quinta-feira, 27 de maio de 2010

O leão nosso de cada dia... [2]


Os dias estão foda e cada dia é um leão que tenhod e enfrentar no poço.
Não está ruim, não reclamo, mas são tantos planos, tantas ideias, mas muitas âncoras.
Muita falta de coragem...

Ouvindo "Wild Is The Wind" na versão da Cat Power de cortar os pulsos.

Um abraço

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domingo, 9 de maio de 2010

Vagando pela minha mente

Amadeus acordou naquele dia sentindo que havia alguma coisa estranha. Teve um sonho estranho.
Tomava seu café pensando nisso, beijou a esposa em despedida, pegou o ônibus e chegou no trabalho pensando nisso. Não sabia com quem comentar, mas não aguentaria por muito tempo.
Amadeus era um homem comum, com uma casa comum, um trabalho comum, uma família comum, mulher, dois filhos, um cachorro, TV a cabo, faxineira toda semana, ouvia música clássica, tomava cerveja e jogava futebol com os amigos, não tinha grandes problemas com a vida e adorava resolver pequenas coisinhas que ficam atravancando nossas vidas. Pagar contas, arrumar a fechadura da casa, juntar aqueles fios do computador, arranjar um calço para sua escrivaninha, reunião com o chefe, reunião na escola dos filhos, ligar para a gerente do banco para resolver aquele débito pequeno, porém mensal e indevido, essas coisas. Por mais que soubesse que quanto mais resolvesse esses problemas, mais eles apareceriam, Amadeus continuava a resolvê-los e secretamente confessava a si mesmo em seus momentos de introspecção (geralmente no ônibus ou antes de dormir) que na realidade gostava de resolver essas coisinhas. Era como se ele ocupasse sua mente com coisas pequenas para não precisar se preocupar com as coisas muito grandes que ao tentar concluir e decifras, sentiria-se mais frustrado e deprimido.
Amadeus estava em crise e muito disso foi por conta do sonho que tivera naquela noite.
Você deve estar se perguntando como eu sei tanto sobre Amadeus e a resposta é simples: eu o criei. O problema é que me parece que ele agora está começando a perceber.
"Foi um sonho estranho, estou dizendo." disse ele ao seu amigo no telefone.
"Como assim, Amadeus? Foi só um sonho! Eu tenho esses sonhos malucos o tempo todo." tranquilizou o amigo.
"Mas dessa vez foi sério! Acordei com isso na cabeça. Era muito real, apesar de só comprovar a ficção." explicou Amadeus.
"Que ficção, Amadeus? A vida é isso que vivemos agora. Você é tão real quanto essa loura que está passando na frente da minha sala agora." ironizou.
"Fique ai com suas louras então! Ela também não é real! Você também não é! Eu não sou! Caramba, cara! Isso é terrível! Ele deve estar ouvindo tudo isso agora." apavorou-se Amadeus.
"Meu amigo, você precisa de umas férias! Te ligo mais tarde! Abraços!" e desligou.
Amadeus desligou e ficou sentado em sua mesa olhando fixamente para o telefone esperando que ele tocasse. Esperando que fosse alguém que acreditasse nele. Esperando que fosse eu. E o telefone tocou.
"Alô, é você?" perguntou. Mas não era eu.
"Amor, tudo bem? Você parecia estranho quando saiu de casa! Aconteceu alguma coisa?" era sua mulher.
"Está... tudo bem..." disse decepcionado.
Deixe-me contar meu sonho, que foi também o de Amadeus. Eu estava tranquilo vagando pela minha imaginação enquanto dormia quando encontrei Amadeus. Ele se assustou e perguntou quem eu era. Eu logo disse que ele era mero fruto da minha imaginação e não precisava se preocupar. Ele não gostou quando disse isso e replicou dizendo que eu é que era fruto da imaginação dele. Eu ri, mas deixei que ele acreditasse. Acordei logo depois e ele ficou ainda vagando pela minha mente até que essa história começasse e eu pudesse enfim acordá-lo. O problema é que ele acordou com isso na cabeça e não me deixou em paz desde então. Que fique claro que uma história não começa quando as letras são batidas e sim muito antes. Há coisas que precedem e sucedem alguns personagens. É como se eles existissem eternamente e só presenciássemos alguns momentos de suas breves vidas.
Amadeus desligou o telefone depois de uma briga com a mulher. Ela também não acreditou nele.
"Ele disse que eu era fruto da imaginação dele e que você também e tudo que eu conheço!" ele tinha dito.
"Deixe de ser maluco, Amadeus! Nós temos uma história! Um álbum de casamento! Contas no banco! Tudo! Nós somos reais!" ela retrucava.
"Somos sim... Na cabeça dele! Como se ele fosse Deus!" ele dizia em tom de mistério.
"E desde quando você acredita em Deus?" ela perguntou e ele ficou mudo.
Depois de mais alguns argumentos falhos, sua mulher desligou o telefone.
Resolvi fazer contato. O telefone tocou. Ele demorou um pouco para atender, mas foi em frente.
"A-alô?" gaguejou.
"Amadeus?" eu disse.
"Sim?" disse ele.
"Sou eu!" eu disse.
"Você? Eu sabia! Eu sabia! Meu Deus! Isso é terrível! Como assim? Porque ninguém acredita em mim?"
"Porque eu não quero que eles acreditem, Amadeus! É o conflito que seu personagem deve ter na história." eu expliquei.
"Que história? Eu tenho minha história! As coisas vão acontecendo." dizia ele apavorado.
"Eu sei, Amadeus! Sua história era comum e nem valia a pena um conto, mas pensei que poderia falar do homem moderno e seus dilemas, mas você atrapalhou tudo me encontrando naquele sonho. Agora fica cheio de dúvidas dificultando o desenrolar da sua história." eu tentava explicar.
"Isso não pode ser possível!"ele dizia inconformado e continuou "Mas e se...?"
"Eu já sei o que você vai dizer! E se eu também não sou mera criação de uma mente superior?"
"É! Isso mesmo..." ele disse todo orgulhoso.
"Estou bem ciente de quem sou, Amadeus! Tão ciente que posso criar outras consciências." eu disse.
"Até ai eu também posso e estou muito ciente da minha existência..."
Devo confessar que Amadeus me pegou de surpresa apesar de já ter pensado nisso. Ele, ou eu, dependendo do ponto de vista, tinha razão. Pretensão a nossa de nos acharmos criadores.
Nunca mais encontrei Amadeus em meus sonhos, materializado ali, bem parecido comigo só que um pouco mais velho e magro. Foi uma experiência e tanto, mas eu preferiria não estar na pele do meu caro Amadeus.
Isso se já não estiver.























Ouvindo a introdução de "Requiem" obra inacabada do Mozart.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Mais um desses pacotes

Hoje, numa conversa descontraída com meus alunos, devíamos estar discutindo os gêneros e percebi que muitos deles, meninos e meninas entre 13 e 16 anos colecionavam o álbum da Copa. Muitos indagavam o motivo de eu não ter comprado o meu ainda e educadamente, sem parecer arrogante e chato pois contra o álbum da Copa nada tenho, disse que não tinha tempo pra essas coisas. Alguns até ofereceram me comprar um álbum e doar as figurinhas repetidas que sobraram depois de tantos pacotes comprados, mas eu recusei. O fato é que num determinado momento da conversa algum aluno citou um filme de herói revelando as mais óbvias caras de desinteresse das meninas. "Vai me dizer que de "Guerras nas Estrelas" você não gosta?" perguntei para uma delas. Sem pestanejar, a mocinha sacudiu os louros cabelos e como que já pensando no outro assunto, soltou "Não tive a oportunidade de assistir a todos os filmes..."
"Mas quantos são?" alguém perguntou.
"Deve ser uns 6..." falaram.
Fiquei com isso na cabeça e dentre tantas coisas mais importantes para tergiversar, só isso me ocorria na volta pra casa. Percebi que aquele Guerra nas Estrelas que meu pai me ensinou a gostar não é mais esse tal de Star Wars. E não porque os filmes ficaram ruins ou qualquer coisa estética, mas sim porque o meu Guerra nas Estrelas virou mais um desses pacotes que a gente vê tudo de uma vez, tipo essas séries em que a galera é fissurada, tanto de livros quanto da TV. Pacotões em massa feitos sob medida para o entretenimento de massa. E eu me senti mais um desses jovens chatos querendo se passar por velho falando de todas as coisas velhas que gosta e desprezando tudo que é feito em massa. O mais engraçado foi que minha aluna não me olhou com cara de desprezo como se eu estivesse falando de uma coisa empoeirada que ninguém mais gosta. Ela só disse que ainda preferia Crepúsculo, mas que um dia... Quem sabe?
Devo dizer que fico impresisonado quando apresento certas coisas e os adolescentes parecem mais interessados que os adultos que quando veem na tela um filme em preto e branco já reclamam "Lá vem o Cayo com suas velharias... Por que ele não põe um clipe animado?"
Será que é medo de ficar mais velho? Coisa que os adolescentes não tem.
Quanta besteira! Preciso estudar mais e me preocupar menos com idiotices...

Só isso por hoje!

Boa noite!

Ouvindo "Couleur Cafe" com Serge Gainsbourg