sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Saco-cheio: A Série

Episódio primeiro:

Ciúme/Camisinhas


Ele deitado, ela de pé.
Ela: Da última vez que vim aqui tinham quatro camisinhas aqui... Agora só tem duas!
Ele: Se quiser contar camisinhas, compre suas próprias e traga quando nos encontrarmos... Não vai ter erro.
Ela: O quê?
Ele: Só não esquece de comprar a marca certa!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Seguros sinistros



"Você pode obter esse seguro por uma bagatela e caso alguma coisa aconteça, você terá a segurança de que sua família não sairá perdendo" disse a gerente do banco ao telefone.
Sofro da doença do "sim". Dificilmente digo não, ainda mais quando é uma voz doce que me oferece algo. Não que a gerente fosse lá grande coisa, já haviam me falado mal da mesma, mas mesmo assim não pude negar. Fiz um charme, dei uma de desentendido, desprendido da família, mas no final aceitei.
Dias depois vem a carta com a apólice, a quantia que seria sugada de minha conta e todas as condições do seguro.
Começo a ler: "Em caso de sinistro..." Sinistro?
O contexto me esclareceu.
Debruço-me sobre o folhetinho como se esse fôsse uma obra inédita de Machado de Assis achada na biblioteca de um filho de aristocrata que resolvera vender os livros do pai, que provavelmente não tinha um seguro de vida, para pagar o colégio dos filhos.
Caso tenha uma hérnia, perco o seguro, a menos que essa seja causada em caso de acidentes. Beleza!
Ponho-me a ticar com uma caneta achada embaixo do sofá os itens nos quais posso ficar sossegado e aqueles com os quais devo me preocupar.
Perderiam meus pais o seguro se o sinistro ocorresse em consequência:
-do segurado estar sob o efeito de álcool; melhor me preocupar.
-de choque anafilático e suas decorrências; sem problemas... O que é um choque anafilático mesmo?
-das moléstias (adoro essa palavra) ou doenças crônicas decorrentes de picadas de insetos; melhor adiar aquele passeio pro Pantanal.
-das perturbações e intoxicações alimentares de qualquer espécie; melhor parar de comer no centro da cidade.
-da prática, por parte do segurado, de atos contrários à lei; hora de começar a pagar a passagem do ônibus.
-do suicídio ou tentativa de suicídio nos primeiros dois anos do seguro; nota mental: encomendar mais uma remessa de Prozac com o terapeuta, pelo menos pelos próximos dois anos.
-do parto, aborto e suas consequências; ou não preciso me preocupar com essa ou meus familiares vão ter uma grande surpresa.
-do uso de material nuclear para quaisquer fins; é melhor mandar aquele plutônio todo de volta para o Irã.
-de furacões, ciclones, terremotos, maremotos, erupções vulcânicas e outras convulsões da natureza; cancelar viagem para Santa Catarina e lembrar de não sair de casa em dias chuvosos.
-de atos ou operação de guerra, declarada ou não (!?!?!), da guerra química ou bacteriológica, de guerra civil (espanhola ou não, pensei), de guerrilha, de revolução (revolução?), agitação, motim, revolta, sedição, sublevação, atos terroristas, ou outras perturbações da ordem pública (da ordem quem?) e delas decorrentes, exceto se consequente de prestação de serviço militar ou atos de humanidade em auxílio de outrem; lembrar de: não me alistar na marinha ou entrar em qualquer encouraçado russo, cortar todas as minhas ligações com quaisquer movimentos políticos ou pseudo-políticos, cancelar a viagem para Nova Iorque e pro Oriente Médio, não participar nem da reunião do condomínio (a gente nunca sabe quando aqueles velhinhos vão resolver se revoltar), desistir da revolução e da luta armada e não sair de casa em dias de greve, seja ela do ônibus, metrô, correios, escolas, montadoras, garis ou feirantes.
-do ato reconhecidamente perigoso que nãos eja motivado por necessidade justificada, exceto quando do exercício do serviço militar ou da prática de atos de humanidade em auxílio de outrem; cancelar o bungee jumping do prédio do Banespa Ps: lembrar de me associar à cruz vermelha, a gente nunca sabe né?

Só sei que ticados todos os pontos, havia ainda muitos outros, fui ter meu dia.
Chovia e eu tinha medo. Não contara a ninguém do seguro, afinal é melhor não testar a ganância dos familiares. Na avenida congestionada, resolvi descer do ônibus e ir a pé com medo que um raio me partisse ao meio e pulverizasse toda a futura grana dos meus pais. Nada aconteceu.
No outro dia, uma leva de torcedores cruzou o meu caminho.
Eu, de mochila, fui abordado por dois policiais muito simpáticos, ao que um deles disse numa calma que faria os torcedores vestirem a camisa do time adversário:
"O que tem ai na mochila? É bomba?"
"Não! São roupas, dormi na casa da minha namorada, sabe?" respondi constrangido.
"Você vai pro jogo?" perguntou o outro policial tão calmo quanto o primeiro.
"Não, moro logo ali virando a rua. Estou indo pra casa" disse apontando.
"Soldado, revira ele!" disse o primeiro.
Antes que pudesse concluir o que o verbo "revirar" significava no âmbito policial, ou criminal, sabe lá Deus, o segundo policial abriu minha amada mochila fazendo despencar alguns cadernos, roupas, minha carteira e para minha surpresa, meu Manual do Seguro.
"Tá limpo, chefe!" disse o revirador.
"Vai pra casa, rapaz!" ordenou aquele exemplo de justiça que virava as costas pra mim e ia conversar cordialmente com outra pessoa, desta vez um torcedor convicto.
Colocando minhas coisas de volta na mochila, percebi que aquela multidão que antes parecia ameaçadora, agora era amigável, pois eu fazia parte dela. Deu até vontade de ir ao jogo, por que não?
Os olhares passavam por mim solidários. Eu me sentia um deles: um torcedor. Não necessariamente de um time, mas de um mundo melhor, um mundo onde os seguros de vida ou de carro não fossem necessários. Um mundo onde as pessoas poderiam ver seus jogos saudavelmente no estádio sem serem repreendidas, um mundo onde não houvesse guerras (quimicas ou bacteriológicas, declaradas ou não), um mundo onde finalmente as pessoas poderiam... Foi quando chutaram minha carteira e eu me vi no telefone por algumas horas cancelando alguns cartões de créditos e renovando alguns documentos nos dias seguintes.
Aproveitei que o telefone estava à mão e liguei pra central do banco.
"Isso mesmo, cancelar!" disse eu.
"Mas senhor, você não pensa na sua família?" disse a atendente.
"Penso, por isso quero cancelar." retruquei.
"O senhor pretende ter filhos?" perguntou a moça.
"Não estão no meus planos" menti.
"Mas o senhor tem certeza? Podemos fazer um com uma apólice menor."
"Não, não! Quero cancelar! Sério! Num futuro eu penso nisso de novo" insisti.
"Tudo bem, senhor, se assim deseja..." disse a garota com a voz derrotada, quase me convencendo, quase me fazendo desistir de tudo e dizer que tudo bem, não precisava mudar nada...
Consegui desligar o telefone ao anúncio do cancelamento, afinal, não era uma voz tão doce assim.

Ouvindo "Grávida de Marina Lima.