quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Obama e o fim do mundo



E ontem foi aquela explosão de comentários na TV sobre o novo presidente dos EUA.
Se você estava interessado no trânsito de São Paulo ou no que deu a licitação daquela igreja que desabou, esqueça! Ontem, e hoje ainda, só tem Obama na TV, no rádio e nos jornais.
Tenho certeza que não fui só eu que fiquei irritado com isso.
Mesmo tentando ler meu livro no quarto, sempre quando alguém ligava a TV na sala, era Obama isso, Obama aquilo.
E hoje, no melhor estilo burguês, abri o jornal (pela internet) e lá estava a foto dele, o primeiro presidente negro e o 44º da história dos EUA.
E as notícias iam desde o tom de seu discurso até se a mulher dele estava bem vestida ou não (?!?!?).
E a capa da Folha estampava:
"Obama toma posse com promessa de reconstruir os EUA e liderar o mundo"
Engraçado que se o contrário tivesse sido escrito, todo mundo também ia levar na boa.
Reconstruir o mundo e liderar os EUA, o que inclusive, apesar de parecer meio prepotente a atitude de reconstruir o mundo, é menos ganancioso que liderar o mundo.
Espere! Liderar o mundo? Líderes são para grupos, e líderes representam esses grupos.
Obama representará o mundo para quem? Os homens de Marte?
Isso me lembra uma piadinha qeu fizeram no Oscar de 2008, ainda quando a posse de Obama estava distante e o nome mais cotado para sentar na cadeira "mais importante do mundo" era de uma mulher.
O fato, ou ficção, é que nos filmes de Hollywood, sempre quando o presidente era negro, algo terrível estava para acontecer. Um meteoro em direção à Terra ou num futuro distante algo ameaçador prester a distruir o planeta.
Bem... Talvez Obama esteja esperando mesmo que nos próximos oito anos (sim, reeleições são comuns) façamos contato com alguns aliens e ele possa liderar o mundo representando todas as nações em alguma conferência intergaláctica.
Isso, é claro, contando que os seres de outros planetas sejam criaturas amigáveis e dispostas a compartilhar seus conhecimentos.
Caso contrário, apostem que vão clamar pela volta dos Bushes, ressucitarão Reagan e optarão por muitas explosões cinematográficas.
Aliás, muitos já teriam essa idéia assim que vissem aquele disco no céu pousando em frente ao capitólio e aquele ET simpático saísse querendo falar com nosso líder.
Ora, esqueçam os aliens e só esperem pelo primeiro ato terrorista durante o mandato de Obama e dai veremos que sendo negro, branco ou austríaco, o sangue vai escorrer nas mãos do presidente porque no fundo o que queremos mesmo são mais umas guerras pra preencherem o noticiário e pensarmos "Ainda bem que tudo isso acontece bem longe daqui"
Vai pensando...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Contos de Telessexo


"Alô?" disse a voz sexy feminina do outro lado.
"Err... Oi..." disse constrangido quase desligando o telefone.
"Humm, mas que voz grossa você tem, bonitão! Quem você quer que eu seja hoje? Uma menininha inocente e safadinha? Ou uma durona que não gosta de rodeios?" dizia a voz cada vez mais sexy.
"Bem... Na verdade..." tentava continuar cada vez mais constrangido. Nunca ligara para um serviço desse antes e tremia só de pensar na imagem de alguém entrando no quarto.
"A professora? A empregada? A aluninha? Enfermeira? O que prefere, bonitão?" esforçava-se a dama de voz sensual.
"Tem como ser minha esposa?" pediu de uma vez.
Por alguns segundos ela ficou em silêncio.
Ele quebrou:
"Droga! Sabia que isso não ia funcionar!" martirizou-se.
"Tudo bem..." disse a mulher ainda sem entender.
"Na verdade, só queria conversar um pouco. Sobre a vida, sabe? Não precisa ficar fazendo essa voz toda sexy!"
"Não sei se ainda compreendo" disse ela já mudando o tom de voz "Você quer que eu aja como uma esposa?"
"Eu sei que parece estranho, mas é que ultimamente a gente tem conversado pouco." confessou o homem.
"Entendo..." mentiu "E o sexo?"
"Ah vai bem, muito bem! Na verdade esse é o problema" justificou ainda mais constrangido.
"Problema?" definitivamente sem entender desta vez.
"Pois é... De uns tempos pra cá temos transado bastante. Quase todos os dias, eu diria. E acaba faltando tempo para conversar. Dia desses eu estava com dor de cabeça e ela achou que eu estava mentindo só pra não ter sexo, acredita?"
"E estava?" perguntou a moça que já estava curiosa.
"Bem, não era das piores dores, mas estava com um mal estar" explicou-se.
"Deixe-me ver se eu entendi: sua mulher quer transar todos os dias e você quer... conversar?" questionou ironicamente.
"Não que eu não goste do sexo! Gosto muito aliás, mas falta uma conversa. Quando terminamos, ela me abraça e dorme. Às vezes nem o abraço tem." lamentava-se já sem tantos constragimentos.
Percebera que conseguira alguém que o ouvisse. Não um amigo, ou conhecido, muito menos seu analista ou seu pai, mas uma estranha. Totalmente desconhecida e que estava disposta a ouvir suas lamentações. Finalmente!
"E sempre foi assim?" perguntou a moça que já desistira de bancar a sensual.
"Não... No começo sim, mas também conversávamos bastante. Dai fomos caindo num marasmo. Recentemente fizemos terapia de casais. Ela desistiu e procurou uma trapêuta só para ela e tudo mudou. Eu até que gostei, mas ficou faltando algo..."
"A conversa?"
"Isso" respondeu como se todos os seus problemas estivessem sendo resolvidos
"E você mudou de terapêuta também?"
"Sim, mas parece que comigo não está funcionando. Ele só fica falando da minha mãe. Como pode ter funcionado tão bem pra ela e pra mim ser esse desastre?" dramatizou.
"Olha... Talvez ela ache que você não quer conversar. Talvez pense que na sua cabeça você só pense em sexo e já que ela está diposta, por que disperdiçar?" analisou a garota.
"Ela faria isso por mim?" emocionou-se o homem.
"Você não tem idéia do que fazemos!" disse a mulher com ares de triunfo "E quando o benefício é mútuo, melhor ainda. Deve ser o caso de sua esposa."
"Mas mesmo assim, e a conversa?" ainda em dúvida.
"Já tentou falar sobre isso com ela?" perguntou a moça que depois se arrependeu da pergunta desnecessária.
"Ela pode achar que eu não gosto do sexo" confessou sussurrando.
"Pelo contrário, além do sexo você também gosta de estar com ela. Falar com ela da vida, do cotidiano." disse ela tranquilizando o homem.
"Você acha mesmo?" perguntou o homem desconfiado.
"Você não conhece sua esposa?" entregou na mão dele.
"Tem razão. Obrigado."
"Estamos sempre à disposição" voltou com a voz sensual "para satisfazer suas mais profundas fantasias..." e desligou o telefone.
Quando chegou em casa no outro dia, encontrou a esposa na cama de roupão numa pose bastante confortável.
"Preparado? Hoje tenho algumas surpresinhas" disse a mulher.
"Meu amor... Na verdade..." começou.
A expressão da esposa foi mudando.
"Quer saber..." disse ele tirando a camisa e pulando na cama "Pro inferno!"
E foi se surpreender.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Lento e doloroso

Acordou na sala com dores no corpo. A TV ainda ligada passava uma entrevista com alguém que ele não conhecia. Olhou o relógio e desligou o vídeo. Ainda era cedo, mas não conseguia mais dormir. E ficou lá deitado remontando pensamentos.
O sonho, o dia anterior, aquele que se seguiria e o de amanhã.
E as pessoas, e as obrigações.
E na manhã clara, mas sem Sol, ele pensava, e aquela música batia em sua cabeça.
Era o vizinho, ou vizinha, que ele ouvira dizer da boca de outros que dava aulas de piano. E enquanto lá ficava desmontando e remontando suas divagações que o sono ainda permitia, o vizinho, ou vizinha, proporcionava-lhe uma trilha sonora. Piano lá longe, triste e doloroso.
E lembrava de um conto que lera no passado. Que remetia a um certo desespero agradável. Pode ser agradável?
E na sua mente relativizava e se cansava.
Pra que relativizar? É agradável e ponto.
Olhava seu reflexo distorcido na tela da TV desligada. O cobertor no sofá, o travesseiro e o prato com vestígios de um jantar entregavam a preguiça.
Ficara lá esperando secretamente alguém que não viera.
Pelo jeito até agora não chegara. Não havia sinal de chegada e ele teria percebido pois dormia atento. E a TV não teria ficado ligada, lembrou.
Se ao menos o telefone tocasse, mas ao fundo só o piano.
E uma angústia que o consumia e que o fez levantar.
"Vou fazer café!" pensou. Mas deitou-se de novo.
Nem sempre quem a gente espera são aqueles que hão de chegar.
E ficou sem saber se isso o animara ou desanimara.
"Merda!" pensou. E o vizinho tinha que escolher justo hoje pra tocar esse maldito piano?
Tão agradável que chegava a ser deseperador.
E doía.
O vizinho parou, e lentamente foi saindo do transe que se propora.
E foi ter seu dia.

Ao som de Erik Satie com  "Gymnopedie No.1 - Lent et Douloureux"