sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Espera

Aconteceu tem um tempo. Não havia conseguido companhia naquela tarde e fui ao cinema sozinho. Estava calor, coloquei meus trajes casuais e peguei  o ônibus em direção ao meu destino que não era muito longe e o trânsito estava traquilo. Ao chegar no cinema, já sabia o filme e o horário que iria assistir, mas mesmo assim peguei um folheto com a programação para confirmar e aproveitei para checar os outros filmes.
Comprei meu ingresso e fui me sentar num banco de dois lugares que ficava embaixo dos cartazes dos filmes. Ainda faltava uma hora para o filme começar e solteiro que estava, comecei a perceber as pessoas, em especial as garotas que circulavam pelo cinema. Uma mulher acompanhava a filha adolescente para algum filme, duas amigas conversavam e riam alto no Café do cinema, uma senhora que estava sentada no banco ao lado do meu lia com certa dificuldade o folheto da programação. Esquecera os óculos em casa, talvez. "Mas como iria ler as legendas?" pensei "Talvez ela já entenda francês... Mas e se o filme for em inglês ou espanhol ou mandarin? Enfim... Preciso ir ao banco" levantei mas o celular tocou.
"O quê? Agora já está meio tarde! Já comprei o ingresso e acho que você não chega aqui em uma hora... Tudo bem! Fica pra próxima! Abraço..."
A senhora olhava pra mim e quando virei ela virou também. Devia se parecer com algum parente dela. Voltei a me sentar e novamente averiguei o terreno. Novas pessoas, novas garotas. Duas entraram enquanto falava no celular e não pude deixar de notar seus vestidos leves e curtos de verão que delineavam suas curvas que pareciam ter sido esculpidas pelo escultor predileto do melhor artista renascentista. Os decotes, as pernas, os cabelos, os olhos, as mãos dadas.
"Droga!" pensei. Antes que eu pudesse ter qualquer ideia maluca de aproximação, elas já haviam comprado seus ingressos e agora trocavam carícias num outro banco perto do Café. "Mulheres" pensei "A pior e mais forte concorrência que um homem pode ter... Vou ao banco!"
Mas reparei que uma garota lia um livro no Café. Era linda! O cabelo, os olhos, mas logo apareceu um cara com dois cafés. Devia ser o namorado.
"Posso sentar aqui?" uma garota perguntou.
Mal me virei "Sim! Sim!" e naquele olhar despretensioso, percebi minha grande chance. Nem esperei a garota sentar "Vai ver um filme?" e logo me arrependia da pergunta estúpida.
"Vou sim! Só que só começa daqui uns quarenta minutos" ela respondeu.
"Ah! Então acho que vamos ver o mesmo filme" e mostrei meu ingresso. Percebi que aquilo era patético.
"Sim! Esse mesmo!" disse ela sorrindo e pegou o celular.
"É... Ouvi boas críticas" disse para que o assunto não morresse.
"É... Sim..." disse ela sem olhar pra mim pois começara a digitar uma mensagem.
"É..." eu disse escondendo o medo de que aquilo acabasse ali mesmo. Como podia deixar que acabasse assim? Nem precisei ir atrás! Ela deu o primeiro passo! Ninguém sentaria ao meu lado assim por nada! Com certeza ela havia me visto, me achou interessante e perguntou se podia se sentar ao meu lado. E se por acaso eu assistisse o mesmo filme que ela seria perfeito! Nós dois travaríamos um conversa, trocaríamos telefones e o garanhão já teria programa para sexta-feira.
"Final de semana chegando hein?" eu disse. Que tipo de pergunta idiota foi essa?
"É..." disse ela ainda digitando a mensagem. Resolvi esperar ela terminar. Quais seriam os próximo passos? Não podia ir perguntando sobre os planos dela do final de semana, seria muito direto e ela poderia perceber o meu interesse. Ela terminou.
"Tem planos para o final de semana?" Idiota! Imbecil! O que você fica fazendo enquanto eu fico aqui pensando tudo? Ela estranhou um pouco a pergunta, mas não ligou.
"Err... Acho que vou ver uma exposição no Museu de Arte Moderna, esse é o último final de semana"
Ótimo! Ela gostava de arte, seria uma artista? Estaria eu me envolvendo com uma artista? Já havia me envolvido com secretárias, atrizes, designers, arquitetas, todas belas, psicóticas, simpáticas e maníaco-depressivas, mas uma artista? Se bem que ir em exposições não faz de você um artista.
"Então você é artista?" Tudo bem! Em que momento essa pergunta passou pela minha mente e resolveu ser transformada em sons pelas minhas cordas vocais?
"Não!" ela sorriu! Que sorriso bonito! Mexeu no cabelo "Sou professora!" e ainda completou para meu constrangimento "Não precisa ser artista para ir à uma exposição, certo?"
"Claro! Claro que não! Que cabeça a minha" ri sem graça e antes que ela pudesse perguntar sobre minha  ocupação e eu tivesse que contar todas as minhas desilusões profissionais eu perguntei:
"A exposição é sobre o quê?"
"É um apanhado de obras de artistas contemporâneos" repondeu ela. Apanhado? Como você apanha a arte? Contemporâneos? Meu Deus! Devia ser a pior exposição do mundo. E o pior é que ela devia de fato se chamar "Apanhado de Arte", porque não devia passar disso.
"Muito legal!" disse eu e completei "Acho que vou passar por lá qualquer dia desses"
"Esse é o último final de semana!" ela disse.
Esse foi o momento! Eu não sei se o leitor percebeu, talvez devido à falta de malandragem masculina de reparar os códigos das mulheres, mas foi nesse momento que ela praticamente abriu as portas da vida dela para mim. Ao dizer que esse era o último final de semana, ela estava indiretamente me convidando para ver a exposição junto com ela. Lá conversaríamos sobre tudo, riríamos das nossas piadas, eu falaria mal dos artistas, ela os defenderia, tomaríamos um café juntos, até jantariamos talvez, e na despedida em alguma catraca de algum metrô da cidade, nos olharíamos nos olhos, tocaríamos as mãos, nos beijaríamos e começaríamos um linda relação e contaríamos para nossos colegas nos jantares em conjunto que havíamos nos conhecido no cinema e eu me gabaria dizendo que ela havia sentado ao meu lado porque se interessara por mim e ela mentiria dizendo que só sentara ali porque era o único lugar vago. Todos ririam e nós trocaríamos olhares apaixonados na mesa.
"Você está bem?" ela perguntou "Ficou olhando para aquele poster um tempão" ela riu.
"Ah! É que estava querendo assistir aquele filme já tem um tempo" eu menti.
"Esse é bom! Vim com meu namorado no final de semana passado! É uma história linda e tem uma fotografia sensacional"
"É.. Dá pra imaginar pelo cartaz..." Quem diria! Poucas pessoas se interessam pela fotografia de um... Ela disse namorado?
O celular dela tocou! Ela falou algo, mas não tinha entendido.
"Bem, vou encontrar com meu namorado na padaria aqui perto pra comer algo! Esse Café é muito caro!"
"É... A arte sempre vem acompanhada de algo muito caro" brinquei sem sorrir e ainda olhando para o poster.
"É... Bem! Até mais! Tenha um bom filme" disse ela e saiu.
"Você também" disse em voz baixa.
O filme ainda iria demorar a começar, mas resolvi já entrar.
"Nem de arte contemporânea eu gosto mesmo..." e adentrei à sala escura.










Por Liniers

sábado, 9 de janeiro de 2010

Mudanças para 2010

Ei, amigos!

Deixo aqui um recado para minha mãe e o Tobias, meu futuro empresário - os dois leitores fixos e assíduos do meu blog.
Como podem notar, mãe e Tobias, o blog sofreu algumas alterações no layout.
Nada muito diferente. Algumas cores aqui outras coisas ali.
Decidi me render às facilidades do Blogger que resistia tanto pois toda facilidade traz limitações à criatividade. Vejam o controle remoto, por exemplo, ninguém mais usa tacos de sinuca ou bolinhas de tênis para mudar o canal.
De qualquer modo, descobri algumas maneiras de confirgurar as coisas quadradas e fixas do Blogger e dar uma customizada na aparência como por exemplo essa coluna de posts que na maioria dos blogs do Blogger é bem fininha, mas aqui é larga como o Rio Tietê em dia de tragédia no Jd. Pantanal.
Em breve a coluda ao lado, chiquemente conhecida com "side bar", vai ter as coisas que sempre teve como links de blogs e sites bacanas e outras frugalidades novas como dicas de pornografia e endereços de casas de Swing.

A má e péssima notícia é que não consegui migrar os comentários que tinham antes. Infelizmente o servidor que mantinha os comentários começou a querer cobrar pelos serviços e quando eu clico no link dizendo que quero usar o serviço basicão de graça mesmo, eles fingem que não foi com eles e mostram uma mensagem de erro.
Fiquemos com os comentários do Blogger então, os quais eu configurei para que todo mundo possa comentar, mesmo que anonimamente.

Para não dizer que só fiz um post de aviso que ninguém lê, exceto minha mãe e o Tobias, posto aqui uma charge que fiz quando bolei uma das resoluções para 2010 que é, adivinhem, saldar minhas dívidas!

















Abraços e bom 2010!

Ouvindo "Dance Anthem Of The 80s" por Regina Spektor

PS: Em breve um blog exclusivo só apra tiras, charges e ilustrações viu, Tobias?
PS2: Sobre facilidades e criatividade: Wallace and Gromit - TheTellyscope

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Sobre Deus, Bruxas e Guerra nas Estrelas

Era dia.
"Perai! Olha o carro!" disse ela sem sucesso. Ele a agarrou pelo braço e eles seguiram na calçada.
"Ele é cristão! Não vai nos atropelar" disse ele.
Ela percebeu que estavam em frente à uma dessas igrejas pentecostais que fazem você ficar com aquela sensação de dívida com o senhor (no duplo sentido) só de olhar para o letreiro.
"Ele ser cristão não faz dele um cara atento." retrucou ela enquanto andavam.
"Ah, mas ele estava indo na manha, você viu." debochou ele.
"Ele ia estacionar!" reclamou ela.
"Mas nunca iria nos atropelar!" respondeu rindo.
"Por que você acredita nisso?" perguntou.
"Ora, ele acredita em Deus!" retrucou impaciente.
"Isso não faz dele um santo!" disse ela.
"Mas deixa ele atento para não atropelar pobres inocentes na calçada e não precisar acertar as contas depois, você entende, não?" disse ele.
"Mas você não acredita?" perguntou ela.
"Que ele nos atropelaria? Claro que não!" debochou ele mais uma vez.
"Não! Eu digo, em Deus" ela esperou a reação dele que não veio e continuou "Você acredita?"
"Não do jeito que aquele cara acredita" disse ele e continuou antes que ela perguntasse o motivo "Eu não penso no meu salário toda vez que penso Nele."
"Tudo bem, você não se dá com as religiões, mas e Ele? O grandão, o barbudão, o cara lá de cima, você acredita?" questionou ela demonstrando um verdadeiro interesse.
Enquanto passavam debaixo de uma árvore ele parou.
"Ok! Imagine esses caras que ficam praguejando a existência e dizendo por ai que Deus não existe e que é só um engôdo para dar dinheiro que nem aqueles ursinhos no último filme do Guerra nas Estrelas."
"Estou imaginando! Engôdo! Ursinhos! Sabres de luz, ok!" disse ela acompanhando o raciocínio.
"Não! Não! Sem sabres de luz, só os ursinhos, entende?" corrigiu ele.
"Tudo bem! Sem sabres! Tudo bem, desculpe, continue." disse ela balançando a cabeça.
"Pois bem! Imagine se um dia esses caras morressem e pronto, lá se foi a existência deles nesse planetinha sem vergonha e nunca mais! Um abraço! Bye bye! Sayonará! Adios, muchachos! Au revoir!"
"Eu já tinha entendido na parte do "abraço", continue." interrompeu ela.
"Eles não perderam nada, certo? Mas e se por algum motivo, alguma dobra no espaço-tempo, alguma porcaria qualquer, e se por um momento Deus existe e está lá esperando para ter uma conversinha com esses caras?" questionou ele olhando para cima onde só via folhas no lugar de céu.
"Ah! Entendi... Mas dai você está aceitando que Deus tem uma forma, certo?" conferiu ela.
"Forma? Ele é Deus! Pode tomar qualquer forma que quiser! Talvez formas mais amigáveis para nosso entendimento ou algo abstrato, entende?" concluiu ele.
"Entendi... É a velha história das bruxas então..." disse e voltou a andar.
"Bruxas? Que bruxas? Não falei nada de bruxas! Estamos falando de Deus! O grande Homem! O Michael Jackson do cosmos só que sem a luva e o chapéu" disse ele contando algo nos dedos.
"A história de que "não acredito em buxas, mas que elas existem, existem", sabe?" perguntou ela.
"E nem todas aquelas plásticas, será que sobrou alguma carne para os bichinhos comerem?" disse ele sem dar atenção à ela.
"Ei! Preste atenção!" ela bateu no ombro dele.
"Tudo bem! A teoria é parecida" admitiu ele.
"Parecida? É a mesma coisa! Uma frase resume tudo e nem precisa de sabres de luz e vilões com capacete" protestou ela.
"O que você tem com esses sabres? De qualquer modo! Minha teoria é mais sofisticada..." disse ele cheio de orgulho.
"É, claro! Eu chamo de covardia! Ou você acredita ou não! Pronto!" concluiu ela.
"Eu chamo de precaução! Ou você se previne pelo menos um pouquinho ou você pode acabar nocauteado por um cara bem grande esbravejando frases como "Eu avisei para não fazer piadas sobre minha santa mãe", entende?" disse ele.
"Claro! Você é maluco! Bem, chegamos! O banco é logo ali, preciso fazer uma depósito" disse ela pegando a carteira em sua bolsa.
"E você me fez andar até aqui? Por que não entrou naquela igreja logo?"
E entraram no banco.

Ouvindo "Bad" com Michael Jackson.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Bloqueio

Sete maneiras de começar um texto... Nenhuma para terminar...

1-
O jovem entrou na loja com um ar de decidido enquanto que um velho gordo com grossos bigodes atrás do balcão olhou para a criança sentada num caixote ao seu lado e disse dando uma piscadela para ela "Olhe e aprenda"

2-
"Com licença, o senhor tem permissão para estar aqui" disse o monstro alto de três olhos para a criança distraída no saguão cheio de monstros.
"Não sei não! Mas vim com meu amigo que está logo ali comprando um lanche para nós" disse a criança apontando para um ser com chifres e dentes ameaçadores que trazia sorrindo uma bandeja com dois lanches e dois copos enormes com alguma bebida avermelhada dentro. Quando o monstro chegou e cumprimentou o primeiro, a criança preferiu não perceber que entre os pães dos lanches umas criaturinhas de aspecto desprezível agonizavam e pediam por socorro.

3-
Ela queria abraçá-lo, beijá-lo e dizer tudo que sentia, mas o olhar dele estava longe em algum lugar distante da sua prórpia mente.

4-
Tinha acabado de acordar de um sonho estranho e ainda não entendia bem se aquilo que sonhara condizia com suas vontades reais ou se era somente o inconsciente lhe pregando uma peça.

5-
Dia desses fui atrás de um livro num sebo. Ao entrar, uma moça de pronto perguntou se eu precisava de ajuda. Respondi que não e menti dizendo que só iria dar uma olhada. Já sabia muito bem o livro que precisava.
"Literatura Estrangeira é ali?" perguntei à moça.
"Sim, ordem pelo último nome do autor" respondeu ela.
Fui logo no "S", mas não encontrei. Era uma prateleira grande e bem organizada. Tão organizada que dava vergonha de tirar um livro dela para folhear a fazer com que a fila de outros livros deslizasse levemente para esquerda ou direita. Rendi-me e voltei à moça:
"Estou procurando esse livro" mostrei o papel amarelo com o nome do livro e o autor.
Ela pegou o papel e entrou numa sala que tinha mais livros e voltou com outra moça.

6-
Era uma tarde comum e na porta de entrada havia um cartaz colocado às pressas onde podiam-se ver em letras garrafais o anúncio "Convenção de Monstros, Seres Fantásticos e Amigos Imaginários" e três filas se formavam diante das mesas de inscrição.
Uma criança sentada num banco assistia à cena. Eram seres de todo tipo, monstros com vários olhos, outros que misturavam coisas de homens com coisas de animais e alguns conhecidos do grande público. Lá ele viu o coelhinho da Páscoa conversando sem sucesso com a mula sem cabeça que se esforçava para avisá-lo que ele estava na fila errada e que quando chegasse na mesa de inscrição teria que voltar para o fim da sua verdadeira fila. A fila dos monstros era a mais complicada. Uns se auto afirmavam enquanto monstros como o Monstro do Armário e o Bicho Papão, mas outros insistiam em ser chamados de seres fantásticos e alguns, vejam só, se diziam amigos imaginários. Vamos concordar que nenhuma criança gostaria de ter um monstro medonho enquanto amigo imaginário. Um monstro de três olhos, dentes afiados e parte dos seus orgãos vitais a mostra insistia em dizer que era o amigo imaginário de um menino da Europa e logo os seguranças tiveram de intervir quando uma fada tentou convencê-lo a ir para sua fila correta e ele respondeu com uma mordida que deixou a fada bastante assustada e acabou espalhando um pouco de seu pó mágico em outros seres causando uma grande confusão.

7-
Uns anos atrás, eu reencontrei uma paixão do colégio.
Ambos estávamos no fim dos nossos namoros, cheios de crises e afins e nos encontramos só pra colocar o papo em dia.
Concordamos que não havíamos nascido pro namoro, sempre tinhamos problemas com nossos companheiros e combinamos que não iríamos mais namorar ninguém e seguir uma vida de solteiros, pelo menos durante os 20.


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Cayo, el cartunista de manos vacías [10]

Fingindo que estou mandando bem, passarei a postar minhas tiras em um outro blog e manter esse somente para textos! Espero que eles venham à mente...

Fica ai a última tira nesse blog!







Em breve, o layout do blog vai mudar! Vou me render às facilidades do Blogger e desencanar de editar as coisas com o bom e velho HTML... Enfim... Como se fizesse muita diferença! Aviso quando já estiver ganhando dinheiro com isso...

Ouvindo nossa querida Amy Winehouse com "Stronger Than Me"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Cayo, el cartunista de manos vacías [9]

Mais cenas de um namoro...
Primeira tira do ano!









Ouvindo Moonage Daydream com David Bowie.