quarta-feira, 29 de julho de 2009

Eternos Choques

Sequência de Choques

- Acho que foi aquele filme do Woody Allen que me deixou um pouco deprimido.
- Woody Allen? Mas ele não faz comédias?
- É, faz, mas são justamente essas que às vezes me deixam mais pra baixo.
- Mas como assim?
- É que elas tem um sarcasmo forte com relação à vida, sabe? Um pessimismo tão grande que chega a ser engraçado.
- Mas a vida não é assim?
- É... E por isso que fiquei um pouco deprimido.
- Você é doido. Aposto que nos filmes de drama você sai por ai dando pulos de alegria.
- Nem sempre. Mas é que nesse filme eu fiquei meio angustiado.
- Era sobre o quê?
- Sobre um jovem escritor que tinha uma namorada maluca.
- Até onde eu sei quase todos os filmes do Woody Allen tem essa trama.
- Eu sei, mas é que nesse ele faz o tipo conselheiro e não consegue entender como essa juventude está cada vez mais rápido neurótica e problemática.
- Envelhecer deve ser terrível. É que nem aquela máxima que diz que quando você é jovem tem o corpo mas não tem a mente e o contrário também vale.
- Exatamente.
- Dai você assiste um filme que fala sobre isso e fica todo deprimido?
- É que isso me fez lembrar aquela moça que encontrei na festa de ontem.
- Aquela novinha que não tirava os olhos de você? É amiga da minha irmã. Incrivelmente inteligente. Bonita e tem senso de humor.
- Eu sei. Conversei um pouco com ela. Eu tomando cerveja e ela refrigerante.
- Ah! Entendi!
- O quê?
- Como o quê? Você gamou nela e não admite só porque ela é bem mais jovem.
- Deus do céu! Não posso falar de uma garota que conheci e você já acha que estou apaixonado.
- Ninguém falou em paixão aqui. É normal, ela é jovem, bonita, inteligente. Perfeita.
- Bem, eu nem sempre baseio meu gosto pelas mulheres nesse tripé, ainda mais que ele dificilmente se mantém firme.
- É! E quando ele é firme demais você sai correndo. Afinal, ela nunca vai precisar de você para preencher o calço que falta para mantê-la firme.
- Meu Deus! Por que raios você está cruelmente certo?
- Nos conhecemos há um bom tempo.
- Mas acho que falta maturidade nela.
- Sabia que você acharia alguma coisa para não sair por baixo. A menina é madura. Entende mais de jazz do que eu e você juntos, os pais dela são músicos.
- E desde quando isso faz dela madura?
- O bom gosto vem com a maturidade.
- Mas ainda falta vivência.
- É... Talvez falte.
- E imagine se eu tente algo com ela. E imagine se der certo. E imagine se nos apaixonarmos e tivermos lindos filhos.
- O que tem?
- Eu vou ter sido a única experiência amorosa dela? E os namoros que não darão certo? E os namorados cafajestes que vão enganá-la? E os apaixonados que ela vai enganar? E as brigas com as amigas por causa de um mesmo cara? E as confidências? Não é justo privá-la disso!
- Mas se estiverem apaixonados, tudo vale! Esse esteriótipo de vida que você acabou de descrever não é o único que funciona, aliás, ele funciona?
- Tudo bem, mas ela é tão novinha. Precisa viver um pouco mais, sei lá.
- Eu sei qual é o seu problema! Você acha que as pessoas só podem se apaixonar depois de terem vivido muitas experiências. Você não acredita no amor aos dezessete, dezoito anos.
- É claro que acredito! Só não aconteceu comigo.
- E por isso não pode acontecer com os outros? Lembra daquela minha namorada? Aquela do colégio?
- Sei.
- Eu a amava, tinha certeza disso. Queria vê-la sempre e apesar de achar outras mulheres atraentes, só pensava nela como amante. Eu me sentia bem com ela.
- Não foi essa que te trocou por um cara bem mais velho?
- Sim, mas e dai? Por um momento nós nos amávamos.
- Eu lembro dela. Disse que estava cansada de namorar com crianças e resolveu sair com o professor de teatro dela, não é? E você ficou arrasado.
- É claro que fiquei! Eu a amava e ela me trocou por aquele velho maldito!
- Depois o cara não trocou ela por um grande amor do passado?
- Esse mesmo! E ela descobriu que estava grávida.
- Sério?
- É... A vida é terrível não?
- Você fala isso com uma naturalidade. Isso acabou com a vida dela.
- Que nada! Hoje ela mora com os filhos, os ama bastante e não se arrepende de nada.
- E você?
- Eu achei tudo muito engraçado. Ela me procurou depois, mas dai eu disse que o problema de largar crianças é que elas crescem orgulhosas. E eu já tinha crescido.
- Depois eu é que sou o amargurado.
- Pois é...
- Mas é disso que eu estou falando. Não quero privar a garota de viver essas coisas. Desilusões, sentimentos fortes, exceto a gravidez precoce, mas você entendeu.
- Você acha que ela vai se apaixonar por você, não é?
- E se eu me apaixonar por ela?
- Dai saberemos que alguma coisa bate ai dentro.
- Eu não sei. E se ela for virgem?
- Escuta! Ela não é! Ouvi uma conversa dela com minha irmã esses dias. Ela já perdeu. Inclusive a menstruação dela atrasou e foi o maior problema na casa dela com os pais.
- Mas eles ainda estão juntos? Ela e o cara que tirou... Você sabe...
- Não sei, mas é um cara da idade dela.
- Mas é um menino.
- Quase um bebê.
- Mas se ela quis ficar com ele, o garoto deve ter potencial.
- Ele não deve ser igual a essa criançada da idade deles.
- Ou isso ou ela não tinha muita opção e apelou pro primeiro que não confundiu Monet com expressionismo alemão.
- Mas veja bem, como você realmente se sentiu com relação ao professor de teatro da sua ex-namorada quando ela resolveu ficar com ele?
- Fiquei puto!
- Então! Não quero ser um desses caras mais velhos que saem por ai em busca de menininhas inocentes.
- Primeiro: de menininha e inocente ela não tem nada. Segundo: você é um cara legal e não é tão velho quanto aquele maldito.
- Mas não é isso que vai parecer.
- Lá vem você se preocupar com o que os outros vão achar.
- Você não se preocupa?
- Claro que sim, mas não sou eu quem estou gamado numa garota de dezesseis anos.
- E meio, ela tem quase dezessete. Eu perguntei ontem.
- Pois é.
- Você acha que ela gostou de mim?
- Não tirou os olhos de você! Se quiser posso perguntar para minha irmã.
- Deus do céu! Não estamos mais no colégio. Se quiser falar com ela, eu vou até ela.
- E como chegará até ela?
- Peça o telefone para sua irmã e diga que fui eu quem pedi. Ela com certeza vai contar pra ela e as coisas vão ficar ajeitadas.
- Não éramos nós que não estávamos mais no colegial?
- Técnicas antigas não devem ser esquecidas, mas sim aprimoradas.
- Vou falar com minha irmã então.
- Escute, onde foi que ela se conheceram afinal?
- Não sei bem, acho que foi na aula de teatro.
- Droga! Espero que o professor de interpretação delas não seja um desses caras charmosos cheios de lábia.
- Se eu fosse você me preocuparia mais com o professor de expressão corporal.


Continua...

Ouvindo Billie Holiday com "The Way You Look Tonight"