sábado, 6 de junho de 2009

Choques

O Marido de pé. A esposa sentada. A filha no quarto.
"Perdeu o quê?" disse o marido indignado.
"Isso que você ouviu. Não faça escândalo! Ela já é bem grandinha" retrucou a esposa.
"Grandinha? Ela não tem nem quinze anos!" esbravejou.
"Ela tem dezesseis e já vai fazer dezessete!" respondeu calmamente lendo sua revista.
"Que diferença faz? Quantos anos tem o rapaz?"
"O que importa? Deve ter a idade dela..." desviando a atenção da revista e já demosntrando tons de impaciência.
"Pode ser um desses caras mais velhos que namoram menininhas! Esses são os piores!" disse mexendo os braços, e completou "E já deve estar na faculdade, ter uma bandinha de rock e ser sustendado pelos pais e ainda deve ter aqueles troços estranhos no cabelo..."
"Você está exagerando! Ele é da escola dela..."
"... e ele deve fumar, fazer coisas pra parecer gente grande..." ele continuou
"Páre com isso!" disse lendo a revista.
"... e ouvir aquelas músicas que misturam tudo e não dizem nada..."
"Mas como você é chato! Deixe a menina..." disse desistindo da revista.
"Como posso deixá-la se ela está saindo com um maluco?"
"Isso é coisa da sua cabeça! Ele é da escola dela, um rapaz simpático e inteligente" a mulher partiu em defesa da filha "E até acho que eles vão engatar um namoro"
"Engatar um namoro? Em que mundo você vive? Eles são adolescentes! Nem sabem o que uma frase que contém "engatar" e "namoro" significa! É igual colocar pra eles "pensar" e "vida" numa mesma frase, entende?"
A mulher não respondeu.
"Eu vou lá falar com ela!" disse ele subindo as escadas.
"Deixe a menina" mas já era tarde.
"Err... Filha?" disse já entrando. Ela estava sentada ao computador.
"Sim?" disse sem virar a cabeça.
"Como está? Tudo bem? E a escola?" disse sem saber como entrar no assunto.
"Pai! Eu ouvi você lá embaixo! Está tudo bem, eu entendo toda essa sua indignação" disse ela virando a cadeira para registrar a reação paterna.
"Como é?" disse com aquela cara que a filha adorou.
"Eu entendo! Se eu fosse um homem não teria problema! Poderia ter acontecido até mais cedo inclusive"
"Mas..." ele estava sem palavras.
"E eu entendo toda essa sua bronca e preocupação! Até agradeço, mas acho que já tenho bastante consciência do que estou fazendo"
"Não nego isso, mas é que..."
"Eu sei que posso me arrepender e ficar magoada, mas isso é parte da vida, não é? Não é você que vive falando que essa é a idade em que se formam as cabeças? Que você devia ter quebrado mais a cara na sua adolescência, assim talvez não teria tantos problemas hoje..."
"Ok, vamos deixar meu problemas de lado, a minha questão é que..." tentou continuar.
"Pai, não tem mais jeito! Aconteceu! Não se preocupe! Eu não vou fugir com ele, transgredir as regras pra querer chamar sua atenção! Nem você fez isso!"
Descendo as escadas pensativo.
"E então?" perguntou a mulher.
"Há algo de muito errado com esses jovens" disse ele.
"O que? Você queria que ela fugisse?"
"Bem...Ao menos ameaçasse..." disse indignado.
"Você está maluco! Quer que a menina seja tudo que você não foi?"
"Não é isso..."
"Quer que ela transgrida as regras e quebre barreiras do jeito que você não o fez!"
"Bem..."
"Quer que ela faça coisas pequenas, porém memoráveis, do jeitinho que você não fez!"
"Veja..."
"Você tem sérios problemas, sabia?"
"Qual o problema com as mulheres dessa casa? Vamos deixar meus problemas de lado?"
"Não é nossa culpa se você não sabe lidar com eles!"
"A questão não é essa! É que foi um choque pra mim! Um dia a menina está me mostrando a redação dela sobre as férias e no outro ela me aparece toda pomposa, madura e... Você sabe..."
"Você diz isso porque demorou anos pra perder sua virgindade e ainda perdeu numa situação quase traumática"
"Espere ai! Eu já falei que a gente não sabia que a avó dela estava em casa naquele dia... Foi um acidente!"
"O que só fez de você mais reprimido!"
"Repri... Como é? Você já desviou toda a conversa! A questão é nossa filha! De repente aparece um cara descolado e... Enfim..."
"Você diz isso porque ela é mulher. Se fosse um menino seria diferente..."
"Ah... Então foi você que colocou essa idéia na cabeça dela, não?"
"E além de reprimido, é machista!"
"Você quer parar de me acusar?"
"Você tem sério problemas, sabia?"
"Deixe meus problemas fora disso!" e foi para a cozinha.
Bebendo um copo com água. A porta se abriu. Ele foi falando e se virando.
"Vai me acusar de mais alguma coisa?"
"Não, pai..." disse a filha.
"Ah, você..." disse voltando para a pia.
"Pai! É nessa hora que eu falo umas coisas bonitas, você também, a gente se abraça e pede desculpas um pro outro. Dai a mamãe entra e nos abraça dizendo que nós somos uma família cheia de problemas, mas que nos amamamos e vamos superar isso."
"Meu Deus! Você tem assistido a muitos filmes do Frank Capra"
"Quem?"
"Esquece! E que história é essa de "uma família cheia de problemas"? O problemático aqui sou eu, lembra?"
"Eu também tenho meus problemas"
"É claro! Você é mulher, adolescente, quer mais?"
"Pai!" disse a filha.
A mãe entra.
"Eu pensei que vocês estariam abraçados, eu me juntaria e diria algo bonito" disse ela decepcionada.
"Deus do céu! Acho que devemos ir para a locadora agora" disse o pai.
"Alugar um filme do Frank Capra?" disse a mãe.
"Mas quem é esse afinal?" disse a filha.
"Não! Eu sugiro algo entre Bergman e Gorge A. Romero."
No carro.
"Pai! Esse Bergman não é diretor de fimes eróticos?"
"Não! Esse é o Buttman" disse o pai.
"Como você sabe dessas coisas?" perguntou a mãe.
"O pai deve ter demorado pra perder a virgindade, daí recorria a esse filmes" disse a filha.
"Escute aqui! Não quero tocar nesse assunto quando você estiver por perto, pelo menos até você ter um filho, dai não poderei mais negar"
"Na verdade... Minha menstruação está um pouco atrasada" disse a filha retiscente.
Carro freia bruscamente.
"O que?" disseram os pais.

Continua...

Ouvindo Django Reinhardt com "I´ll see you in my dreams"