda garrafa de vinho.
Na TV, um clipe de alguma banda qualquer.
Depois de tantos temas discutidos, remexidos, relembrados, caíram no clássico tema de relacionamentos.
"Vou desencanar de vez! Dá muito trabalho" disse ela.
Ele com um leve sorriso na boca e olhando para o nada disse:
"Desistir assim de repente não tem graça... Precisa de um trauma, uma coisa grave."
"E como você sabe que não passei por algo assim no passado?" questionou ela.
"Seu rosto, sua fala, seu jeito não guardam muitos segredos" disse ele virando só a cabeça e dando um gole no vinho ao que completou "E nem idade pra tantos traumas assim você tem"
"Como se você fosse muito mais velho" debochou ela.
"Mas eu sei..." disse beirando a arrogância que, ele percebeu, não a agradou.
"Não..." disse ela sorrindo debochadamente sem poder pensar em algo melhor para dizer e indicando sinais de sono.
Por mais que ele quisesse virar, chegar mais perto dela, dizer algumas palavras e por fim beijá-la, sabia que os riscos de não conseguir eram grandes. Para evitar constrangimentos, não encaminhava a empreitada. Ficava no sofá.
"Vou começar a ficar só por ficar" disse ela.
"A velha história" disse virando os olhos e continuou "Começa assim: fico por ficar e quando vê, já está apaixonada..."
"Você toma por base as garotas com quem já ficou" disse ela incomodada "Nem todas são assim" completou.
"Tudo bem, não posso generalizar... Mas em grande parte..." deu mais um gole.
"Você já levou um fora?" perguntou ela.
"Mas é claro! Faz parte da vida... Mas eu gosto de chamar de falta de sintonia. Quando não rola não rola e não é você que vai mudar isso."
"E todo aquele poder de sedução que você tinha me dito que usava?" insinuou ela.
"Nem sempre deve ser aplicado. Às vezes é muito esforço pra pouca coisa, entende?" argumentou pensando se a regra não se aplicava à ocasião.
"Quer dizer então que você só avança se a outra demonstrar interesse?" perguntou ela.
"Na verdade eu só demonstro interesse se ela demonstrar" disse convicto.
Pensou que talvez pudesse usar essa conversa em seu favor.
"E se ela não demonstrar que está afim..." disse ela.
"Não movo um dedo" mentiu ele.
"É engraçado poder falar dessas coisas com você" disse sem insinuações "Não converso sobre isso com muitos caras"
"Ou você é muito azarada ou muito sortuda por isso" disse ele rindo.
"Como assim?" riu "Sei lá... Me sinto natural falando disso com você, só isso... Apesar de você ser irmão da minha melhor amiga, você sabe..."
Talvez fosse esse o momento de avançar, mas hesitou. Não poderia ser nem muito direto, nem muito sutil. Talvez ela viesse com a solução, e veio:
"Porque você é o tipo de cara que eu sei que se ficasse comigo não ia sair por ai falando pra todo mundo, nem ia se apaixonar por mim" disse argumentando seriamente, como se fosse uma teoria relevante.
"No entanto" ele terminou o vinho da taça e disse "Há alguns motivos para que não fiquemos..."
"Não! Não é isso que quis dizer" interrompeu ela.
"Preste atenção: já passamos do estágio onde ou transamos ou viramos amigos, certo?"
Ela fez que sim.
"Já passou um tempo. Conversamos sobre muita coisa. Sabemos de algumas intimidades que só se reportam aos amigos e não amantes"
Ela fez que sim, apesar de não concordar.
"E eu adoraria dizer que você não faz meu tipo, no entanto dentro dos grupos de mulheres que fazem o meu tipo" fez que ia contar nos dedos olhando pra cima "você até que se encaixa num grupo talvez... Mas..."
Sem esperar ganhou um beijo dela.
Fazendo desmoronar toda sua teoria, retribuiu.
Nunca fora tão difícil, mas fácil, porém inusitado.
Nada como uma pitada de desprezo despretensioso.

Ouvindo Regina Spektor

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Memória Botecal

Já passara um tempo, mas ele lembrava com nostalgia do boteco em que comia algumas vezes por semana na época em que trabalhava lá pelas bandas do centro. A verdade é que desde criança fora apaixonado por botecos. Seu pai teve um bar e ele lembra até hoje das vezes em que, quando com fome, chegava da escola e pedia uma coxinha engordurada. O pai negava e dizia que sua mãe não iria gostar, mas no final ,depois de muita birra acabava cedendo. Fato que lhe renderia algumas broncas da esposa de noite quando o filho se queixava de enjoo e a mãe perguntava quase que inquisitoriamente "O que você comeu hoje?" deixando a criança impossibilitada de mentir e o pai numa situação mais que desconfortável.
"Falei pra não dar besteira pro menino" dizia a mãe.
"Mas ele estava com fome e não tinha almoço pronto em casa" retrucava o pai.
"Alguém tem que trabalhar de verdade nessa casa" revidava certeiramente a mãe de três filhos que trabalhava o dia inteiro.
E a briga se seguia e se repetia quase toda semana. No começo, achava que a briga era por conta das besteiras gordurosas que saboreava quando chegava da escola e lhe faziam mal ao fígado, mas reparou que seria bom demais se o motivo fosse só esse.
Aconteceu de o pai vender o bar depois do terceiro roubo ao lugar.
Ele viu com tristeza as portas do bar serem fechadas. As luzes de dentro apagadas, mas ele podia ver o velho sofá no fundo, a pia, o baleiro que sofrera em suas mãos, a caixa registradora, tudo entregue a escuridão assim que as portas foram cerradas só sendo reabertas para uma loja que reformaria todo o lugar anos mais tarde.
O fato é que toda vez que comia no boteco do centro, sentia essa felicidade escondida dos os tempos de infância.
O balcão de higiene duvidosa, a salada sempre variada e um pouco murcha "Sem cebola, por favor" ele pedia, a cozinheira com ares de Tia Anastácia e os copos que variavam do tipo americano ao tipo pomarola ou requeijão.
"Coquinha com gelo e limão?" indagava o dono do boteco quando ele entrava "Opa! Por que não?"
"Frango com quiabo?" lançava a atendente "Pode ser, mas sem quiabo. Só o caldinho" interava. "Manda um frango com quiabo sem quiabo, dona Isabel!" e lá do fundo ela gritava "Pode colocar macarrão?" e a atendente o olhava como que dizendo "Não vai responder?" e ele gritava meio sem jeito lembrando que lera na sala de espera do dentista numa revista feminina que não era bom pra dieta misturar massas com frango "Um pouquinho, pode ser..."
"Quiabo é afrodisíaco" dizia um velho na ponta do balcão e ele sorria. Olhava para a TV e lá uma mulher bonita cercada de marmanjos comentava os gols da rodada do campeonato. Ele sorria e se sentia bem.
Gostava do "clima botecal", como gostava de chamar. Bem melhor que aquele self-service no final da rua, ou melhor, bem mais humano que qualquer self-service onde encontrava sushis ao lado de feijoadas, tabules ao lado do arroz à grega. Por mais que tais restaurantes fossem talvez os únicos recintos onde a cultura árabe e judaica pudessem conviver sem que nada explodisse, não se sentia bem ao entregar a comanda para o homem da balança que anotava o quanto você colocara no prato e soltava um sério "Obrigado e bom apetite" e depois ia sozinho compartilhar uma mesa com desconhecidos que sequer ousariam comentar se tal prato era bom pra isso ou para aquilo. Entrar, encher, pesar, comer, pagar (fila longa) e sair.
"Ela colocou um pouco mais de caldinho pra compensar o quiabo, tudo bem?" dizia a atendente ao trazer o prato. "Ótimo" dizia.
Talvez fosse saudosista demais, ou simplesmente preferia esse "clima botecal" que ia além das paredes do boteco, ele sabia, e o que mais o entristecia é que tal clima vinha se perdendo cada dia mais.
Um dia, chegou meio mal do estômago em casa. Já não trabalhava mais pelo centro e fazia tempo que não ia num autêntico boteco (eram poucos. Só aqueles atificiais que tinham virado moda nos bairros ricos e badalados).
Resolveu ligar para a mãe para pedir a sugestão de um bom chá.
"É o estresse, mãe. Não se preocupe." dizia acalmando-a.
"Será? O que você comeu hoje?" retrucava incisiva como sempre.
"Bom, eu preferia ter almoçado um frango com quiabo sem quiabo, mas acho que foi o kibe cru que não caiu bem com o torresmo" e riu nostalgicamente deixando a mãe sem entender o motivo.

--

Retomando textos.
Notem que há umas mudanzinhas ao lado.

Abraços


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [3]

Ou "Como mesmo cheio de trabalho pra fazer, arranjei uma brecha para desenhar"









Ainda ouvindo Bowie, com uma versão demo de Ziggy Stardust

Abraços

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [2]

ou "Como eu continuo arrajando brechas para desenhar (mal) no trabalho"







Agora em cores! Chique né?

Abraços!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías

Ou "como eu enrolei muito no trabalho hoje"


Ouvindo o bom e belo Bowie com "Five Years"

sábado, 26 de setembro de 2009

Cansado

Ao entrar em estado de crise existencial, geralmente expurgo todo e qualquer sentimento através da piada, do humor ou de algo que me faça ou faça os outros rirem.
Não que necessariamente faça coisas engraçadas. Por vezes elas são superestimadas, por outras o contrário. Não me considero nenhum artista, aliás estou bem longe disso e escrever num blog é nada mais que satisfazer um pouco do meu ego extraindo o que porventura possa vir a passar dentro de minha cabeça.
Tenho ideias no ônibus, na rua, no trabalho e na faculdade. Vejo coisas e penso em textos, filmes e fotografias, mas não me surpreendo porque afinal qualquer pessoa com o mínimo de referência cultural pode tergiversar e se aventurar por qualquer campo.
E a tecnologia veio ao mundo para isso. Transforma com blogs qualquer escritor num grande escritor e com as câmeras digitais qualquer fotógrafo amador num grande fotógrafo. A tecnologia talvez endossa a ideia primordial liberal que teve seu ápice na revolução francesa, ou seja, a ideia de igualdade.
Qualquer um pode ser, para isso basta querer.
Excluindo a bordão da fraternidade, que remete a outros quesitos, a liberdade e a igualdade seguem de mãos dadas e caminham até hoje nas nossas mentes como coisa dada ou coisa posta, portanto coisa positiva, logo, natural.
Como isso está dado, fica difícil questionar.
Igualdade e a liberdade não são coisas ruins, mas talvez é bom pensar vez ou outra o quão perverso pode ser um sistema que empurra na cabeças que todos são capazes, são livres para fazer e ao fazê-lo podem ser bem sucedidos e manter as coisas girando. E danem-se aqueles que não conseguem. São vagabundos ou eternos loosers. (Num sistema alternativo, todos também seriam livres para criar o que bem entendessem, a diferença é suas obras não visariam o lucro algum)

Estão ai as câmeras, os blogs e o Youtube. Ferramentas que colocam em nossas mãos o poder de fazer mesclado ao falso poder de ser. E não é a toa que eu esteja escrevendo esse texto através de uma ferramenta assim, porque sei que a cada dia 50 mil blogs são criados no mundo e que essas palavras não passam de um pequeno bilhete depositado numa garrafa perdida no oceano.
Estou na minha ilha e joguei minha garrafa, mas ela não sai do lugar pois no mar já não há mais água e sim garrafas. Dentro delas posso ver mensagens, fotos e vídeos.
E tudo isso me deprime e o que ainda mais me deprime é querer me diferenciar dessa massa caindo na velha armadilha da diferença que iguala.
A solução?
Posso não saber, mas creio que estudando, nossas cabeças se abrem para além de meros objetivos pessoais e vaidosos. Talvez estudando, ganhamos maior consciência do todo e ai sim podemos pensá-lo de modo a ajudar a construí-lo.
O que vier a mais, com o perdão da hereseia literal, é lucro, ou usura, como preferirem.




terça-feira, 22 de setembro de 2009

Suposições

Série Saco-Cheio

Episódio Sétimo:

Festa de amigos. Eles tem alguns em comum. Meio bêbados.
Ela: Você faz  o que mesmo?
Ele: Estou na faculdade. E você?
Ela: Sou psicóloga.
Ele: Legal.
Ela: Na verdade especializada em sexo. (gole da bebida dele)
Ele: Uma sexóloga? (gole da própria bebida)
Ela: Isso! (outro gole da bebida dele)
Ele: Nossa...
Ela: O quê?
Ele: Deve ser horrível transar com uma sexóloga. Não tem muito onde inovar, não é?
Ela: ...
Ele: Não é?
Ela: É... É sempre meio complicado. (gole do próprio copo)

***

Ouvindo September Song, de um filme do Woody Allen.


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Crise Pessoal

Série Saco-cheio:

Episódio Sexto

Andando na rua.
Ela: Você anda muito estressado. A gente quase nunca se vê e quando se encontra é só patada.
Ele: É o trabalho! E quanto mais as pessoas me enchem mais eu fico estressado.
Ela: Quanta grosseria! Você precisa relaxar um pouco.
Ele: Eu sei... Eu até tentei me masturbar hoje de manhã...
Ela: Pelo visto não funcionou.
Ele: É... Não consegui...
Ela: Precisava de mais estímulo?
Ele: Não! É que eu sou muito exigente comigo mesmo...

***

Aos assíduos dois leitores do blog,

tentarei postar com mais frequência... Pelo menos alguma coisa por semana.
A qualidade pode cair, mas a audiência aumenta, tipo Zorra Total, sacam?

Abraços

PS: A série Choques vai continuar em breve... Só me falta cabeça...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Eternos Choques

Sequência de Choques

- Acho que foi aquele filme do Woody Allen que me deixou um pouco deprimido.
- Woody Allen? Mas ele não faz comédias?
- É, faz, mas são justamente essas que às vezes me deixam mais pra baixo.
- Mas como assim?
- É que elas tem um sarcasmo forte com relação à vida, sabe? Um pessimismo tão grande que chega a ser engraçado.
- Mas a vida não é assim?
- É... E por isso que fiquei um pouco deprimido.
- Você é doido. Aposto que nos filmes de drama você sai por ai dando pulos de alegria.
- Nem sempre. Mas é que nesse filme eu fiquei meio angustiado.
- Era sobre o quê?
- Sobre um jovem escritor que tinha uma namorada maluca.
- Até onde eu sei quase todos os filmes do Woody Allen tem essa trama.
- Eu sei, mas é que nesse ele faz o tipo conselheiro e não consegue entender como essa juventude está cada vez mais rápido neurótica e problemática.
- Envelhecer deve ser terrível. É que nem aquela máxima que diz que quando você é jovem tem o corpo mas não tem a mente e o contrário também vale.
- Exatamente.
- Dai você assiste um filme que fala sobre isso e fica todo deprimido?
- É que isso me fez lembrar aquela moça que encontrei na festa de ontem.
- Aquela novinha que não tirava os olhos de você? É amiga da minha irmã. Incrivelmente inteligente. Bonita e tem senso de humor.
- Eu sei. Conversei um pouco com ela. Eu tomando cerveja e ela refrigerante.
- Ah! Entendi!
- O quê?
- Como o quê? Você gamou nela e não admite só porque ela é bem mais jovem.
- Deus do céu! Não posso falar de uma garota que conheci e você já acha que estou apaixonado.
- Ninguém falou em paixão aqui. É normal, ela é jovem, bonita, inteligente. Perfeita.
- Bem, eu nem sempre baseio meu gosto pelas mulheres nesse tripé, ainda mais que ele dificilmente se mantém firme.
- É! E quando ele é firme demais você sai correndo. Afinal, ela nunca vai precisar de você para preencher o calço que falta para mantê-la firme.
- Meu Deus! Por que raios você está cruelmente certo?
- Nos conhecemos há um bom tempo.
- Mas acho que falta maturidade nela.
- Sabia que você acharia alguma coisa para não sair por baixo. A menina é madura. Entende mais de jazz do que eu e você juntos, os pais dela são músicos.
- E desde quando isso faz dela madura?
- O bom gosto vem com a maturidade.
- Mas ainda falta vivência.
- É... Talvez falte.
- E imagine se eu tente algo com ela. E imagine se der certo. E imagine se nos apaixonarmos e tivermos lindos filhos.
- O que tem?
- Eu vou ter sido a única experiência amorosa dela? E os namoros que não darão certo? E os namorados cafajestes que vão enganá-la? E os apaixonados que ela vai enganar? E as brigas com as amigas por causa de um mesmo cara? E as confidências? Não é justo privá-la disso!
- Mas se estiverem apaixonados, tudo vale! Esse esteriótipo de vida que você acabou de descrever não é o único que funciona, aliás, ele funciona?
- Tudo bem, mas ela é tão novinha. Precisa viver um pouco mais, sei lá.
- Eu sei qual é o seu problema! Você acha que as pessoas só podem se apaixonar depois de terem vivido muitas experiências. Você não acredita no amor aos dezessete, dezoito anos.
- É claro que acredito! Só não aconteceu comigo.
- E por isso não pode acontecer com os outros? Lembra daquela minha namorada? Aquela do colégio?
- Sei.
- Eu a amava, tinha certeza disso. Queria vê-la sempre e apesar de achar outras mulheres atraentes, só pensava nela como amante. Eu me sentia bem com ela.
- Não foi essa que te trocou por um cara bem mais velho?
- Sim, mas e dai? Por um momento nós nos amávamos.
- Eu lembro dela. Disse que estava cansada de namorar com crianças e resolveu sair com o professor de teatro dela, não é? E você ficou arrasado.
- É claro que fiquei! Eu a amava e ela me trocou por aquele velho maldito!
- Depois o cara não trocou ela por um grande amor do passado?
- Esse mesmo! E ela descobriu que estava grávida.
- Sério?
- É... A vida é terrível não?
- Você fala isso com uma naturalidade. Isso acabou com a vida dela.
- Que nada! Hoje ela mora com os filhos, os ama bastante e não se arrepende de nada.
- E você?
- Eu achei tudo muito engraçado. Ela me procurou depois, mas dai eu disse que o problema de largar crianças é que elas crescem orgulhosas. E eu já tinha crescido.
- Depois eu é que sou o amargurado.
- Pois é...
- Mas é disso que eu estou falando. Não quero privar a garota de viver essas coisas. Desilusões, sentimentos fortes, exceto a gravidez precoce, mas você entendeu.
- Você acha que ela vai se apaixonar por você, não é?
- E se eu me apaixonar por ela?
- Dai saberemos que alguma coisa bate ai dentro.
- Eu não sei. E se ela for virgem?
- Escuta! Ela não é! Ouvi uma conversa dela com minha irmã esses dias. Ela já perdeu. Inclusive a menstruação dela atrasou e foi o maior problema na casa dela com os pais.
- Mas eles ainda estão juntos? Ela e o cara que tirou... Você sabe...
- Não sei, mas é um cara da idade dela.
- Mas é um menino.
- Quase um bebê.
- Mas se ela quis ficar com ele, o garoto deve ter potencial.
- Ele não deve ser igual a essa criançada da idade deles.
- Ou isso ou ela não tinha muita opção e apelou pro primeiro que não confundiu Monet com expressionismo alemão.
- Mas veja bem, como você realmente se sentiu com relação ao professor de teatro da sua ex-namorada quando ela resolveu ficar com ele?
- Fiquei puto!
- Então! Não quero ser um desses caras mais velhos que saem por ai em busca de menininhas inocentes.
- Primeiro: de menininha e inocente ela não tem nada. Segundo: você é um cara legal e não é tão velho quanto aquele maldito.
- Mas não é isso que vai parecer.
- Lá vem você se preocupar com o que os outros vão achar.
- Você não se preocupa?
- Claro que sim, mas não sou eu quem estou gamado numa garota de dezesseis anos.
- E meio, ela tem quase dezessete. Eu perguntei ontem.
- Pois é.
- Você acha que ela gostou de mim?
- Não tirou os olhos de você! Se quiser posso perguntar para minha irmã.
- Deus do céu! Não estamos mais no colégio. Se quiser falar com ela, eu vou até ela.
- E como chegará até ela?
- Peça o telefone para sua irmã e diga que fui eu quem pedi. Ela com certeza vai contar pra ela e as coisas vão ficar ajeitadas.
- Não éramos nós que não estávamos mais no colegial?
- Técnicas antigas não devem ser esquecidas, mas sim aprimoradas.
- Vou falar com minha irmã então.
- Escute, onde foi que ela se conheceram afinal?
- Não sei bem, acho que foi na aula de teatro.
- Droga! Espero que o professor de interpretação delas não seja um desses caras charmosos cheios de lábia.
- Se eu fosse você me preocuparia mais com o professor de expressão corporal.


Continua...

Ouvindo Billie Holiday com "The Way You Look Tonight"

sábado, 6 de junho de 2009

Choques

O Marido de pé. A esposa sentada. A filha no quarto.
"Perdeu o quê?" disse o marido indignado.
"Isso que você ouviu. Não faça escândalo! Ela já é bem grandinha" retrucou a esposa.
"Grandinha? Ela não tem nem quinze anos!" esbravejou.
"Ela tem dezesseis e já vai fazer dezessete!" respondeu calmamente lendo sua revista.
"Que diferença faz? Quantos anos tem o rapaz?"
"O que importa? Deve ter a idade dela..." desviando a atenção da revista e já demosntrando tons de impaciência.
"Pode ser um desses caras mais velhos que namoram menininhas! Esses são os piores!" disse mexendo os braços, e completou "E já deve estar na faculdade, ter uma bandinha de rock e ser sustendado pelos pais e ainda deve ter aqueles troços estranhos no cabelo..."
"Você está exagerando! Ele é da escola dela..."
"... e ele deve fumar, fazer coisas pra parecer gente grande..." ele continuou
"Páre com isso!" disse lendo a revista.
"... e ouvir aquelas músicas que misturam tudo e não dizem nada..."
"Mas como você é chato! Deixe a menina..." disse desistindo da revista.
"Como posso deixá-la se ela está saindo com um maluco?"
"Isso é coisa da sua cabeça! Ele é da escola dela, um rapaz simpático e inteligente" a mulher partiu em defesa da filha "E até acho que eles vão engatar um namoro"
"Engatar um namoro? Em que mundo você vive? Eles são adolescentes! Nem sabem o que uma frase que contém "engatar" e "namoro" significa! É igual colocar pra eles "pensar" e "vida" numa mesma frase, entende?"
A mulher não respondeu.
"Eu vou lá falar com ela!" disse ele subindo as escadas.
"Deixe a menina" mas já era tarde.
"Err... Filha?" disse já entrando. Ela estava sentada ao computador.
"Sim?" disse sem virar a cabeça.
"Como está? Tudo bem? E a escola?" disse sem saber como entrar no assunto.
"Pai! Eu ouvi você lá embaixo! Está tudo bem, eu entendo toda essa sua indignação" disse ela virando a cadeira para registrar a reação paterna.
"Como é?" disse com aquela cara que a filha adorou.
"Eu entendo! Se eu fosse um homem não teria problema! Poderia ter acontecido até mais cedo inclusive"
"Mas..." ele estava sem palavras.
"E eu entendo toda essa sua bronca e preocupação! Até agradeço, mas acho que já tenho bastante consciência do que estou fazendo"
"Não nego isso, mas é que..."
"Eu sei que posso me arrepender e ficar magoada, mas isso é parte da vida, não é? Não é você que vive falando que essa é a idade em que se formam as cabeças? Que você devia ter quebrado mais a cara na sua adolescência, assim talvez não teria tantos problemas hoje..."
"Ok, vamos deixar meu problemas de lado, a minha questão é que..." tentou continuar.
"Pai, não tem mais jeito! Aconteceu! Não se preocupe! Eu não vou fugir com ele, transgredir as regras pra querer chamar sua atenção! Nem você fez isso!"
Descendo as escadas pensativo.
"E então?" perguntou a mulher.
"Há algo de muito errado com esses jovens" disse ele.
"O que? Você queria que ela fugisse?"
"Bem...Ao menos ameaçasse..." disse indignado.
"Você está maluco! Quer que a menina seja tudo que você não foi?"
"Não é isso..."
"Quer que ela transgrida as regras e quebre barreiras do jeito que você não o fez!"
"Bem..."
"Quer que ela faça coisas pequenas, porém memoráveis, do jeitinho que você não fez!"
"Veja..."
"Você tem sérios problemas, sabia?"
"Qual o problema com as mulheres dessa casa? Vamos deixar meus problemas de lado?"
"Não é nossa culpa se você não sabe lidar com eles!"
"A questão não é essa! É que foi um choque pra mim! Um dia a menina está me mostrando a redação dela sobre as férias e no outro ela me aparece toda pomposa, madura e... Você sabe..."
"Você diz isso porque demorou anos pra perder sua virgindade e ainda perdeu numa situação quase traumática"
"Espere ai! Eu já falei que a gente não sabia que a avó dela estava em casa naquele dia... Foi um acidente!"
"O que só fez de você mais reprimido!"
"Repri... Como é? Você já desviou toda a conversa! A questão é nossa filha! De repente aparece um cara descolado e... Enfim..."
"Você diz isso porque ela é mulher. Se fosse um menino seria diferente..."
"Ah... Então foi você que colocou essa idéia na cabeça dela, não?"
"E além de reprimido, é machista!"
"Você quer parar de me acusar?"
"Você tem sério problemas, sabia?"
"Deixe meus problemas fora disso!" e foi para a cozinha.
Bebendo um copo com água. A porta se abriu. Ele foi falando e se virando.
"Vai me acusar de mais alguma coisa?"
"Não, pai..." disse a filha.
"Ah, você..." disse voltando para a pia.
"Pai! É nessa hora que eu falo umas coisas bonitas, você também, a gente se abraça e pede desculpas um pro outro. Dai a mamãe entra e nos abraça dizendo que nós somos uma família cheia de problemas, mas que nos amamamos e vamos superar isso."
"Meu Deus! Você tem assistido a muitos filmes do Frank Capra"
"Quem?"
"Esquece! E que história é essa de "uma família cheia de problemas"? O problemático aqui sou eu, lembra?"
"Eu também tenho meus problemas"
"É claro! Você é mulher, adolescente, quer mais?"
"Pai!" disse a filha.
A mãe entra.
"Eu pensei que vocês estariam abraçados, eu me juntaria e diria algo bonito" disse ela decepcionada.
"Deus do céu! Acho que devemos ir para a locadora agora" disse o pai.
"Alugar um filme do Frank Capra?" disse a mãe.
"Mas quem é esse afinal?" disse a filha.
"Não! Eu sugiro algo entre Bergman e Gorge A. Romero."
No carro.
"Pai! Esse Bergman não é diretor de fimes eróticos?"
"Não! Esse é o Buttman" disse o pai.
"Como você sabe dessas coisas?" perguntou a mãe.
"O pai deve ter demorado pra perder a virgindade, daí recorria a esse filmes" disse a filha.
"Escute aqui! Não quero tocar nesse assunto quando você estiver por perto, pelo menos até você ter um filho, dai não poderei mais negar"
"Na verdade... Minha menstruação está um pouco atrasada" disse a filha retiscente.
Carro freia bruscamente.
"O que?" disseram os pais.

Continua...

Ouvindo Django Reinhardt com "I´ll see you in my dreams"

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Obssessivos Transtornos

Da série Saco-cheio, que parece não ter fim, é incrível!

Episódio Quinto

No banheiro dela, abrindo a portinha do espelho.
Ele: Nossa! Quantos anti-depressivos!
Ela: É... Não fossem eles eu teria todos os meus trinta e seis TOCs.
Ele: E tomando esses remédios, quantos TOCs você tem?
Ela: Só três.
Ele: Você conta seus TOCs?
Ela: É... Um dos meus TOCs é esse...


segunda-feira, 20 de abril de 2009

Intima noite ou Dúvidas




Seguiam os beijos, os carinhos, a respiração forte na cama que lhes cabia, mas que podia ser maior.
Intimidades são construídas. Podem ser quebradas logo no primeiro encontro com algumas palavras como também podem ser descobertas depois de alguns anos de contato. O casal, mesmo depois de várias transas pode ainda não se considerar totalmente íntimo. E é talvez essa intimidade que facilita certos caminhos, certos objetivos, enfim, que os deixa mais livres para falarem e fazerem o que bem entenderem sem se preocupar com a reação do outro.
A falta de intimidade castra, retrai e em certos casos destrói. A mesma em excesso pode afetar certos casais.
Quando se fala de intimidade, estamos longe de discutir fatores fisiológicos: ir no banheiro depois da transa e ouvir o inevitável barulho daquilo que sabemos bem o que é não sinaliza intimidade, e sim conhecimento de algo que todos fazem, e se não o fizessem teriam sérios problemas.
Falar de intimidade em termos psicológicos é mais complicado, pois depende da relação que cada um estabeleceu desde o primeiro instante em que se viram. E essa relação pode ser tanto de duelo de egos como de submissão, ou ambos bem mascarados. Há outras possibilidades e é inevitável dizer que não importa há quanto tempo você perdeu sua virgindade, uma nova pessoa é sempre uma nova pessoa e com essa sempre haverá uma primeira vez e por mais íntimos que pareçamos, as coisas podem não caminhar para os melhores, aliás, os mais prazerosos resultados.
Os beijos seguiam bem. Mãos aqui, alí. Tudo em ordem. parecia que aquela noite seria uma das melhores.
"Espera! Espera!" disse ela se afastando com uma mão, se sentando na cama e fechando a blusa com a outra.
"O que foi?" disse ele desconcertado "Fiz alguma coisa errada?"
"Não! Não! Você está ótimo! É só que..." hesitou.
"O quê?" perguntou, e logo o arrependimento tomou conta. Não gostava de insistir no errado, mas sempre o fazia.
"É que... Você chega aqui de repente, e a gente se conhece faz tempo, e você traz esse vinho..." foi dizendo sem pensar muito.
"Sim, dai a gente se beija, a coisa começa a esquentar e já sabemos o resultado... Se não fosse assim não teriamos chegado até aqui e não estaríamos assim" disse ele abaixando a blusa dela e beijando-a no ombro.
"Eu sei, e você tramou pra que tudo fosse assim." disse fechando os olhos
"Vai dizer que você não percebeu?" subindo para o pescoço.
"E você trouxe esse vinho, esse filme" apontando para as taças quase vazias e a TV desligada.
"E você adorou!" já na ponta da orelha.
"Mas você não acha que estamos indo rápido demais?" afastou-se.
Ele pensou seriamente no que responder naquela hora. Ela saíra tão rápido de seus braços que, pelo vinho, ele quase perdeu o equilíbrio. Pensou e disse:
"Eu diria até muito devagar!" e parou por aí. Não mais recorreria a artifícios físicos. Sem beijos no pescoço ou carinhos na nuca. Partiria para as palavras, mas sabia que ali talvez não teria tanto sucesso.
"Nós somos amigos, não somos?" perguntou ela.
"Ora, somos. Mas isso não impede..."
"Impede sim..." parou e depois continuou "Por que das últimas vezes que nos vimos nós acabamos nos beijando?"
"Porque rolou um clima, eu dei encima de você, você topou..."
"Está bem, eu sei... Mas nós costumávamos nos confidenciar, lembra?"
"Sim, mas isso quando éramos adolescentes, e já tínhamos inclusive ficado naquela época" disse ele com tons de ironia que beiravam certa irritação.
"Mas eram outros tempos! Você mudou! Eu mudei!" disse ela no seu melhor tom blasé.
"Mesmo assim ainda nos confidenciamos. Mesmo quando nos beijamos. Hoje mesmo,não colocamos em dia nosso casos? Não falamos de nossos empregos e falamos mal de outras pessoas? Até trocamos um ou outro segredo!" disse ele se sentando perto dela.
"É..." baixou a cabeça "Eu sei..."
"Então?" pôs o clássico dedo no queixo dela "Podemos continuar?"
"Naquele dia... A gente já não se via tinha um tempão e saímos juntos, lembra?" disse ela.
"Sei... O que tem?" disse ele tentando esconder a impaciência.
"A gente conversou bastante e você me beijou de surpresa na despedida."
"Aham..." ele se lembrava bem.
"Naquele dia parecia que estávamos ressucitando uma coisa do passado"
"E estávamos... Só que não era a mesma coisa. Você mesmo disse que a gente mudou, não é?" argumentou ele.
"Sim! Sim! Mas depois a gente ficou de novo, e foi cada vez menos confidências e cada vez mais beijos." queixou-se e remendou "Não que não goste dos beijos, não é isso!"
"Mas o que estávamos fazendo há pouco?" irritou-se ele.
"Você não vai entender."
Ele esperava ser mais compreensivo. Aliás, quando essa conversa havia começado ele já pensava em ter a atitude mais compreensível possível, afinal eles eram amigos e ele gostava muito dela. Não tinha porque brigar.
"E você acha que se a gente transar, a porcaria da nossa amizade vai pelos ares?" disse ele jogando sua compreensão na lixeira mais próxima.
"Não precisa tornar tudo isso vulgar"
"Não me venha falar de vulgaridades, mocinha! O que você achou? Que a gente ia transar e eu não ia olhar mais na sua cara? Ou pior, que eu iria me apaixonar? Daí você iria me perder porque nada pior que um amigo apaixonado... Deus do céu! Nós não somos mais adolescentes!"
"Como você pode ser tão egocêntrico e egoísta?" queixou-se ela.
"Egocên...?" mas parou, porque ela tinha razão. E constrangiu-se.
Afinal, não era necessário o escândalo e talvez ele dissera mais do que devia.
"Desculpe..." disse ele. Como odiava se desculpar "Eu não..."
"Tudo bem" disse ela com olhar sincero que o irritava mais que tudo.
Quando estava com ela não conseguia mentir sem ser sincero e sempre dizia coisas que não devia, já ela esbanjava sinceridade e tudo que dizia era fato, deixando-o fraco por não ter entrelinhas para decifrar, coisa que adorava fazer. Logo, se ela não queria, era melhor não insistir, para não tornar as coisas mais constrangedoras do que já estavam.
Se eram tão íntimos nas palavras, trocando casos, besteiras, talvez não o seriam na cama, e era isso, talvez, que ela mais temia, mas ele não entendia.
"Quer dormir aqui? Já está tarde." disse ela.
"Não! É melhor não... Você me conhece e eu não vou conseguir parar, ainda mais depois de todo esse vinho" e deu o último gole esvaziando a taça.
"Dorme! Não tem problema... Eu tenho uma corda em algum lugar e deixo você amarrado no sofá da sala até a hora de você ir trabalhar."
Os dois riram.
Já na porta, ele já do lado de fora.
"Então está certo... A gente se fala!" disse ele.
"Com certeza!" disse ela segurando a porta.
E ficou aquele silêncio.
O beijo que se seguiu não foi demorado, tampouco breve. Ele enconstou as duas mãos no rosto dela, levou-as para a nuca e os lábios se encontraram. Viraram contra a parede e a mão dele dançava pelo corpo dela que no começo tentava pará-las mas depois desistiu, entregando-se ao beijo que não sabia bem onde daria. Como num reverso, descolaram-se da parede, as mãos saíram do corpo, foram para a nuca e voltaram para o rosto, sendo os lábios os últimos a se desencontrar.
Virou as costas e foi embora.
Nos corpos ficaram os cheiros e nas almas a dúvida: daquela que só aparece quando o alívio se mescla ao arrependimento. E acaba nos conformando.

Ouvindo "Close to Me" do The Cure.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Alter Nativos

Série Saco-cheio

Prólogo

Amassos iniciais na rua. Pausa para conversa.
Ele: E essas meninas com bolsa da Amélie Poulain?
Ela: O que tem elas?
Ele: Muito "olhem como sou alternativa e delicada o mesmo tempo!"
Ela: Você não gosta de Amélie Poulain?
Ele: Nada contra! Não gosto dessa necessidade de ser diferente.
Ela: Como você é chato! Deixe as pessoas serem felizes!
Ele: Hum... Aposto que você tem uma bolsa da Amélie ou de algum desses filmes.
Ela: Que nada! Eu faço minhas próprias bolsas.


Hoje não estou ouvindo nada.

Em breve libero o manual de "como ser um bom cult e fazer amigos legais na augusta".

Saudades de ficar escrevendo aqui, mas o cotidiano me pegou em cheio e roubou meu precioso tempo.


quarta-feira, 18 de março de 2009

Costumes

Da série "Saco-Cheio"

Episódio Quarto.

Jantando.
Ela: Você já reparou que é meio machista às vezes?
Ele: Admira-me o "às vezes". Quem não é machista na nossa sociedade? A gente nasce machista. Eu tenho atitude machistas, você tem atitudes machistas, até minha mãe tem.
Ela: Que a gente é machista eu sei! A questão é como lidar com esse machismo imbricado em nossas mentes desde quando nascemos.
Ele: É... Para uma mulher você até que articula bem as palavras.

Ouvindo "I've Heard That Song Before" com Harry James and His Orchestra e Helen Forrest.

sábado, 7 de março de 2009

Épicos/Líricos

Numa dessas resoluções de fim de ano -dessas em que prometemos não fazer mais essas resoluções- prometi a mim mesmo que leria nesse verão um livro que não falasse sobre identidades nacionais, conjunturas históricas e discussões acadêmicas intermináveis.
Uma vergonha ser somente um livro, admito, pois o verão é longo e uns cinco livros seriam ótimos, mas deixemos para o próximo verão ou quem sabe um simpático inverno.
Peguei (emprestado) um daqueles títulos do gênero "comecei a ler aos 15, mas parei pra ler Harry Potter". Mentira!
Parei porque não havia entendido nada e achava que já podia ler coisa de gente grande. Foi assim com "Mrs. Dalloway" da Virginia Woolf.
Aliás, não foi, ainda é.
A Sra. Woolf e Nicole Kidman que me perdoem, mas os nós que "Mrs. Dalloway" dá em minha cabeça nem se comparam com os que ganho quando vejo um desses filmes experimentais franceses da década de sessenta.
Enfim... Um dia eu termino esse livro! Enquanto isso ele fica lá brilhando na minha estante impressionando certas mocinhas que passam por ela.
"Nossa! Você lê Virginia Woolf?"
Ao que respondo:
"Alguém tem que tentar entender a alma feminina, não? Aliás, você conhece esse título aqui?" largando a taça de vinho e tirando um livro da estante.
"Ah! Simone de Beauvoir é tudo!"
E vocês já sabem como termina...

De qualquer modo, o livro que me acompanhou nesses dias quentes de verão (sou aqui generoso com esse clima que levou minha caixa craniana quase que às rachaduras) foi esse o qual libero um trecho que muito me chamou a atenção.





"A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera.
(Fujam da tradução da Companhia das Letras)

Há um filme também. Mas quem me emprestou o livro diz que fiz bem lê-lo antes de vê-lo. Vamos ao filme então.

Abraços!

PS: Ainda na Woolf... O erro foi ter visto "As Horas" antes talvez...

quarta-feira, 4 de março de 2009

Medos particulares

Ainda na série: "Saco-cheio"

Episódio terceiro


Na cama. Depois da transa.
Ela: Você já broxou?
Ele: Não...
Ela: Que mentira!
Ele: Sério! Mas me admira não ter broxado ainda, sou muito encanado com isso e fico pensando em várias coisas na hora...
Ela: Você é bem encanado mesmo...
Ele: Muito!
Silêncio.
Ela: Você fica pensando em várias coisas enquanto transa comigo?
Ele: Vou pegar um copo d'água, quer um?

Ouvindo "Sorrow" com David Bowie, um dos meus heróis...

domingo, 1 de março de 2009

Orgasmos

Da série: "Saco-cheio"

Episódio segundo


Na farmácia. Comprando camisinhas.
Ele: Então, venho desenvolvendo uma técnica pra que a gente sempre goze ao mesmo tempo.
Ela: Que bom... (silêncio) Mas como assim? (indignada) Com quem você anda desenvolvendo isso?
Ele: Comigo mesmo oras. Masturbação.
Ela: E vai funcionar?
Ele: Vem funcionando comigo mesmo que é uma beleza.

Ouvindo "Hello Dolly!" com Louis Armstrong.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Saco-cheio: A Série

Episódio primeiro:

Ciúme/Camisinhas


Ele deitado, ela de pé.
Ela: Da última vez que vim aqui tinham quatro camisinhas aqui... Agora só tem duas!
Ele: Se quiser contar camisinhas, compre suas próprias e traga quando nos encontrarmos... Não vai ter erro.
Ela: O quê?
Ele: Só não esquece de comprar a marca certa!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Seguros sinistros



"Você pode obter esse seguro por uma bagatela e caso alguma coisa aconteça, você terá a segurança de que sua família não sairá perdendo" disse a gerente do banco ao telefone.
Sofro da doença do "sim". Dificilmente digo não, ainda mais quando é uma voz doce que me oferece algo. Não que a gerente fosse lá grande coisa, já haviam me falado mal da mesma, mas mesmo assim não pude negar. Fiz um charme, dei uma de desentendido, desprendido da família, mas no final aceitei.
Dias depois vem a carta com a apólice, a quantia que seria sugada de minha conta e todas as condições do seguro.
Começo a ler: "Em caso de sinistro..." Sinistro?
O contexto me esclareceu.
Debruço-me sobre o folhetinho como se esse fôsse uma obra inédita de Machado de Assis achada na biblioteca de um filho de aristocrata que resolvera vender os livros do pai, que provavelmente não tinha um seguro de vida, para pagar o colégio dos filhos.
Caso tenha uma hérnia, perco o seguro, a menos que essa seja causada em caso de acidentes. Beleza!
Ponho-me a ticar com uma caneta achada embaixo do sofá os itens nos quais posso ficar sossegado e aqueles com os quais devo me preocupar.
Perderiam meus pais o seguro se o sinistro ocorresse em consequência:
-do segurado estar sob o efeito de álcool; melhor me preocupar.
-de choque anafilático e suas decorrências; sem problemas... O que é um choque anafilático mesmo?
-das moléstias (adoro essa palavra) ou doenças crônicas decorrentes de picadas de insetos; melhor adiar aquele passeio pro Pantanal.
-das perturbações e intoxicações alimentares de qualquer espécie; melhor parar de comer no centro da cidade.
-da prática, por parte do segurado, de atos contrários à lei; hora de começar a pagar a passagem do ônibus.
-do suicídio ou tentativa de suicídio nos primeiros dois anos do seguro; nota mental: encomendar mais uma remessa de Prozac com o terapeuta, pelo menos pelos próximos dois anos.
-do parto, aborto e suas consequências; ou não preciso me preocupar com essa ou meus familiares vão ter uma grande surpresa.
-do uso de material nuclear para quaisquer fins; é melhor mandar aquele plutônio todo de volta para o Irã.
-de furacões, ciclones, terremotos, maremotos, erupções vulcânicas e outras convulsões da natureza; cancelar viagem para Santa Catarina e lembrar de não sair de casa em dias chuvosos.
-de atos ou operação de guerra, declarada ou não (!?!?!), da guerra química ou bacteriológica, de guerra civil (espanhola ou não, pensei), de guerrilha, de revolução (revolução?), agitação, motim, revolta, sedição, sublevação, atos terroristas, ou outras perturbações da ordem pública (da ordem quem?) e delas decorrentes, exceto se consequente de prestação de serviço militar ou atos de humanidade em auxílio de outrem; lembrar de: não me alistar na marinha ou entrar em qualquer encouraçado russo, cortar todas as minhas ligações com quaisquer movimentos políticos ou pseudo-políticos, cancelar a viagem para Nova Iorque e pro Oriente Médio, não participar nem da reunião do condomínio (a gente nunca sabe quando aqueles velhinhos vão resolver se revoltar), desistir da revolução e da luta armada e não sair de casa em dias de greve, seja ela do ônibus, metrô, correios, escolas, montadoras, garis ou feirantes.
-do ato reconhecidamente perigoso que nãos eja motivado por necessidade justificada, exceto quando do exercício do serviço militar ou da prática de atos de humanidade em auxílio de outrem; cancelar o bungee jumping do prédio do Banespa Ps: lembrar de me associar à cruz vermelha, a gente nunca sabe né?

Só sei que ticados todos os pontos, havia ainda muitos outros, fui ter meu dia.
Chovia e eu tinha medo. Não contara a ninguém do seguro, afinal é melhor não testar a ganância dos familiares. Na avenida congestionada, resolvi descer do ônibus e ir a pé com medo que um raio me partisse ao meio e pulverizasse toda a futura grana dos meus pais. Nada aconteceu.
No outro dia, uma leva de torcedores cruzou o meu caminho.
Eu, de mochila, fui abordado por dois policiais muito simpáticos, ao que um deles disse numa calma que faria os torcedores vestirem a camisa do time adversário:
"O que tem ai na mochila? É bomba?"
"Não! São roupas, dormi na casa da minha namorada, sabe?" respondi constrangido.
"Você vai pro jogo?" perguntou o outro policial tão calmo quanto o primeiro.
"Não, moro logo ali virando a rua. Estou indo pra casa" disse apontando.
"Soldado, revira ele!" disse o primeiro.
Antes que pudesse concluir o que o verbo "revirar" significava no âmbito policial, ou criminal, sabe lá Deus, o segundo policial abriu minha amada mochila fazendo despencar alguns cadernos, roupas, minha carteira e para minha surpresa, meu Manual do Seguro.
"Tá limpo, chefe!" disse o revirador.
"Vai pra casa, rapaz!" ordenou aquele exemplo de justiça que virava as costas pra mim e ia conversar cordialmente com outra pessoa, desta vez um torcedor convicto.
Colocando minhas coisas de volta na mochila, percebi que aquela multidão que antes parecia ameaçadora, agora era amigável, pois eu fazia parte dela. Deu até vontade de ir ao jogo, por que não?
Os olhares passavam por mim solidários. Eu me sentia um deles: um torcedor. Não necessariamente de um time, mas de um mundo melhor, um mundo onde os seguros de vida ou de carro não fossem necessários. Um mundo onde as pessoas poderiam ver seus jogos saudavelmente no estádio sem serem repreendidas, um mundo onde não houvesse guerras (quimicas ou bacteriológicas, declaradas ou não), um mundo onde finalmente as pessoas poderiam... Foi quando chutaram minha carteira e eu me vi no telefone por algumas horas cancelando alguns cartões de créditos e renovando alguns documentos nos dias seguintes.
Aproveitei que o telefone estava à mão e liguei pra central do banco.
"Isso mesmo, cancelar!" disse eu.
"Mas senhor, você não pensa na sua família?" disse a atendente.
"Penso, por isso quero cancelar." retruquei.
"O senhor pretende ter filhos?" perguntou a moça.
"Não estão no meus planos" menti.
"Mas o senhor tem certeza? Podemos fazer um com uma apólice menor."
"Não, não! Quero cancelar! Sério! Num futuro eu penso nisso de novo" insisti.
"Tudo bem, senhor, se assim deseja..." disse a garota com a voz derrotada, quase me convencendo, quase me fazendo desistir de tudo e dizer que tudo bem, não precisava mudar nada...
Consegui desligar o telefone ao anúncio do cancelamento, afinal, não era uma voz tão doce assim.

Ouvindo "Grávida de Marina Lima.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Obama e o fim do mundo



E ontem foi aquela explosão de comentários na TV sobre o novo presidente dos EUA.
Se você estava interessado no trânsito de São Paulo ou no que deu a licitação daquela igreja que desabou, esqueça! Ontem, e hoje ainda, só tem Obama na TV, no rádio e nos jornais.
Tenho certeza que não fui só eu que fiquei irritado com isso.
Mesmo tentando ler meu livro no quarto, sempre quando alguém ligava a TV na sala, era Obama isso, Obama aquilo.
E hoje, no melhor estilo burguês, abri o jornal (pela internet) e lá estava a foto dele, o primeiro presidente negro e o 44º da história dos EUA.
E as notícias iam desde o tom de seu discurso até se a mulher dele estava bem vestida ou não (?!?!?).
E a capa da Folha estampava:
"Obama toma posse com promessa de reconstruir os EUA e liderar o mundo"
Engraçado que se o contrário tivesse sido escrito, todo mundo também ia levar na boa.
Reconstruir o mundo e liderar os EUA, o que inclusive, apesar de parecer meio prepotente a atitude de reconstruir o mundo, é menos ganancioso que liderar o mundo.
Espere! Liderar o mundo? Líderes são para grupos, e líderes representam esses grupos.
Obama representará o mundo para quem? Os homens de Marte?
Isso me lembra uma piadinha qeu fizeram no Oscar de 2008, ainda quando a posse de Obama estava distante e o nome mais cotado para sentar na cadeira "mais importante do mundo" era de uma mulher.
O fato, ou ficção, é que nos filmes de Hollywood, sempre quando o presidente era negro, algo terrível estava para acontecer. Um meteoro em direção à Terra ou num futuro distante algo ameaçador prester a distruir o planeta.
Bem... Talvez Obama esteja esperando mesmo que nos próximos oito anos (sim, reeleições são comuns) façamos contato com alguns aliens e ele possa liderar o mundo representando todas as nações em alguma conferência intergaláctica.
Isso, é claro, contando que os seres de outros planetas sejam criaturas amigáveis e dispostas a compartilhar seus conhecimentos.
Caso contrário, apostem que vão clamar pela volta dos Bushes, ressucitarão Reagan e optarão por muitas explosões cinematográficas.
Aliás, muitos já teriam essa idéia assim que vissem aquele disco no céu pousando em frente ao capitólio e aquele ET simpático saísse querendo falar com nosso líder.
Ora, esqueçam os aliens e só esperem pelo primeiro ato terrorista durante o mandato de Obama e dai veremos que sendo negro, branco ou austríaco, o sangue vai escorrer nas mãos do presidente porque no fundo o que queremos mesmo são mais umas guerras pra preencherem o noticiário e pensarmos "Ainda bem que tudo isso acontece bem longe daqui"
Vai pensando...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Contos de Telessexo


"Alô?" disse a voz sexy feminina do outro lado.
"Err... Oi..." disse constrangido quase desligando o telefone.
"Humm, mas que voz grossa você tem, bonitão! Quem você quer que eu seja hoje? Uma menininha inocente e safadinha? Ou uma durona que não gosta de rodeios?" dizia a voz cada vez mais sexy.
"Bem... Na verdade..." tentava continuar cada vez mais constrangido. Nunca ligara para um serviço desse antes e tremia só de pensar na imagem de alguém entrando no quarto.
"A professora? A empregada? A aluninha? Enfermeira? O que prefere, bonitão?" esforçava-se a dama de voz sensual.
"Tem como ser minha esposa?" pediu de uma vez.
Por alguns segundos ela ficou em silêncio.
Ele quebrou:
"Droga! Sabia que isso não ia funcionar!" martirizou-se.
"Tudo bem..." disse a mulher ainda sem entender.
"Na verdade, só queria conversar um pouco. Sobre a vida, sabe? Não precisa ficar fazendo essa voz toda sexy!"
"Não sei se ainda compreendo" disse ela já mudando o tom de voz "Você quer que eu aja como uma esposa?"
"Eu sei que parece estranho, mas é que ultimamente a gente tem conversado pouco." confessou o homem.
"Entendo..." mentiu "E o sexo?"
"Ah vai bem, muito bem! Na verdade esse é o problema" justificou ainda mais constrangido.
"Problema?" definitivamente sem entender desta vez.
"Pois é... De uns tempos pra cá temos transado bastante. Quase todos os dias, eu diria. E acaba faltando tempo para conversar. Dia desses eu estava com dor de cabeça e ela achou que eu estava mentindo só pra não ter sexo, acredita?"
"E estava?" perguntou a moça que já estava curiosa.
"Bem, não era das piores dores, mas estava com um mal estar" explicou-se.
"Deixe-me ver se eu entendi: sua mulher quer transar todos os dias e você quer... conversar?" questionou ironicamente.
"Não que eu não goste do sexo! Gosto muito aliás, mas falta uma conversa. Quando terminamos, ela me abraça e dorme. Às vezes nem o abraço tem." lamentava-se já sem tantos constragimentos.
Percebera que conseguira alguém que o ouvisse. Não um amigo, ou conhecido, muito menos seu analista ou seu pai, mas uma estranha. Totalmente desconhecida e que estava disposta a ouvir suas lamentações. Finalmente!
"E sempre foi assim?" perguntou a moça que já desistira de bancar a sensual.
"Não... No começo sim, mas também conversávamos bastante. Dai fomos caindo num marasmo. Recentemente fizemos terapia de casais. Ela desistiu e procurou uma trapêuta só para ela e tudo mudou. Eu até que gostei, mas ficou faltando algo..."
"A conversa?"
"Isso" respondeu como se todos os seus problemas estivessem sendo resolvidos
"E você mudou de terapêuta também?"
"Sim, mas parece que comigo não está funcionando. Ele só fica falando da minha mãe. Como pode ter funcionado tão bem pra ela e pra mim ser esse desastre?" dramatizou.
"Olha... Talvez ela ache que você não quer conversar. Talvez pense que na sua cabeça você só pense em sexo e já que ela está diposta, por que disperdiçar?" analisou a garota.
"Ela faria isso por mim?" emocionou-se o homem.
"Você não tem idéia do que fazemos!" disse a mulher com ares de triunfo "E quando o benefício é mútuo, melhor ainda. Deve ser o caso de sua esposa."
"Mas mesmo assim, e a conversa?" ainda em dúvida.
"Já tentou falar sobre isso com ela?" perguntou a moça que depois se arrependeu da pergunta desnecessária.
"Ela pode achar que eu não gosto do sexo" confessou sussurrando.
"Pelo contrário, além do sexo você também gosta de estar com ela. Falar com ela da vida, do cotidiano." disse ela tranquilizando o homem.
"Você acha mesmo?" perguntou o homem desconfiado.
"Você não conhece sua esposa?" entregou na mão dele.
"Tem razão. Obrigado."
"Estamos sempre à disposição" voltou com a voz sensual "para satisfazer suas mais profundas fantasias..." e desligou o telefone.
Quando chegou em casa no outro dia, encontrou a esposa na cama de roupão numa pose bastante confortável.
"Preparado? Hoje tenho algumas surpresinhas" disse a mulher.
"Meu amor... Na verdade..." começou.
A expressão da esposa foi mudando.
"Quer saber..." disse ele tirando a camisa e pulando na cama "Pro inferno!"
E foi se surpreender.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Lento e doloroso

Acordou na sala com dores no corpo. A TV ainda ligada passava uma entrevista com alguém que ele não conhecia. Olhou o relógio e desligou o vídeo. Ainda era cedo, mas não conseguia mais dormir. E ficou lá deitado remontando pensamentos.
O sonho, o dia anterior, aquele que se seguiria e o de amanhã.
E as pessoas, e as obrigações.
E na manhã clara, mas sem Sol, ele pensava, e aquela música batia em sua cabeça.
Era o vizinho, ou vizinha, que ele ouvira dizer da boca de outros que dava aulas de piano. E enquanto lá ficava desmontando e remontando suas divagações que o sono ainda permitia, o vizinho, ou vizinha, proporcionava-lhe uma trilha sonora. Piano lá longe, triste e doloroso.
E lembrava de um conto que lera no passado. Que remetia a um certo desespero agradável. Pode ser agradável?
E na sua mente relativizava e se cansava.
Pra que relativizar? É agradável e ponto.
Olhava seu reflexo distorcido na tela da TV desligada. O cobertor no sofá, o travesseiro e o prato com vestígios de um jantar entregavam a preguiça.
Ficara lá esperando secretamente alguém que não viera.
Pelo jeito até agora não chegara. Não havia sinal de chegada e ele teria percebido pois dormia atento. E a TV não teria ficado ligada, lembrou.
Se ao menos o telefone tocasse, mas ao fundo só o piano.
E uma angústia que o consumia e que o fez levantar.
"Vou fazer café!" pensou. Mas deitou-se de novo.
Nem sempre quem a gente espera são aqueles que hão de chegar.
E ficou sem saber se isso o animara ou desanimara.
"Merda!" pensou. E o vizinho tinha que escolher justo hoje pra tocar esse maldito piano?
Tão agradável que chegava a ser deseperador.
E doía.
O vizinho parou, e lentamente foi saindo do transe que se propora.
E foi ter seu dia.

Ao som de Erik Satie com  "Gymnopedie No.1 - Lent et Douloureux"