quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Jovens choques

Da série "Choques"

Já conversavam por algumas horas sentados no sofá e partiam para a segunda garrafa de vinho.
Na TV, um clipe de alguma banda qualquer.
Depois de tantos temas discutidos, remexidos, relembrados, caíram no clássico tema de relacionamentos.
"Vou desencanar de vez! Dá muito trabalho" disse ela.
Ele com um leve sorriso na boca e olhando para o nada disse:
"Desistir assim de repente não tem graça... Precisa de um trauma, uma coisa grave."
"E como você sabe que não passei por algo assim no passado?" questionou ela.
"Seu rosto, sua fala, seu jeito não guardam muitos segredos" disse ele virando só a cabeça e dando um gole no vinho ao que completou "E nem idade pra tantos traumas assim você tem"
"Como se você fosse muito mais velho" debochou ela.
"Mas eu sei..." disse beirando a arrogância que, ele percebeu, não a agradou.
"Não..." disse ela sorrindo debochadamente sem poder pensar em algo melhor para dizer e indicando sinais de sono.
Por mais que ele quisesse virar, chegar mais perto dela, dizer algumas palavras e por fim beijá-la, sabia que os riscos de não conseguir eram grandes. Para evitar constrangimentos, não encaminhava a empreitada. Ficava no sofá.
"Vou começar a ficar só por ficar" disse ela.
"A velha história" disse virando os olhos e continuou "Começa assim: fico por ficar e quando vê, já está apaixonada..."
"Você toma por base as garotas com quem já ficou" disse ela incomodada "Nem todas são assim" completou.
"Tudo bem, não posso generalizar... Mas em grande parte..." deu mais um gole.
"Você já levou um fora?" perguntou ela.
"Mas é claro! Faz parte da vida... Mas eu gosto de chamar de falta de sintonia. Quando não rola não rola e não é você que vai mudar isso."
"E todo aquele poder de sedução que você tinha me dito que usava?" insinuou ela.
"Nem sempre deve ser aplicado. Às vezes é muito esforço pra pouca coisa, entende?" argumentou pensando se a regra não se aplicava à ocasião.
"Quer dizer então que você só avança se a outra demonstrar interesse?" perguntou ela.
"Na verdade eu só demonstro interesse se ela demonstrar" disse convicto.
Pensou que talvez pudesse usar essa conversa em seu favor.
"E se ela não demonstrar que está afim..." disse ela.
"Não movo um dedo" mentiu ele.
"É engraçado poder falar dessas coisas com você" disse sem insinuações "Não converso sobre isso com muitos caras"
"Ou você é muito azarada ou muito sortuda por isso" disse ele rindo.
"Como assim?" riu "Sei lá... Me sinto natural falando disso com você, só isso... Apesar de você ser irmão da minha melhor amiga, você sabe..."
Talvez fosse esse o momento de avançar, mas hesitou. Não poderia ser nem muito direto, nem muito sutil. Talvez ela viesse com a solução, e veio:
"Porque você é o tipo de cara que eu sei que se ficasse comigo não ia sair por ai falando pra todo mundo, nem ia se apaixonar por mim" disse argumentando seriamente, como se fosse uma teoria relevante.
"No entanto" ele terminou o vinho da taça e disse "Há alguns motivos para que não fiquemos..."
"Não! Não é isso que quis dizer" interrompeu ela.
"Preste atenção: já passamos do estágio onde ou transamos ou viramos amigos, certo?"
Ela fez que sim.
"Já passou um tempo. Conversamos sobre muita coisa. Sabemos de algumas intimidades que só se reportam aos amigos e não amantes"
Ela fez que sim, apesar de não concordar.
"E eu adoraria dizer que você não faz meu tipo, no entanto dentro dos grupos de mulheres que fazem o meu tipo" fez que ia contar nos dedos olhando pra cima "você até que se encaixa num grupo talvez... Mas..."
Sem esperar ganhou um beijo dela.
Fazendo desmoronar toda sua teoria, retribuiu.
Nunca fora tão difícil, mas fácil, porém inusitado.
Nada como uma pitada de desprezo despretensioso.

Ouvindo Regina Spektor