quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Noite

Perdera os sentidos e entrara num transe silencioso em que só ele sabia que estava, mas mesmo assim não sentia seus membros, muito menos o vento que batia em seu rosto já que depois de um tempo percebera que sobrevoava a cidade. Lá embaixo, via os pontos luminosos que figuravam  um belo tapeto iluminado. Olhava para os telhados e tetos de casas e apartamentos e se perguntava o que estaria acontecendo naquele exato momento dentro daqueles ambiente.
Um casal brigando por algo sem motivo, talvez. Uma criança chorando no travesseiro a perda de algo que muito amava. Um parente ou um bola. Velhinhos dormindo cedo alheios à noite. Casais se amando embaixo dos lençóis, no chão, em cima dos móveis. Uma mulher solteirona acompanhando as últimas notícias do dia no jornal da noite. Provavelmente havia um estudante que chegara tarde em casa e requentara o almoço que agora era janta e o saboreava enquanto assistia ao seu seriado predileto que por sorte começava logo quando chegava da faculdade.
Como sabia disso se só sobrevoava? Começou a sentir uma leve brisa em seu rosto e o movimento das mãos e dos pés começava a voltar.
Que boa a sensação essa de voar.
Subiu bem alto e ao passar por uma nuvem, surpreendeu-se com o fato de não sair todo enxarcado.
"Não são feitas de gotículas?" pensou.
Continuava a passear pelos céus sem se atrever a chegar muito perto dos prédios. E se alguém o visse? Ficariam tão surpresos quanto ele, mas não teriam o mesmo prazer de fazer o que ele fazia.
Voou por uma parte da cidade em que as casas pareciam escuras. Um homem sujo pedia esmolas aos transeuntes que o ignoravam. Dentro de casas, uma mulher batia no filho enquanto o pai preparava a cinta.
Um moça vidrada na TV parecia não perceber o programa que passava.
Continuava voando ainda sem entender como sabia dessas coisas.
Sobrevoou um campo verde que, sob a luz do luar, parecia prateado. Dispensou o clichê e passo por uma mata onde os animais faziam sua sinfonia ao luar. Sentiu que começara a perder altitude. Sofreu alguns solavancos que aconteciam contra sua vontade e começou a cair.
Queda livre em direção à floresta.
Não houve estrondo quando caiu. Somente um barulho fofo.
Caíra em um monte de folhas, mas mesmo assim, seu corpo tremia pelo choque de perder o poder de voar. Conseguiria voar de novo?
Tentou alguns pulos sem sucesso até que sentiu que algo o puxava por debaixo das folhas. Uma raiz talvez?
Mas começava a puxar forte como se quisesse levá-lo para dentro das folhagens. Tentava escapar àquilo que o puxava até que sentiu que seu pé tocara algo úmido como lama. Já estava até a cintura e já começava a desistir de lutar contra essa força até que numa última tentativa impulsionou seu corpo para o alto e como que por milagre, voltou a voar.
Voou alto. Os pés gelados. Passou pelo verde campo prateado. Pela cidade, até que reconheceu sua casa. Percebeu que não estava mais no controle de seus movimentos. Perdera o movimento dos membros e o vento no rosto sumira. Ia numa velocidade alucinante diretamente para sua casa.
Vôo rasante em dieração ao seu quarto até que pulou da cama num susto, daqueles que sentimos quando ainda estamos no "quase-dormir".
"Que sonho maluco!" pensou.
Fechou a janela do quarto e foi tomar um copo com água. Na volta, ainda tentava remontar o que acontecera durante o transe. Ao colocar a cabeça no travesseiro percebera algo escuro que vinha da porta até sua cama como num rastro. Antes de cair no sono novamente, tentou concluir o que seria aquele rastro escuro, mas a mente pesava em num instante apagou.

Ouvindo "Rhapsody in Blue" pela New York Philarmonic Orchestra.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cinéma parlant


































Ok, eu disse que faria um outro blog pros quadrinhos, mas desencanei!
Tenho preguiça de ficar gerenciando essas coisas!

Abraços

Ouvindo "Love Theme from Blade Runner" por Vangelis.

Rituais Atuais

Estavam numa festa. Ele fora convidado por educação, mas como não tinha programa para aquele sábado, resolveu aparecer para surpresa dela. Bateu na porta e ela atendeu:
"Oi!" fez aquela cara de espanto mesclada ao sorriso que não consegue esconder a surpresa.
"Achou que eu não vinha, não é?" disse ele entregando a garrafa de vinho para ela.
"Não! Não é isso!" disse ela constrangida pegando a garrafa "Pode entrar! O pessoal está na sala."
Não era um grande festa, mas sim algo discreto. Alguns amigos conversando e o ingresso era algum tipo de bebida. Ao passar no supermercado para comprar o vinho, sua bebida predileta, ponderou se deveria ir mesmo à tal confraternização. O que estaria confraternizando? Só queria vê-la mesmo, falar um oi, conversar, fazer piadas, rir do riso dela, essas coisas, a troco de quê, afinal? Ela já devia estar em outra e tinha razão em fazê-lo, mas ele insistiu em aceitar o convite. No começo recusou, mas na última hora resolveu aparecer, entregou o vinho nas mãos dela e foi para a sala despretensiosamente sem nem beijá-la no rosto.
Na sala, alguns conhecidos, outros nem tanto. Pecebera que ela convidara todo tipo de amigo. Resolvera misturar universos, chamar amigos do trabalho, faculdade e da infância. Se por um lado tais atos possam resultar em relações frutíferas, por outro a noite pode acabar numa longa e pedante discussão sobre a legalização ou não do aborto no futuro estado palestino.
Pegou algo para beber e ficou encostado na parede enquanto a via passar até a cozinha, provavelmente para abrir o vinho. Olhou em volta e se perguntou quem seria o sortudo da vez. Aquele loiro conversando com uma colega sua? O moreno alto sentado no sofá ou aquele cara que fazia caras engraçadas sempre que ajeitava a grossa armação dos seus óculos?
"Deve estar sozinha" pensou, mas não devia ser. Ouvira boatos dos amigos "Ela está com um cara, eu fiquei sabendo" outros diziam que depois dele, ela passara para outro nível de relação "Talvez ela esteja preferindo novas experiências, você entende?" disse com uma piscadela uma amiga dele do trabalho "Posso falar com ela se quiser" completou.
"Não precisa! Ela deve estar bem! Seja lá com quem estiver..." disse olhando para o copo de cerveja no bar onde estavam.
"Me ajuda aqui?" disse ela lá longe. Ele conseguia ver um pedaço da cozinha. Lá estava ela com seu vestido preto entregando a garrafa de vinho e o abridor para alguém que ele não conseguia ver.
"Bem! Pelo menos não é um dos três que imaginei." pensou ele.
Virou um gole da bebida e quando olhou de novo para a cozinha, ela estava saindo junto com uma amiga.
"Bem que eu desconfiei!" pensou com um sorriso.
"Quero te apresentar minha amiga! Ela é da faculdade!" disse ela apresentando a amiga que estava com sua garrafa de vinho na mão. Ele a cumprimentou e completou:
"Vai beber tudo sozinha?"
"Não!" disse sorrindo "Quer um gole?" perguntou.
"Claro! Acho que mereço um pouco! Foi difícil achar uma boa safra no mercado!" mentiu feio.
Ficaram conversando, mas sua cabeça estava em outro lugar, em outra pessoa na verdade. Quem nunca viveu isso? Se não viveu, pelo menos viu num filme, se não, quando isso acontecer, vai pelo menos lembrar dessa história.
Ela arranjara outro e agora empurrava uma amiga pra ele. Saldo positivo para os dois lados.
"Mas como ela poderia ter superado assim tão rápido?" Ele se perguntava. Talvez fosse um teste e ela só queria ver até onde ele chegava, mas disso ele duvidava. Ao contrário dele, ela agia de forma mais passional e isso que o deixava mais intrigado.
"Não sei se vale a pena a gente continuar..." disse ele.
"Mas por que não? A gente se gosta, se da bem!" disse ela chorando.
"Eu sei, mas isso não vai chegar em lugar nenhum!" ele disse impassível.
"Mas tem que chegar em algum lugar? Vamos levando..." ela continuava .
"E vira rotina..." e depois de uma longa pausa, ele covardemente selava sua decisão "Desculpe..."
Voltando do flashback, ele a viu com ele. Um cara normal, parecido com ele. Eles ficavam lá no canto trocando carícias. Ao perceber que ela o viu espiando, ficou com um sentimento que mesclava desafio e ciúmes.
"Vou pegar um copo." disse à amiga dela e foi para a cozinha. Ficou lá esperando que ela aparecesse, mas nada. Quando voltou, lá estavam os dois conversando com a amiga.
"E o copo?" disse a amiga.
"Não achei nenhum que me agradasse." disse brincando.
"Ele é assim mesmo..." disse ela para amiga como se já estivesse preparando terreno. Isso o irritou.
"Você conhece meu namorado?" disse ela apresentando os dois.
"É um prazer!" disseram juntos apertando as mãos. Pelo aperto suave, ele supôs que o cara nem desconfiava do passado deles juntos.
"Você é o ex dela, não?" o namorado atual disse. Meio sem jeito, ele respondeu:
"É! Até que a morte nos separou." todos riram e ela completou pegando na mão da amiga:
"Eu falei que ele era engraçado!" o que o deixou um pouco mais irritado.
Os quatro se sentaram num sofá e conversaram sobre coisas triviais, programas de TV, jogos e aspirações. Vez ou outra, aparecia alguém que a tirava da conversa para resolver alguma coisa na cozinha ou qualquer outra coisa. Em alguns momentos, as duas saiam para ir ao banheiro, falar deles talvez, e eram nessas horas que ele ficava mais constrangido até que num desses momentos, a bebida já falava por si só e eles já haviam desenvolvido até uma certa amizade, ele perguntou:
"Eu sei que parece estranho, mas você não tem nem um pingo de ciúmes?"
"Não! Imagine! Ela me contou tudo! E afinal, você só ficaram uma semana, não?" disse ele.
Ele sabia que ela tinha mentido. Não podia ter contado tudo. Disse que foi um caso rápido e que não deu certo e o rapaz engoliu, mas o mesmo completou:
"Claro que teve toda a enrolação antes e depois dessa semana, mas eu sei como é! Não precisa encanar!"
"Não! O que é isso? Só estava curioso."
Espanto! Foi o que ele sentiu. Em pensamento, ele pulou do sofá. "Como assim? Ela contou tudo?" e enquanto ele ia pensando, o namorado ia dando detalhes da relação passada deles. Tudo que ele fez, a enrolação, as traições, as crises emocionais, as brigas sem motivo, tudo! Bem que ela parecia estranha com ele. Teria superado de vez? De vez mesmo?
Ninguém supera assim de repente. Não aquela garotinha chorosa do dia em que terminaram. 
"Ela diz que você foi o "rito de passagem" dela." o namorado disse dando um gole de sua bebida.
"Ah é?" disse ele se arrependendo de demonstrar interesse.
"É! E eu devo te agradecer. Eu conhecia ela antes de vocês se conhecerem e ela amadureceu bastante. Sabe o que quer da vida. Botou os pés no chão, entende?"
"Sim! Eu sei." ficou com preguiça de discordar. Essa história de amadurecer. Ele não acreditava nisso. Via a vida em várias etapas, umas vão e voltam, mas sempre que lidamos com uma coisa diferente, somos tão infantis quanto nas situações anteriores. Uns vão dizer que são essas situações que fazem a gente amadurecer, mas ele preferia manter seu ponto de vista. As pessoas podem até se conhecer melhor, escolher os caminhos que darão mais prazer, mas quando a coisa é pra valer, não existem escolhas racionais. Essas geralmente acabam numa mesa com um contrato e um advogado de cada lado dizendo quem fica com o quê.
"Ela disse hoje no telefone "talvez o "rito" vem hoje na festa, tudo bem?" e eu achei engraçado porque ela acha que eu posso demonstrar algum tipo de ciúmes." ele comentou.
Aquele cara falando o irritava. "O "rito"?" pensava ele. Como assim? Ela podia ser ao menos mais poética! E que história era essa de contar tudo pra esse outro cara? Com certeza um amigo do colégio que sempre ficou no pé dela e resolveu se aproveitar de um momento de fragilidade.
"Reduzido a um processo de amadurecimento! Só me faltava essa!" ele pensou.
"Mas no final, você parece um cara bem legal" disse o namorado.
"Ah! Obrigado! Você também..." disse educadamente.
Por mais que quisesse conversar a sós com ela, dizer o que passava na cabeça e até brigar com ela, nada disso aconteceu.
"O que você quer? Eu já te superei!" ela diria.
"Eu sei, mas precisava contar tudo para aquele cara?" ele diria.
"Não tenho segredos com ele e ele me entende, diferente de você!" ela argumentaria.
"Sim claro! Ele e todos os seus pés amadurecidos no chão." ele zombaria.
"Qual é o tamanho do seu ego? Me deixa em paz!" e ela sairia.
Como ele estava ruim de adivinhações naquela noite, resolveu não arriscar. O namorado dela também não deixava ela sozinha nem por um segundo.
"Sufocante." pensou. Ou seria ela que não deixava o namorado respirar?
"Sufocante." pensou novamente.
Talvez ela tivesse razão. Uma vez dissera que seu ego era muito inflado e precisava ser massageado constantemente, mas para isso ele insistia nos erros e acabava machucando quem o cercava. Ela, avaliara, fora uma dessas pessoas que saíram machucadas. Decidiu ir embora. Antes, trocou alguns contatos com a amiga, mas não sabia se valia a pena manter contato. Talvez ele dera muita importância a tudo isso. Tinha esquecido que ela também chorava quando via o último capítulo das novelas.
Mas seu ego não saiu ferido daquela festa, afinal, havia virado uma passagem, um divisor de águas, alguém na vida de outra pessoa. Um marco.
Mais um na vida que, segundo ele, encontramos toda hora, mas que apesar de lutarmos desesperadamente contra a corrente, somos puxados para o centro do redemoinho ficando sempre rendidos por sentimentos inexplicáveis.

Ouvindo "So Sorry" por Feist.