domingo, 31 de outubro de 2010

Quando um não quer...

Da série "Saco-cheio"

Episódio décimo.

Ao telefone.
Ela: Não sei se vai dar pra nos vermos essa noite.
Ele: Por que não, meu anjo?
Ela: Vou sair com minhas amigas.
Ele: Ah! Não tem problema!
Ela: Que bom!
Ele: Vou sair com as minhas também...

Ouvindo Louis com "Someday (You'll Be Sorry)"

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Quando qualquer coisa vira motivo...

  
Não estava afim de entrar no "debate", mas estava com saudades de desenhar e nada melhor que as eleições como pretexto.
Aliás, tirem as crianças da sala, o próximo debate será na Record no dia 25/10 (segunda-feira) às 23h.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Nem sempre

Tinham ido numa festa. Eram colegas de internet. Um amigo em comum, troca de contatos, e voilá, os dois marcaram de se encontrar numa festa da faculdade. Já fazia tempo que conversavam pelo mundo virtual e dificilmente se viam na vida real. A festa foi a deixa.
Beberam, conversaram, cada um viu os amigos do outro, curtiram o show da banda e num momento discreto, ele a ofereceu um gole da sua cerveja, ela bebeu, os dois se entreolharam e o inevitável aconteceu.
Beijaram-se por um bom tempo. A noite inteira ao que parece. No final, um casal de amigos dela deu uma carona para ele. No banco de trás, ele insistia para que ela dormisse em sua casa, mas ela dizia que ficaria na casa da amiga. 
Encontraram-se uma semana depois na faculdade. Eram de cursos diferentes, mas se cruzaram naquele dia. Ela com um vestido preto desenhado pelo anjo divino da tentação. Conversaram bastante e não tocaram no assunto da festa. Nem sequer se beijaram. Despediram-se e foi cada um para um lado.
E não mais se viram.

Ouvindo "Never There" com Cake.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sobre sonhos e máscaras

Saiu do elevador e não percebeu a faixa de proteção da polícia num canto do andar. Estava atrasado e foi direto para seu computador sem ver a mancha de sangue na parede. Sentou-se à mesa, ligou o computador e ficou olhando seu reflexo na tela enquanto a máquina fazia seus habituais ronronares de um novo dia. Arrumou um pouco o cabelo, encostou na poltrona e viu um recado deixado por ele mesmo ao lado da tela. Levantou de um susto com aquele sentimento que temos quando lembramos de fazer uma coisa, mas já é muito tarde e não há meios de voltar atrás.
"Jantar quinta com ela às 8h!" dizia o bilhete.
"Cacete!" ele pensou. Era sexta!
Pegou o telefone e tentou disfarçar a voz de desespero com uma tranquilidade que o surpreendeu dado o desespero vindo do outro lado.
"Você me deu um baita susto!" ela dizia quase chorando.
"Desculpe!" não pensou que ela ficaria tão abalada.
"Não aparece ontem e de repente essas notícias na TV! E seu celular desligado!" ela continuava.
O celular! Sempre esquecia de carregar a bateria. Deixava para fazer no trabalho, porém nesse dia esquecera o tal do carregador.
"Desculpe de novo! Ontem foi uma loucura aqui e... Você disse notícias?"
"É... Está em todos os canais! Sua empresa, a polícia, o funcionário, tudo!" ela demosntrava mais calma.
Ele olhou em volta e percebeu a movimentação atípica. Tudo bem que era sexta-feira, podia ir trabalhar de jeans e camiseta, mas entre roupas leves e uma mancha de sangue na parede há uma grande distância.
"Posso te ligar mais tarde?" ele disse e desligou sem nem esperar ela responder.
Estava atônito. Via a mancha na parede, a faixa policial, algumas funcionárias chorando, outros as consolando, policiais interrogando algumas pessoas.
Sem tirar os olhos da mancha rubra espirrada na parede, foi andando até a máquina de café onde um grupo de pessoas se reuniam. Encontrou um colega, ou pelo menos parecia.
"Afinal, o que aconteceu?" ele perguntou para um funcionário mais velho de bigode.
"Ué? Não sabe? O Almeida!" disse o homem de bigode.
"O Almeida do Planejamento?" espantou-se.
"Pois é..." disse o bigodudo com ares de quem sabia mais que todo mundo.
Não gostava de não saber o que se passava. O Almeida era um cara comum. Sempre o via passando pelos corredores entre as baias. Sempre correndo e sempre tomando bronca do chefe, mas parecia um cara legal. Conversaram por uma ou duas vezes junto à máquina de café e até simpatizara com o Almeida. Era daquelas pessoas com a qual você vira melhor amigo num dia e no outro você descobre que todo o assunto que vocês tinham se resumiu àquele café. Fato muito comum em relacionamentos que acreditam na sobrevivência eterna, mas duram algumas semanas apenas rendendo-se a frases manjadas de poetas e músicos, porém guardados com carinho (ou ódio) no interior. O Almeida era um exemplo de alguém que ficara em sua lembrança com aquele ar de "que cara bacana esse Almeida!"
"Entrou aqui" continuou o homem de bigode que começava a soar irritante, mas parecia o único disposto a falar o que tinha acontecido "engatilhou uma arma e começou a atirar!"
"Deus do céu!" ele dizia realmente espantado. Pela primeira vez, aquelas coisas que ele via no noticiário passavam tão perto.
"Alguém...? Bem, você sabe!" perguntou cautelosamente.
"Meu rapaz, aquilo ali parece molho de tomate para você?" apontou para a mancha que ele já havia parado de olhar já tinha um tempo.
"Meu Deus..." disse sem acreditar.
"Ele acertou umas pessoas de raspão. A Marta do RH, o Flávio das Cotações, mas quem se deu mal mesmo foi o Braga!" contava com a maior naturalidade enquanto mexia no café com uma palhetinha de plástico.
"O chefe do Almeida?" perguntou.
"Você teve sorte de não ver o corpo!" disse dando um gole do café e voltando a mexer na palhetinha.
"Minha nossa... Isso é horrível!" dizia se sentindo mal e quase implorando para que o bigodudo parasse com aquele pedaço de plástico.
"Você deu sorte de chegar atrasado!" disse.
Como ele sabia que estava atrasado?
"Não viu o corpo! Essa obra contemporânea na parede ai é obra do Braga!" dizia aquele bigode irritante.
Voltou chocado para seu cubículo. Não queria mais ouvir. Pelo menos não daquele homem.
Sentou na frente do computador e entrou no primeiro portal de notícias que pensou. A manchete num canto da página "Funcionário de empresa mata um, fere dois e depois se mata"
Parecia que o Almeida havia se jogado da janela, explicando o trânsito infernal nos arredores. Pegou o telefone.
"Oi!" ele disse.
"Você tá maluco? Desliga sem avisar! Pensei que tivesse outro louco ai dentro!" ela dizia, mais nervosa do que desesperada.
"Estou bem, mas só fiquei sabendo agora! Cheguei atrasado!" ele disse.
"Sorte a sua! Você está bem? Algum amigo seu? Você conhecia o..." ela não sabia o nome.
"O Braga... Não... Só de cumprimentar..." ele refletiu e pensou se realmente conhecia alguém naquela empresa. Pessoas rasas, com objetivos tão pequenos e aceitando tudo como era. Divertindo-se com qualquer coisa que mudasse a rotina de suas vidas, nem que pra isso fossem necessários dois corpos e uma obra inspirada em Jackson Pollock na parede.
"O Almeida..." ele disse.
"O louco?" ela interrompeu.
"Bem... O Almeida... Era um cara legal." pensou nas conversas que haviam tido no café.
"Um dia vou sair daqui! Pegar um barco e viajar pela costa do país! Você deveria fazer o mesmo!" dizia um Almeida sonhador.
"Não gosto de velejar..." dizia ele que na verdade achava que estibordo, comissário de bordo e um patinho de borracha faziam parte do mesmo grupo de objetos.
"O segredo é ter um projeto paralelo disso aqui!" o Almeida continuava "Ir fazendo! Se não a gente elouquece!" e voltava para a sala do Braga onde tomaria outra bronca.
Pensou nos olhos tristes do colega e suas palavras que martelavam em sua cabeça.
"Ele era um cara legal..." dizia com a voz já embargada.
"Está tudo bem? Não sabia que vocês eram amigos! Desculpe..." ela dizia do outro lado sem entender muito bem.
"Tudo bem..." ele se continha "Não éramos muito íntimos...Vamos almoçar hoje? Estou te devendo!" ele precisava de pessoas.
"Sim, claro! Hoje tem aquela macarronada com frango que você gosta no restaurante perto do museu!" ela dizia contente.
"Não sei... Acho que prefiro ir no vegetariano hoje..."

Ouvindo "Under Pressure" com Queen e David Bowie.


PS: Recomendo o filme "Foi Apenas Um Sonho" do Sam Mendes.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cardiopatia

Da série "Saco-cheio"

No cardiologista.
Ele: Mas doutora, é uma dor que é no fundo.
Ela (doutora): Não é nada! O exame pelo menos não acusou nada.
Ele: Nem um soprinho, doutora?
Ela: Nada! Seu coração está ótimo!
Ele (cabisbaixo): Mas dói mesmo assim... Muito!
Ela: O seu problema não é no coração, você sabe!
Ele: Preferia que fôsse... Assim não sofria tanto!
Ela: Você tem é que esquecer essa uma que aperta seu coração...
Ele: Se fôsse uma só eu tirava de letra, doutora!

Ouvindo "Just Ain't Gonna Work Out" com Mayer Hawthorne, 
que é muito bom aliás!



Abraços,