quinta-feira, 22 de julho de 2010

Liniers: Coisas que te passam se está vivo

Ano passado, acho que passeando pelo blog do Adão ou do Laerte, encontrei o link de um cartunista argentino chamado Ricardo Liniers. Comecei e ler suas tiras e me surpreendi com a leveza e inteligência das tais.
Sempre gostei de quadrinhos! Quando era pequeno, minha mãe me comprava os do Senninha e os da Turma da Mônica eu lia do meu amigo que assinava ou só ganhava os almanacões de férias porque íamos viajar e minha mãe precisava ocupar minha cabeça com alguma coisa para que eu não ficasse perguntando o tempo todo sobre as coisas da vida. O problema do almanacão é que os quadros das histórias eram também agigantados e eu ficava puto com as muitas páginas de passatempo que tinham. Eu lá queria saber de passatempo, seu Maurício? Eu queria as histórias em quadrinhos, do tamanho normal mesmo, só que naquele livrão.
Uma pena! Eu acabava tudo em um dia e ficava perguntando aos meus pais o motivo das coisas, inclusive o porquê daquele almanacão ser tão caro e grande e não condizer com as expectativas. Não com essas palavras, é claro, mas eu lembro de pensar sobre isso.
Dai eu fui crescendo.
Quando tinha doze anos, fui tirar meu primeiro RG e lá no Poupatempo da Sé tinha uma gibiteca para a galera ficar lendo gibis enquanto esperava pelos documentos. Estava com minha irmã e ao invés de ela me trazer um da mônica ou do próprio Senninha, ela me trouxe um do Star Wars. Eu achei um máximo! Li os quatro volumes que tinham lá e ficava me perguntando por que não fizeram filmes daquela história.
No colégio, um amigo me emprestou o V de Vingança! Acho que o filme estava para estrear e eu fiquei fascinado pelo fato de como boas histórias (sérias e adultas) podiam ser contadas através dos quadrinhos.
Dai fui atrás de outras histórias, sem nunca esquecer as tiras do jornal todas as manhãs.
E no começo desse ano, dou de cara na Folha com ninguém menos que o Liniers, aquele cartunista argentino do começo do post! Primeiro achei que suas tiras só iriam aparecer aos sábados ou domingos, mas não! Lá estava ele todos os dias! Fiquei feliz da vida, pois agora não precisva me desdobrar no espanhol para entender as piadas.
As tiras publicadas são da série Macanudo que fala sobre tudo de um jeito sutil e comovente. Por vezes ácido, cheio de humor negro e às vezes tiras que fazem a gente pensar na vida.
Nem sempre é preciso uma grande história para se passar uma boa mensagem. Bastam três ou quatro quadrinhos e um pouco de tinta. Por isso vou me matricular em algum curso de desenho e dedicar minha vida inteiramente aos quadrinhos!
Ok, nem tanto! Mas vou tentar uns rabiscos por ai...

Acho que é isso por hoje!

Ouvindo Beatles com "She's Leaving Home"

PS: As tiras do Liniers são originalmente publicadas no La Nación! Já saíram em português dois volumes da tiras Macanudo aqui no Brasil! Tento ler uma página por dia, mas é impossível! Sempre acabo em uma semana! Esperando os próximos volumes...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Coisa de menina

Estavam as duas amigas num bar bebendo suco. Conversavam sobre tudo. Uma era mais velha e passava a falsa impressão de experiência, mas a mais nova sabia que tudo não passava de máscara. Ela mesmo preferia ser como era: sem máscaras, sincera e por vezes até inocente.
"Inocente até demais!" falava a amiga mais velha.
"O que eu posso fazer? Eu sou assim..." ela respondia.
"Deus do céu! Você precisa falar tudo parecendo que está choramingando?" reclamou a mais velha.
"Ah... Eu sou assim..." choramingou.
"Não é à tôa que você é cheia de problemas com homens."
"Eu não sou cheia de problemas. Tive alguns aqui, outros ali, mas nada grave."
"O quê? Um namoro de anos vai por água abaixo por causa de um latin lover qualquer e você diz que isso não é grave?" protestou a mais velha.
"Bem..." ponderou a mais nova.
"E depois que você largou tudo por causa dele, ele vem com um papinho de que tem muito amor pra dar e que só você não seria suficiente! Por favor!"
"Ele pelo menos foi sincero!" argumentou.
"Ele foi um cachorro! Isso que ele foi!"
"Ah... Tudo bem, mas pelo menos agora eu me sinto mais livre. Eu estava pra casar, lembra? E não estava feliz... Você já foi casada! Sabe como é..."
A mais velha deu um gole do suco "É... Pelo menos você se livrou dessa..."
As duas riram.
A mesa tremeu acusando o celular de uma das duas que recebia uma mensagem.
"É o meu!" disse a mais nova "É ele!"
"O rapaz do cinema?" interessou-se a mais velha.
"É..." leu a mensagem "Está perguntando se estou livre!"
"Como um passarinho! Vá lá, eu vou encontrar as meninas..." disse pegando a bolsa pronta para pagar a conta.
"Eu não sei..." ponderou a mais nova "Não sei se quero..."
"Não sabe se quer? Como assim? Você falou coisas ótimas dele! De como beija bem, é simpático, inteligente, seguro e tudo mais!"
"Sim! Ele é tudo isso, mas não sei! Falta algo..." ela hesitou, pensou no que dizia e soltou ainda comedida "Tipo... Sei lá! Eu achei que ele fosse diferente, mas de uma hora para outra ele fica desesperado querendo me ver, como se... Você entende..."
"Como se quisesse ir pra cama como você a todo custo?" completou sabiamente a mais velha.
"Isso! Isso mesmo..." disse a mais nova animada "E sei lá! Não quero ficar com o cara só por isso... E também não achei que ele fosse querer tão cedo! Parece coisa de macho! Pegar a fêmea a qualquer custo e depois largar num canto, sabe?"
"Eu sei! Sei bem... Que mulher não sabe?" disse a mais velha que depois continuou "Mas você não pode esperar de um homem nada mais que um homem."
"Continue..." pediu a mais nova intrigada.
"Ele pode ser o cara mais amável do mundo, mas não vai deixar de querer transar com você só porque te sugeriu um ou dois livros pra ler ou uma ou outra canção pra ouvir!"
"Eu sei..." disse a mais nova pensativa "Mas eu prefiro que as coisas aconteçam mais suavemente! Não porque tem de acontecer, sabe? Só porque ficamos umas vezes, agora vem a vez do sexo! Você sabe como sou pra essas coisas! Gosto de ser tratada com carinho, de receber elogios, de continuar abraçada no outro dia..."
"Desse jeito você nunca vai conseguir transar com ninguém!" brincou a mais velha.
"Não seja boba!" reclamou choramingando.
"Lá vem você choramingar!" prostestou "Converse com ele! Se ele for tudo isso que você está falando mesmo, vai entender! E vai se segurar... O termômetro é o humor! Se ele ficar puto demais, é porque está se sentindo rejeitado, então não vale a pena! Esse precisa de um papinho com nosso amigo Édipo! Devia ter uma mãe que não negava nada."
"Humor! Freud! Tá legal, vai falando..." interessou-se.
"Eu devia escrever um livro sobre isso." vangloriou-se a mais velha e continuou enquanto a mais nova olhava interessada "Agora se ele ficar muito calmo! Extrema e estranhamente calmo e disser que prefere não te ver mais é porque ele está bancando o difícil! Não precisa cair no joguinho dele! Se você disser que prefere assim, ele pode ficar puto e dai voltamos para o primeiro caso! Se continuar calmo, tudo bem! Ele não vai te encher por uns dias, mas depois vai ligar chamando pra sair! Se estiver afim, vai fundo, mas você sabe muito bem o que ele vai propor depois da saidinha."
"É eu imagino!" disse a mais nova anotando mentalmente
"Cuidado com esses muito calmos também! São esses que aparecem no noticiário de vez em quando!" alertou a mais velha.
"Ok, entendi! Não creio que ele seja um psicopata, mas é bom ficar alerta."
"Sempre bom!" reforçou.
"Mas... E se nenhuma dessas duas coisas acontecer? E se ele for naturalmente compreensivo? E se for sincero?"
"Bem... Vai de você perceber! O cara ficar puto não é falta de sinceridade."
"É... Tem razão!"
Ela olhou para o celular, as pessoas em volta, a amiga mais velha que tão conhecedora dos homens, sempre tinha tantos problemas com eles.
"Vou responder deixando pruma próxima! Ele vai entender..."
"Assim esperamos..." disse a mais velha "Meu suco acabou! O seu também, vou te pagar uma cerveja!"
E ficaram mais um tempo no bar conversando.

Ouvindo "Difícil" com nossa querida Marina Lima que tanta gente injustamente desgosta.

Continua em "Coisa de menino"

terça-feira, 13 de julho de 2010

O monstro

Eles estavam voltando duma festa. Ele dirigindo e ela com aquele sorriso de canto que o irritava. Só se ouvia o barulho do motor e dos carros lá fora, mas foi ele quem quebrou o silêncio.
"Parece que você gostou da festa, não?"
Ela saiu do transe que mantinha o canto dos seus lábios levemente levantados.
"Gostei sim, você não?"
"Não gostei daquele cara flertando com você o tempo todo! Parecia que eu nem estava lá..."
"Não seja bobo! Ele é meu amigo, você sabe!" ela rebateu.
"Amigos não despem as pessoas com os olhos..." reclamou ele sem tirar os olhos do caminho. Preferia discutir enquanto fazia alguma coisa
"É... Talvez ele estivesse flertando comigo mesmo." ela cogitou.
"Então você admite?" ele se espantou.
"O que você quer que eu faça? Ele até disse umas coisas bonitas... Falou do meu cabelo, do meu vestido..." o sorriso dela ia voltando e ele se irritava "Coisa que faz tempo você não faz..."
O silêncio voltara. Ele pensava na melhor resposta, mas ela se adiantou.
"Não pense que eu não vi você conversando com aquela garota na cozinha!"
"O quê? Eu só a ajudei com umas caixas de cerveja e só! Você sempre querendo nos deixar quites!"
"Por favor! Pode me ajudar com essas caixas? Elas são muito pesadas e você é um cara tão simpático, pode me ajudar?" ela fazia uma voz irritante.
"É! E foi só isso!" ele argumentou.
"E depois tomou uma cerveja com ela! Cheio de risinhos." ela rebateu.
"É mesmo? Em que momento você percebeu isso? Na hora em que o cara despretensiosamente encostava na sua mão ou quando ele mentalmente baixava uma alça do seu vestido?" ele se irritou. Olhos na estrada.
"Não seja ridículo! Vocês ficaram um tempão na cozinha! Cheios de risadinhas..."
"Conversamos mesmo! Ela era simpática! Estuda cinema, gosta de comida japonesa..."
"É inteligente, mas nem tanto! Insegura e indefesa! Do jeito que você adora!" ela quase o nocaoteou.
"Você sabe que isso não é verdade!" ele respondeu.
"Não? Você adora esse tipo de garota!" ela começou a imitar "Olá, rapaz simpático e inteligente, poderia me ajudar com essas caixas? Eu estou tão insegura! Não sei se conseguirei colocá-las no freezer! Será que isso tem a ver com mina vida amorosa! Você bem que poderia me ajudar nessa também, não?"
O silêncio. Ele não podia sair perdendo dessa discussão e para ganhar deveria admitir algumas coisas.
"Não foi assim com você!" ele arriscou.
"Não foi exatamente! Eu só fingi insegurança para te atrair, mas depois você já estava na minha!"
Ele não sabia onde aquilo iria chegar, mas sabia que não acabaria bem. Quanto mais ele falava, mais se afundava. Como ela podia ser tão cruel? Ele achava que era dos maus, mas aquela mulher do seu lado. Aquilo era um monstro. Um monstro que não parava de falar e a cada palavra dela, ele se sentia pior.
"Você acolhe essas garotas nos braços, mas logo se cansa, porque acha uma mais insegura e mais indefesa..."
Aquilo não fazia sentido para ele. Porque estaria com ela, então?
"Você só está comigo até agora porque eu fui diferente!"
Um monstro ela era.
"Sempre te surpreendo!"
Dos grandes.
"Agora mesmo você fica com essa cara de besta! Maz que eu acho encantadora..."
Cruel e faminto. Devorador de homens.
"Mas não se preocupe! Não vou te trocar por qualquer um! Você ainda me passa segurança!"
Um monstro frio e calculista. Ciente da situação.
"Por isso não ligo muito de você trocar flertes com essas menininhas. Isso o deixa mais seguro e quando elas retribuem, faz bem para seu ego! E eu não quero um namorado com baixa auto-estima, não é?"
Um monstro que estava certo.
O carro parou no estacionamento do prédio. Ele mudo. Ela passou a mão no rosto dele.
"Não fique assim! Te assusta eu estar tão certa, eu sei... Mas você já deveria estar acostumado! Vou te preparar algo pra comer, tudo bem?" e saiu do carro.
Ele ficou lá parado. Pensando.
Talvez seu ego inflado o tenha cegado de certas coisas. Como podia ser tão burro?
Nessa noite, Dr. Jekyll iria dormir com Sr. Hyde.