segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Memória Botecal

Já passara um tempo, mas ele lembrava com nostalgia do boteco em que comia algumas vezes por semana na época em que trabalhava lá pelas bandas do centro. A verdade é que desde criança fora apaixonado por botecos. Seu pai teve um bar e ele lembra até hoje das vezes em que, quando com fome, chegava da escola e pedia uma coxinha engordurada. O pai negava e dizia que sua mãe não iria gostar, mas no final ,depois de muita birra acabava cedendo. Fato que lhe renderia algumas broncas da esposa de noite quando o filho se queixava de enjoo e a mãe perguntava quase que inquisitoriamente "O que você comeu hoje?" deixando a criança impossibilitada de mentir e o pai numa situação mais que desconfortável.
"Falei pra não dar besteira pro menino" dizia a mãe.
"Mas ele estava com fome e não tinha almoço pronto em casa" retrucava o pai.
"Alguém tem que trabalhar de verdade nessa casa" revidava certeiramente a mãe de três filhos que trabalhava o dia inteiro.
E a briga se seguia e se repetia quase toda semana. No começo, achava que a briga era por conta das besteiras gordurosas que saboreava quando chegava da escola e lhe faziam mal ao fígado, mas reparou que seria bom demais se o motivo fosse só esse.
Aconteceu de o pai vender o bar depois do terceiro roubo ao lugar.
Ele viu com tristeza as portas do bar serem fechadas. As luzes de dentro apagadas, mas ele podia ver o velho sofá no fundo, a pia, o baleiro que sofrera em suas mãos, a caixa registradora, tudo entregue a escuridão assim que as portas foram cerradas só sendo reabertas para uma loja que reformaria todo o lugar anos mais tarde.
O fato é que toda vez que comia no boteco do centro, sentia essa felicidade escondida dos os tempos de infância.
O balcão de higiene duvidosa, a salada sempre variada e um pouco murcha "Sem cebola, por favor" ele pedia, a cozinheira com ares de Tia Anastácia e os copos que variavam do tipo americano ao tipo pomarola ou requeijão.
"Coquinha com gelo e limão?" indagava o dono do boteco quando ele entrava "Opa! Por que não?"
"Frango com quiabo?" lançava a atendente "Pode ser, mas sem quiabo. Só o caldinho" interava. "Manda um frango com quiabo sem quiabo, dona Isabel!" e lá do fundo ela gritava "Pode colocar macarrão?" e a atendente o olhava como que dizendo "Não vai responder?" e ele gritava meio sem jeito lembrando que lera na sala de espera do dentista numa revista feminina que não era bom pra dieta misturar massas com frango "Um pouquinho, pode ser..."
"Quiabo é afrodisíaco" dizia um velho na ponta do balcão e ele sorria. Olhava para a TV e lá uma mulher bonita cercada de marmanjos comentava os gols da rodada do campeonato. Ele sorria e se sentia bem.
Gostava do "clima botecal", como gostava de chamar. Bem melhor que aquele self-service no final da rua, ou melhor, bem mais humano que qualquer self-service onde encontrava sushis ao lado de feijoadas, tabules ao lado do arroz à grega. Por mais que tais restaurantes fossem talvez os únicos recintos onde a cultura árabe e judaica pudessem conviver sem que nada explodisse, não se sentia bem ao entregar a comanda para o homem da balança que anotava o quanto você colocara no prato e soltava um sério "Obrigado e bom apetite" e depois ia sozinho compartilhar uma mesa com desconhecidos que sequer ousariam comentar se tal prato era bom pra isso ou para aquilo. Entrar, encher, pesar, comer, pagar (fila longa) e sair.
"Ela colocou um pouco mais de caldinho pra compensar o quiabo, tudo bem?" dizia a atendente ao trazer o prato. "Ótimo" dizia.
Talvez fosse saudosista demais, ou simplesmente preferia esse "clima botecal" que ia além das paredes do boteco, ele sabia, e o que mais o entristecia é que tal clima vinha se perdendo cada dia mais.
Um dia, chegou meio mal do estômago em casa. Já não trabalhava mais pelo centro e fazia tempo que não ia num autêntico boteco (eram poucos. Só aqueles atificiais que tinham virado moda nos bairros ricos e badalados).
Resolveu ligar para a mãe para pedir a sugestão de um bom chá.
"É o estresse, mãe. Não se preocupe." dizia acalmando-a.
"Será? O que você comeu hoje?" retrucava incisiva como sempre.
"Bom, eu preferia ter almoçado um frango com quiabo sem quiabo, mas acho que foi o kibe cru que não caiu bem com o torresmo" e riu nostalgicamente deixando a mãe sem entender o motivo.

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Retomando textos.
Notem que há umas mudanzinhas ao lado.

Abraços


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [3]

Ou "Como mesmo cheio de trabalho pra fazer, arranjei uma brecha para desenhar"









Ainda ouvindo Bowie, com uma versão demo de Ziggy Stardust

Abraços

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías [2]

ou "Como eu continuo arrajando brechas para desenhar (mal) no trabalho"







Agora em cores! Chique né?

Abraços!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cayo, el cartunista de manos vacías

Ou "como eu enrolei muito no trabalho hoje"


Ouvindo o bom e belo Bowie com "Five Years"