segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012: Um ano em fotos

Doze fotos que dizem mais que mil palavras sobre esse ano em que visitei alguns cantinhos do mundo, me dei bem, me dei mal e por fim completei um quarto de século. Todas as fotos foram tiradas por mim com exceção da foto de Junho em que eu apareço junto de alguns dos meus queridos alunos.

Richmond, Janeiro, 2012

Washington, DC, Fevereiro, 2012
Nova York, Março, 2012
Richmond, Abril, 2012
São Francisco, Maio, 2012
Richmond, Junho, 2012
Berlim, Julho, 2012
Londres, Agosto, 2012
Paris, Setembro, 2012
São Paulo, Outubro, 2012
São Paulo, Novembro, 2012
São Paulo, Dezembro, 2012

 E o tal do mundo não se acabou. Muitas outras fotos descreveriam o ano e essas são só algumas. Há muitas outras espalhadas na minha página do Flickr e pelos facebooks da vida.

Feliz ano novo a todos e até o ano que vem!

Ouvindo The Strokes com "I'll Try Anything Once"

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dos jovens

Fomos apresentados por um amigo em comum. Estávamos todos num bar e quando eu vi aqueles olhos grandes e aqueles cabelos, eu quase perdi o meu fôlego. Dizem que a paixão bate sem aviso prévio. Chega descontrolada e nunca é igual à outra. Você já pode ter se apaixonado, mas com cada pessoa é diferente e foi assim com ela. Tentando não parecer um bobo, fiquei na minha, posando de calado, coisa que meus amigos estranharam, mas ela não porque pouco me conhecia.
"Você vai gostar dela, mas cuidado que acho que ela tem namorado." meu amigo disse.
"Besteira! Estou tranquilo." tinha falado uns dias antes de topar com aquele sorriso que me calou.
"Ela é mais velha também!" meu amigo continuou.
"Já falei que não estou preocupado!" eu disse sem me dar conta do futuro que me aguardava.
Falamos pouco naquele dia e desconfio que não deixei impressão alguma. Coisa estranha, eu pensei, logo eu que sempre que caía nessa de amor logo racionalizava tudo para que a queda não fosse tão dura.
Ao final da noite, meu amigo veio "E ai? Gostou dela?"
"De quem? Sua amiga? É... Simpática!"
"Acho que ela gostou de você!" ele disse meio que brincando.
"Eu mal falei com ela!" retruquei.
"Ela pediu pra chamar você da próxima vez que sairmos!"
Dei um sorriso sem graça e brinquei que estava com sorte, mas por dentro era só palpitação.
Encontramo-nos de novo numa outra ocasião e ela veio sentar do meu lado. Falamos de muita coisa: Cinema, literatura, futebol, relacionamentos passados e até das tatuagens que eu nunca fiz e das dela que eram discretamente escondidas pela alça do vestido. No final da noite, quase todos já tinham ido embora, mas nós ficamos ali no canto como dois amigos que não se viam há muito tempo. Foi pouca ou quase nula a estratégia. Num momento a gente se olhou e sabíamos o que devíamos fazer.
E foi tudo tão puro e tão intenso, mas ainda éramos jovens.


Cena de "Blue Valentine" (2010)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Da destruição

Não foi por maldade nem por bondade. Foi só a vida que disse pra gente ir em frente. Não em frente no sentido evolutivo, mas em frente no sentido de qualquer lado, qualquer um, menos para o mesmo de que viemos. Não precisa haver avanço, mas o retrocesso é condenável. Que vá para o lado como um pequeno siri ou para frente como um faminto tubarão, mas nunca pra trás pois é lá que encontraremos a destruição causada por nós mesmos.
Aprender com os erros e procurar futilmente não mais cometê-los.
É mais ou menos assim que funciona a vida.

"Angelus Novus" de Paul Klee


Ouvindo "I Found A Reason" com Cat Power.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Quando as folhas caem

Lá estava eu esperando para ser entrevistado. Uma menina de uns seis anos estava sentada à minha frente.
"Duvido você adivinhar o meu nome!" ela me disse e antes que eu pedisse ela deu a dica:
"Começa com I."
"Iara!" mandei certeiro.
"Não!" ela respondeu rapidamente.
"Ingrid?" chutei.
"Nãããão!" disse zombando de mim.
"Não sei! Dá outra dica!" eu pedi impaciente.
"Começa com I e termina com A."
"Iracema, acertei?" eu disse sabendo que tinha errado.
"Não! É Isabela!" ela respondeu antes que eu tentasse mais.
"Ah! É mesmo..." e eu voltei a tamborilar os dedos no braço do sofá.
"E o seu nome?" ela perguntou.
"Caio." falei sem dar tempo para ela querer adivinhar.
"Tenho um amigo que se chama Caio..." ela disse pensativa.
"É um nome muito comum hoje em dia." eu expliquei.
Ela ficou me olhando meio que sem entender muito bem o que eu tinha dito e quebrou o silêncio:
"Vem da natureza, né?"
"O quê? O nome? Não sei..." eu disse.
"Claro que não! Menina doida!" pensei.
"Acho que sim! Veja bem, as folhas caem..." e ficou lá pensando.
"É... Pode ser..." eu disse em tom duvidoso.
"Vem da natureza sim! Olha! As folhas caem e elas vêm da natureza!" disse tomando seu argumento como fato.
Antes de ser chamado eu ainda tive tempo de responder à minha nova amiga:
"É! Com certeza!"
Respondi convicto, afinal, as folhas realmente caem.

Bebê na Leicester Square, Londres, 2012

Ouvindo "Tempo de Estio" do Caetano.

sábado, 20 de outubro de 2012

Sobre direção de fotografia, Walter Carvalho e algumas derrotas diárias...

Ontem fui ao Museu de Imagem e Som (MIS) e tive o prazer de presenciar o depoimento de Walter Carvalho sobre os filmes que marcaram sua vida. Ele é um dos grandes diretores de fotografia do Brasil, participando de filmes como "Central do Brasil", "Abril Despedaçado", "A Febre do Rato" entre muitos outros.
Ver aquele senhor de seus sessenta e cinco anos falando de suas referências numa humildade de amador foi uma experiência e tanto. A sala estava vazia, umas cinco pessoas no pequeno auditório mais os funcionários que foram convocados para dar corpo à plateia e outros funcionários que ficavam furiosos sempre que alguém decidia sentar no caminho da câmera que apontava para aquele senhor paraibano de óculos redondos que discorria sobre os filmes que mais lhe marcaram.
"Meu contato com o cinema foi pela pessoas, não pelo cinema em si." ele começava seu depoimento que num primeiro momento parecia não ser permitido que fizéssemos perguntas. 
"O primeiro filme que vi foi num livro." referindo-se ao clássico curta francês "Le ballon rouge" de 1956 que estava num livro que foi dado pelo seu irmão Vladimir Carvalho que já era cineasta.
Depois de contar seu contato com o Cinema Novo e de como foi entrando no ramo, ele soltou aquilo que eu mais esperava "Vocês não querem perguntar nada?" mas todo mundo ficou calado e ele seguiu com seu depoimento. "Merda! Devia ter perguntado alguma coisa, mas o quê?" pensei comigo.
Um cabeludinho finalmente perguntou alguma coisa e depois uma mulher também e quando o evento já ia se dando por encerrado ele perguntou "Mas vocês não querem saber mais nada?" como que querendo fazer valer a viagem do Rio até São Paulo, como que não querendo deixar aquele momento passar em vão. Foi dai que me prontifiquei e perguntei quem eram suas referências quando o assunto era direção de fotografia já que até ali ele só havia citado filmes e diretores. O velho deu um sorriso e começou a citar diretores japoneses e outros grandes nomes como Gordon Willis, diretor de fotografia de "O Poderoso Chefão" e seus ídolos máximos Sven Nykvist e Christopher Doyle que respectivamente fizeram a fotografia de "Gritos e Sussurros" de Bergman e "Amor à flor da pele" de Wong Kar-Wai, dois filmes que deixam qualquer amante de cinema num êxtase indescritível muito em conta, é claro, por sua fotografia. "Esses caras são o demônio!" disse.
Ele também contou de como foi quando conversou com Nykvist antes e depois de uma sessão de "Central do Brasil" na Macedônia e que após a exibição do filme eles conversavam como se fossem grandes amigos justamente por se entenderem no quesito fotografia. Ele então começou a discorrer sobre o que ele achava da fotografia em si alegando que ele gostava de fazer com que o objeto fotografado deixasse se sê-lo e se tornasse outra coisa, além daquilo. Falava tudo aquilo e me olhava como se soubesse que talvez fosse aquilo que eu precisasse ouvir naquela hora, como aquele político que olha nos seus olhos no horário político, aquela pessoa recitando aquele seu poema predileto ou aquela música que começa a tocar na hora certa. Ao final, fui cumprimentá-lo ao que ele devolveu com um sorriso, um aperto de mão e um "Eu que agradeço sua presença!" e fui pegar meu ônibus em direção ao Banco do Brasil que por algum motivo mantém minha conta bloqueada sem razão aparente. Perdi minha tarde no banco sem que o problema fosse resolvido e por conta disso não consegui enviar pelo correio uma série de fotos para um concurso que ia participar. De noite ainda fui para um curso de "retratos estranhos" que estou fazendo no Sesc aqui perto de casa, mas depois de ouvir os grandes, a gente sempre se sente um pouco mais pequeno, num bom sentido é claro.
Hora de revisitar os clássicos!

Uma das fotos da série que não consegui enviar

Um abraço e até breve!

Ouvindo a antiga "Love, Love, Love" do Caetano.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sobre futebol e a vida moderna


Uma vez em uma entrevista, o então técnico do Corinthians e agora técnico da seleção, Mano Menezes, disse uma coisa que ficou na minha cabeça por um tempo. Era uma desculpa esfarrapada para justificar as derrotas do Coringão que tinha acabado de ganhar o Paulistão e a Copa do Brasil, mas não ia lá mil maravilhas no Campeonato Brasileiro, culpa da desestruturação no time devido à janela de compra e venda de jogadores. A questão é que o comandante havia dito algo muito simples: "Quanto mais o time perde, mais próximo ele está da vitória!" e ainda completou que isso servia para o contrário e que nunca técnico e jogadores (e em consequência torcedores) deveriam se acostumar com uma série de vitórias já que a inevitável derrota poderia vir a qualquer momento. Era nessa mesma época em que o Palmeiras ia de vento em popa no campeonato, mas depois de uma bonanza mal aproveitada, começou a desperdiçar chances de vitória e acabou em quinto lugar ficando fora daquela fatídica Libertadores em que o Corinthians foi eliminado pelo Flamengo em pleno Pacaembu lotado. Quem me conhece sabe que futebol não é minha praia. Nunca foi, mas é sempre bom saber de uma ou outra coisa que se passa no meio futebolístico só pra não ficar de fora daquela conversa de bar ou daquele papo de elevador.
Fato é que as palavras do nosso grande técnico ainda ecoam na minha mente sempre que me deparo com problemas diversos na vida que parecem se canalizar num mesmo período. É comum ter um dia terrível e ainda chegar em casa e escorregar no banheiro ao sair do chuveiro ou levar um pé na bunda, perder o emprego e pegar um ônibus lotado tudo no mesmo dia. Gostamos de culpar o carma e dizer que o Universo conspira contra nós. Isso é comum e essa fase é sempre necessária: indignar-se com tudo e todos, mas depois usar os destroços para a reconstrução. Ora, nada mais certo que levantar do tombo, encará-lo com certa ironia e lembrar que se as derrotas são muitas é porque a vitória está para chegar, já diria nosso Mano.
Ilusão também achar que a vida é um campeonato de futebol e que tudo se resume a vitórias, derrotas e os rejeitados empates, mas não seria tão engraçado viver se não fossem as metáforas para nos ajudar  a entender (nem que seja um tiquinho) essa coisa toda da vida moderna que nos aflige.

Grande abraço e bom final de semana pra você!

PS: Um dos motivos que me fez escrever esse texto foi a tragédia acontecida na escola da minha amiga Stefanie que chegou para trabalhar num belo dia e encontrou o prédio em que trabalha consumido por um incêndio. Força, Teté!

Esperando - Berlim, 2012


Ouvindo Regina Spektor com "One More Time With Feeling"

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sobre memória

Era um dia ensolarado.
"Pai, como você e a mãe se conheceram?" perguntou enquanto caminhavam de volta do supermercado.
"Eu já não te contei?"
"Não!"
"Foi na época da faculdade... A gente morava perto um do outro."
"Só isso?"
"Não... A gente se encontrou numa locadora."
"Numa o quê?"
"Antigamente a gente alugava filmes, não via tudo pela internet."
"Mas a gente vê pela tevê."
"Sim! Que é ligada na internet." explicou o pai.
"É mesmo... Mas e a loucadora?"
"Locadora! Sem o U! Era onde a gente alugava filmes!"
"Não devia ser alugadora então?"
"Locar significa alugar!" explicou o pai.
"Entendi..." ele deu mais alguns passos, ajeitou as sacolas nas mãos e continuou "E ai?"
"Bom, um dia eu estava procurando um filme pra assistir..."
"Não tinha internet naquela época?" o filho interrompeu.
"Tinha, mas eu queria alugar o filme e não baixar."
"Você baixava filmes? Eu vi em algum lugar que isso é errado..."
"Na época não tinha problema."
"Sei... E porque você não baixava um filme ao invés de alugar?"
"Porque baixando na internet eu não tinha a chance de escolher entre várias opções na prateleira."
"Que estranho... É tão mais fácil ver pela internet da tevê."
"É, mas não tem o charme de escolher o filme, achar uma preciosidade, conversar com o atendente sobre filmes e futebol, essas coisas... Aquela era uma das últimas locadoras do bairro. Hoje tem um prédio no lugar. Eu te mostrei uma vez quando passamos por lá! É um prédio muito feio, todo cinza, lembra?"
"Não..." ele disse como se não tivesse prestado atenção na pergunta.
"Você é mesmo filho da sua mãe... Cuidado com o sinal!"
O garoto parou no braço do pai. Voltaram a andar e ele perguntou.
"Mas e ai?"
"E ai o quê?"
"Você e a mãe!"
"Ah! Sim! Um dia eu estava lá escolhendo um filme e eu vi essa menina simpática na seção de filmes clássicos."
"Filmes clá...?"
"Filmes antigos!" respondeu antes que o filho terminasse.
"Tipo "O Rei Leão"?"
"É, um pouco mais antigos. Tipo preto e branco. Tipo Charlie Chaplin, lembra que eu te mostrei?"
"Lembro! Tipo engraçado!"
"É... Também..." desistiu de tentar explicar "De qualquer maneira, ela estava lá e eu me aproximei e sugeri um filme francês que eu já tinha visto. Só pra parecer inteligente!"
"Você é bom em matemática?" o menino perguntou.
"Como assim?" o pai voltou do transe que se encontrava ao contar a história.
"Na escola tem um menino que é bom em matemática e a professora disse que ele é inteligente."
"Inteligência não se mede em números!"
"Como se mede então?"
"Não se mede!"
"E como você tentou parecer inteligente para a mãe na loucadora?"
"É locadora! E eu só estava tentando impressionar."
"E deu certo?"
"Não! Ela deu um sorriso sem graça, pegou o filme dela e foi embora."
"E o que você fez?"
"Nada..."
"Nada?"
"É! Peguei meu filme e fui embora pra casa."
"Você devia ter ido atrás dela!"
"Isso não dá certo!"
Já estavam perto do prédio.
"Você devia ter ido lá de novo! No mesmo horário, todos os dias até encontrar com ela de novo!"
"Como num filme?"
"É!" o filho respondeu categórico.
"Mas não fiz nada disso."
Passaram pela portaria.
"Pai..."
"O quê?"
"Eu perguntei pra mãe como vocês se conheceram..."
"E o que ela disse?"
"Ela disse que vocês conheciam as mesmas pessoas e se conheceram no aniversário de alguém."
"É..." entraram no elevador "Depois de um tempo eu a encontrei de novo! Eu descobri que a gente tinha muito amigos em comum. E dai a gente se conheceu de verdade e começou a namorar. Depois de um tempão você apareceu." o pai explicou.
"Por que ela não falou da lou... Da locadora?"
"Sua mãe não lembra de nada!" falou abrindo a porta do apartamento.
"Mãe, o pai falou que você é esquecida!" falou ao entrar correndo pelo apartamento.
"E eu tenho um filho dedo-duro!" falou para si mesmo enquanto fechava a porta.

**

Ouvindo The Strokes com "I'll Try Anything Once ('You Only Live Once Demo)"

sexta-feira, 20 de julho de 2012

"Hallo" da Alemanha

Se tem uma coisa que detesto fazer é planejar viagem. Você começa a ver o preço das coisas, a cotação do dólar, do euro, da gruta que caiu e o desânimo começa a bater. Dai você dá de cara com o mapa do metrô de Berlim e já repensa a sua viagem. Quantas camisetas vou levar na mala? Só vou levar as mais cool. Mas e se eu trombar com um neonazista na esquina e ele não gostar do desenho na minha roupa? Quantos tênis? Vou andar bastante? Então melhor aquele confortável. E blusa? Mas é verão na Europa!
"O verão mais frio em muito tempo!" foi o que me disseram.
Planejar viagem é um saco, mas tem gente que adora isso. Ficam contando os dias antes de embarcar. Parece que a ansiedade satisfaz mais que o objetivo em si. E não que eu não goste da ansiedade. Sempre preferi as sextas aos sábados. As vésperas aos feriados. Aquela sensação de sair do trabalho e ter aquele montão de nada pela frente. Aquele monte de filmes que você ficou de assistir, os livros pra ler, o dia pra andar, os amigos pra conversar e o chamego de noite para os mais espertos. Bem melhor do que aqueles momentos em que você lembra que no outro dia tem que ver a cara daquele seu colega de trabalho inconveniente que adora bradar as mazelas do país sem perguntar se você está interessado em ouvi-lo. Posso até gostar da ansiedade, mas planejar não está pra mim e o mais louco é que quando chego no meu destino e me encontro perdido, fico brigando comigo mesmo dizendo que deveria ter planejado a viagem. A primeira vez que fui pra Nova York, anotei nuns papéis os lugares que queria conhecer e acabei esquecendo esse papel em algum lugar no meu quarto. Foi a melhor coisa que pude fazer pois apesar do sufoco inicial para encontrar o hostel no Brooklyn, pude sair pela cidade sem rumo.
E foi mais ou menos nesse esquema torto que eu cheguei em Munique na Alemanha. O salário que iriam me pagar na segunda foi atrasado para quarta, mas minha passagem já estava comprada e não tinha como adiar. Cheguei na cidade com minha mochila, uma mala média e outra gigantesca com todas as bugigangas que eu trouxe de Richmond. Era a primeira vez em que eu chegava num país em que não dominava a língua de jeito nenhum e o inglês seria minha salvação. Ainda bem que a maioria dos Alemães, pelo menos nas cidades grandes como Munique sabem falar a língua da rainha. Eu só não contava com o sotaque carregadíssimo, mas isso a gente dá um jeito.
Ao chegar na terça, eu não tinha ideia de como pegaria meu dinheiro na quarta. Tinha uma merreca que troquei por euros e fui pro primeiro hostel que encontrei (falando assim parece fácil, mas tive que ir pra lá e pra cá com minhas malas pelo metrô do Munique cheio de conexões e estações com nomes impronunciáveis). Chegando no hostel, consegui falar com o Jan, o alemão que dividia a república comigo em São Paulo. Eu já prevendo que o fuso horário atrapalharia minhas transações financeiras com o banco nos EUA, expliquei pra ele a situação e ele me comprou uma passagem para sua cidade, Darmstadt, perto de Frankfurt. Como eu ainda tinha tempo, fui visitar a antiga capital da Bavaria.

Prédio em Munique (clique aqui para mais fotos)

A viagem de trem que não teria nenhuma conexão foi mais longa que o previsto e virou mais um capítulo da minha novela europeia que com certeza vai merecer uma tira. A questão é que depois de ser expulso do trem por um erro na impressão da passagem, consegui chegar em Darmstadt são e salvo e o Jan pode me acolher em sua casa e me levou para tomar uma cerveja local. Agora que meu dinheiro caiu na conta e eu estou começando a entender umas palavras soltas de Alemão, o país não me parece tão hostil. Semana que vem vou pra Berlim! Melhor me planejar melhor... Ou não...

Sempre que arranjar tempo colocarei as fotos da viagem nesse álbum do Flickr.
Não esperem fotos turistonas que nem as da California. Talvez uma ou duas ou seis, mas não mais que isso.

Abraços e até breve!

Câmbio desligo!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Conversas

O telefone vibrou anunciando a mensagem.
"A porta está aberta." ele respondeu, ela subiu e sentou-se na cama onde ele estava deitado com a cabeça afundada no travesseiro.
"O que foi dessa vez?" ela perguntou pousando a mão carinhosamente em seu cabelo.
"Não sei... Não consegui dormir." ele respondeu.
"Você bebeu ontem?" ela perguntou.
"Não... Não muito..." ele disse escondendo o constrangimento.
"Você não acha que está bebendo demais?"
"Não! Claro que não!" ele virou a cabeça para ela.
"Tudo bem! Não vou bancar a chata..." ela disse lavando as mãos no ar. Ele puxou a mão dela de volta para seus cabelos.
"Criança..." ela continuou o carinho.
"A vida é difícil! Eu não consigo abrir uma página de jornal sem me deprimir todo dia..." ele argumentou.
"Não abra então!" ela replicou.
"Não é assim, você sabe..."
"Então aprenda a conviver! O que deu em você? Cadê aquele menino que conheci que queria mudar o mundo?"
"Ele cresceu..."
"E decidiu ficar enfurnado dentro de casa o domingo todo?" ela questionou.
"Você sabe como domingos me deprimem..." ele virou a cabeça de volta pro travesseiro.
"Eu ficaria surpresa de achar algo que não te deprime ultimamente!"
"Não seja irônica! É sério!" ele reclamou.
"Não! Não é sério! É frescura! Quantas vezes a gente já teve essa conversa?"
Ele fingiu que não escutou e depois de uns segundos de silêncio a puxou para junto dele.
"É só desculpa pra fazer você vir aqui!" ele a beijou no ombro. Fazia calor lá fora.
"Já não sei se vai funcionar da próxima vez." ela disse sem se desvencilhar.
"Eu invento outra história!" ele disse.
"E se eu não aparecer?" ela desafiou.
"Então eu vou até você." ele propôs.
"E se eu não estiver lá?" perguntou.
"Eu te procuro..." decidiu.
"E se não me achar?"
Ele ficou um tempo em silêncio e depois disse brincando:
"Eu dou um jeito!"
Ela riu e perguntou:
"Há quanto tempo a gente está nisso?"
"Não sei..." ele a abraçou mais apertado e depois largou levantando-se "Não quero pensar nisso. Vamos comer alguma coisa?"
"Não posso! Eu disse que passaria aqui só pra ver se você estava bem." falou pulando da cama e indo em direção à porta.
"Mas eu pensei..." ele sentou-se de volta na cama.
"Outro dia, pode ser?" ela disse passando a mão uma última vez em seu cabelo.
"Pode ser..." ele a abraçou e ficaram ali por um tempo como que dançando à uma canção que tocava na imaginação de cada um.
"Tenho que ir!" disse ela voltando à realidade.
"Tudo bem! Depois nos falamos..." ele disse.
"Sim! Claro!" ela o beijou e saiu pela porta.
Ele ainda ficou um tempo sentado na cama. Almoçou sozinho naquele dia.

Cookie monster perdido na cidade grande

Ouvindo Seu Jorge com sua versão de "Life on Mars?"

terça-feira, 12 de junho de 2012

Final de semana felino...

A breguice tomou conta do meu ser.
Não sei se é por conta do dias dos namorados ou por causa da crise que ando passando, mas resolvi embarcar num projeto relâmpago e registrar momentos solitários do Minhoca (Worm), o gato que tive que tomar conta nesse final de semana. Começou com uma brincadeira enquanto ele dormia no meu colo e eu fiz um foto com o celular, depois percebi que o bichino tinha toda uma personalidade digna de um top model.
Eu sei! Eu sei! Não tem nada mais brega que tirar fotos do bichinho de estimação! Ainda mais gatos que vivem parados num canto comendo, dormindo e esperando para serem amados, mas o Minhoca tem só três meses e a energia de quatrocentas pilhas Duracell, portanto, retratar os dias solitários do pobrezinho enfurnado dentro de casa não foi tarefa fácil pois toda hora que ele me via com a câmera, vinha correndo atacar a abelha que ele achava que estava dentro dela. Até tentei fazer uma fotos mostrando o movimento dele, mas não ficaram muito boas.

Essa é a foto mais abacaxi que eu tirei dele:


Confiram as outras clicando AQUI e digam o que acham do projeto mais brega da minha jovem carreira como fotógrafo.
Para quem não viu, também fiz uma tira contando o meu final de semana com ele.

Abraços, até breve e feliz dia dos namorados pra quem tem motivo para comemorar!

domingo, 10 de junho de 2012

Quando morei em repúblicas

Meu curso de verão finalmente acabou. Depois de três semanas, dois trabalhos, uma prova final e uma professora bem chatinha, acabei sobrevivendo aos fatídicos anos setenta em Hollywood e à história dos EUA no mesmo período. Desde a última segunda estou morando numa outra casa (passei por quatro lares nesse verão) sendo essa a última antes de começar a trabalhar. Será o lugar onde ficarei mais tempo e a troca foi justa: três semanas por US$50 pra ajudar na internet e a promessa de que não andaria pelado pela casa e que cuidaria do gato durante os fins de semana enquanto as duas mocinhas que moram aqui voltariam para casa de seus pais. Digamos que ainda estou pensando em alternativas eficientes para arranjar os cinquenta mangos, quebrei a segunda regra uma ou duas vezes, mas não fui flagrado e enquanto escrevo, um gato de três meses pula na tela do computador sem entender porque não consegue morder seus alvos. Ah! Os gatos...
Lembro quando morava numa república no Jd. Bonfiglioli e meu amigo Verde resolveu comprar um felino para sua namorada Mariana que morava com a gente. O dia dos namorados se aproximava e ele veio cheio de dedos conversar com cada morador da casa (na época eram seis) mas ele só teve que conversar com quatro já que um deles teria uma surpresa. Todos concordaram meio com o pé atrás, mas admito que a coisa que faltava naquela casa era um bichinho. Acho que no fundo ele estava comprando para ele. Já havia um tempão que morávamos em república, mas lembro até hoje quando no primeiro semestre da faculdade a gente visitou a casa do Lucas, um amigo nosso que estudava no Instituto de Artes da UNESP quando ainda era no Ipiranga. O sobrado ficava numa vila tranquila do bairro e era um verdadeiro muquifo - livros jogados por todo canto, móveis empoeirados, um cara que não parava de fumar e sua namorada que só dormia, um gato gordo que nos encarava com seu único olho e uma cozinha que mais parecia um depósito de restos de comida. Ainda assim, o Verde e eu nos encantamos com a ideia de morar longe dos pais e perto da faculdade, colar qualquer porcaria na parede e fazer o que bem entendêssemos. Seis meses depois estávamos assinando o contrato de trinta meses de um sobrado numa viela no Caxingui, bairro vizinho à USP. Em muitos aspectos a casa se parecia muito com a do Ipiranga com a exceção de que tentamos mantê-la menos bagunçada apesar de alguns momentos e moradores que contribuíram com certas situações que se reservam a histórias engraçadas contadas em mesa de bar.
Ainda mudamos para dois outros apartamentos e moramos com um bocado de gente que para o bem ou para o mal fizeram parte de nossas vidas. Lá pro final me vem o Verde com essa ideia de comprar um gato. E foi assim que a Lilú fez parte da República por uns seis meses até que a Mariana voltou para as terras distantes de Mauá. Na realidade, acho que o Verde só estava esperando o momento certo para arranjar um gato e finalmente igualar nosso lar àquele que nos inspirou. Pouco tempo depois foi ele quem voltou para os confins da Vila Cisper e eu também me mudei deixando o apartamento a ser tocado por outras pessoas que vivenciariam tantas outras experiências por lá. 
Foi um tempo bacana e acho que toda essa história de ficar mudando de casa, cuidar de um gato e lidar com gente ainda no meio da faculdade me fez lembrar de tudo isso com um leve sorriso no rosto. Pois é, a saudade aperta, mas não sufoca.

**

Esse é um vídeo que fiz da Lilú lutando pela sua vida contra um pedaço malígno de papel.
Achei que ia virar um hit no Youtube tipo aquele gato que pula nas caixas, mas não rolou...


É isso! Abraços e boa semana a todos!

Ouvindo Errol Garner com "All of Me"

quarta-feira, 30 de maio de 2012

De mudança

A casa ia se enchendo de caixas com a mudança. Do banheirinho debaixo da escada ele gritou:
"Cacete! Esqueci o Hopper no banheiro!"
"Puta merda! É verdade!" ela gritou da cozinha enquanto fazia um chá logo antes de colocar o resto dos utensílios na caixa. Ao voltar para a sala, ele estava sentado em cima duma caixa grande e o quadro no chão se encostava preguiçoso na parede.
"Você fez pra mim?" ele perguntou.
"Desde quando você gosta de chá?"
Ele não respondeu, ao invés disso, fitou o quadro empoeirado. Ela sentou-se ao lado e quebrou o silêncio.
"E a gente nunca consertou aquele cantinho que trincou."
"É..." ele ainda pensativo "Esse quadro é tão bonito! Por que a gente colocou ele no banheirinho?"
Ela riu.
"Foi ideia sua! Você sempre brincou que esse é o banheiro pós-balada e esse quadro dava um ar charmoso pra noite."
"Você lembra de cada coisa!" ele disse sem tirar os olhos do quadro.
"Só do que acho importante..." e deu um gole do chá.
"Desde adolescente, eu sempre gostei dele..." ele falou e continuou "Essas pessoas na lanchonete com um ar meio sombrio, mas ao mesmo tempo sereno. A rua vazia meio que iluminada só pelo lugar..."
"Você é um romântico..." ela riu pegando na mão dele.
"Tem como não ser ao ver um quadro desses? O que será que eles estão pensando? Por que estão ali? O que estão bebendo? Dá pra ficar horas viajando..."
"Verdade..." disse ela perdida em pensamentos.
"E eu lembro que peguei esse quadro quando ajudava um amigo com a mudança dele. Ele estava se desfazendo de várias coisas e você sabe como eu gosto de uma tralha..."
"Bem sei..." ela concordou olhando ao redor.
"Eu jamais gastaria dinheiro com uma reprodução, mas quando ganho ou acho e me interesso, vem direto pra casa. Tem toda uma história, um contexto do porque veio parar nas minhas mãos, você entende?"
"Claro que entendo!" ela sorriu, ficou em silêncio por uns instantes e falou "O único problema é que às vezes a gente tem que deixar certas coisas..." ela suspirou "Certas coisas são cheias de passado e devem ficar por lá..."
"É... Eu sei..." ele desviou a atenção do quadro e agora olhava pela janela onde via uma garoa fina começando a cair "Mudanças sempre fazem a gente pensar na vida, não é?"
"Muito!" ela respondeu convicta sem desviar o olhar que ainda pairava sobre o quadro.
A campainha tocou e ela foi atender. Voltou.
"É o pessoal da mudança!" disse.
"Até que chegaram rápido!" ele falou.
"Tem certeza que não quer fazer tudo numa viagem só?" ela perguntou.
"Não! Fica tranquila! Já está tudo arranjado pra amanhã virem pegar minhas coisas! Além do mais não faz sentido atravessar a cidade." ele argumentou.
"Está certo então!"
"Sem problemas!" ele continuou sentado na caixa até que teve de se levantar para que a levassem para o caminhão.
Um tempo depois.
"Bom, vou indo! Qualquer coisa me liga!" ela disse o abraçando.
"Pode deixar!" ele retribuiu.
A noite caiu e ele resolveu sair pra beber alguma coisa. Voltou um pouco bêbado e foi correndo para o banheirinho. Ao passar pela sala olhou para o quadro iluminado pela luz da rua.
"Deixar certas coisas..." ele falou sozinho enquanto ajeitava uma cama improvisada com o papelão de umas caixas que sobraram da mudança.
Ainda sem saber o destino que daria ao quadro, adormeceu observando-o como quem adormece vendo um programa na TV.

Nighthawks (1942) por Edward Hopper

Ouvindo "For No One" dos Beatles na versão do Caetano.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O homem de bailarina e a saúde norte-americana

Acordo cedo depois de uma noite de insônia. O que afinal me impediu de dormir direito? Ansiedade com os projetos futuros? Preocupações financeiras? Afetivas? Acadêmicas?
Acordei com sono, mas com a promessa de um café forte que me manteria acordado durante a aula em que discutiríamos o governo Nixon e o filme "Rede de Intrigas" (1976) que aborda os jogos sujos de poder dentro das grandes corporações de TV em busca de audiência. A discussão e o café deixaram a desejar, mas o roteiro cheio de reviravoltas e as atuações excepcionais do filme de Sidney Lumet me mantiveram acordado, no entanto o que me chamou atenção foi outra coisa. Enquanto esperava meu café, assistia ao jornal matinal da NBC que faz a Ana Maria Braga parecer a seriedade do jornalismo em pessoa. Todos aqueles repórteres bem vestidos falando de assuntos completamente desnecessários e entrevistando os mais variados tipos sem o mínimo nexo. É tão ruim que chega a ser engraçado e não me surpreendi ao ver um homem de meia-idade tirando fotos dele mesmo vestindo apenas uma saia rosa de bailarina. "Mais uma besteira!" pensei, mas ao ver as fotos que passavam na tela enquanto o fotógrafo e a mulher eram entrevistados, percebi uma qualidade técnica tanto de composição quanto tratamento de imagem e por algum motivo aquele ponto rosa adornando o tiozinho gordinho no meio de paisagens inusitadas me chamou a atenção.
  
Four Trees ©2012 Bob Carey

Corn Field ©2012 Bob Carey


O tal gordinho se chama Bob Carey, um fotógrafo que desde 2003, quando descobriu que a mulher tinha câncer de mama, resolveu sair pelos Estados Unidos e pelo mundo fazendo autorretratos pouco convencionais como uma terapia que, em sua opinião, explora a fragilidade humana. É através desse humor sutil (ou escrachado?) que ele tira sorrisos das pacientes que, como sua mulher, lutam contra o câncer. Além disso, o Projeto Tutu (como é chamada a saia das bailarinas) arrecada fundos através do site para ajudar mulheres que não tem condições de pagar um plano de saúde que ajude a tratar a doença. Inocentemente, essa empreitada coloca em questão o sistema de saúde norte-americano que é completamente privado e deixa os cidadãos à mercê de planos caríssimos que às vezes não cobrem quase nada. "Não sei como ainda tem tanta gente viva nesse país?" brinquei uma vez com a mulher que cuida da minha papelada aqui na VCU depois de entregar meus documentos provando que tinha tomado todas as minhas vacinas que, falem o que quiserem do SUS, não peguei um centavo para tomá-las enquanto que na "América" qualquer injeçãozinha não sai por menos de US$50 (R$100). E essa mentalidade vai do hospital à Universidade. Recentemente, os republicanos vêm tentando aumentar os valores das faculdade (seja pública ou privada, a Universidade aqui é paga) e Mr. Obama está desesperado lutando contra isso pois afinal não quer perder os votos do jovens para as eleições de outubro.
Não me surpreendo com a indignação da classe média brasileira de ter de pagar tantos impostos e não ver retorno real e imediato, mas me surpreendo com a passividade com que muitos norte-americanos veem seus impostos serem catapultados para objetivos belicosos em nome da "liberdade" dos povos do oriente médio e não para terem um sistema de saúde e educacional gratuito ou pelo menos mais barato. Sem falar que por aqui quanto mais rico for o cidadão, menos ele paga imposto, coisa que os ricaços do Brasil de meu Deus tentam incorporar a todo custo justamente por interesses próprios.
Não quero aqui falar mal dos EUA e deixar a entender que na nossa República Federativa está tudo uma maravilha, mas sim argumentar que cada país tem suas vantagens e desvantagens e não é possível colocar na balança quem está melhor ou pior pois isso só cai numa discussão simplista que fica limitada aos almoços de domingo com aquele tio que ainda acha que no tempo da ditadura é que era bom.
De qualquer modo, é de uma paradoxo descabido ver o Brasilsão como a sexta maior economia do mundo enfrentando problemas que perduram por séculos, mas é também de uma tristeza só saber que um cidadão tirando fotos vestido de bailarina ajuda mais as mulheres com câncer de mama do seu país do que o próprio governo, mas nesse assunto, é claro, os entrevistadores da NBC não se atreveram a tocar e, se bobear, eles nem perceberam pois a mentalidade do "pagar pra ter" está tão impregnada na população que a maioria sequer a questiona e não há fraqueza maior de um povo do que o silêncio apático.


Parking Lot ©2012 Bob Carey

Mais fotos no site do projeto.

 Ouvindo David Bowie com "Young Americans"

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Garota, eu fui pra Califórnia...

Meio furada foi a viagem. Não a viagem em si, mas o pacote! Já desconfiei no começo pois o preço estava muito abaixo do normal. Brinquei com os amigos que no meio do tour iria aparecer um cara maluco com uma máscara e uma motosserra ou então caipiras geneticamente modificados pelos testes nucleares do governo no deserto sabotariam nosso ônibus e nos caçariam um por um. Nada disso aconteceu, mas também não foi mil maravilhas. A agência de viagem era chinesa e todo o trajeto era bilíngue. Nada contra os chineses! Alguns muito simpáticos! Tinha um que sempre me cumprimentava no elevador (ele podia estar muito bem me mandando à merda, mas eu sempre respondia com um sorriso). O problema é que todos viajavam com aquele objetivo de colocar o pé num canto, tirar um milhão de fotos, voltar pro ônibus, viajar mais dez horas, colocar o pé em outro canto por quinze minutos, voltar pro busão, voltar pro hotel, dormir e no outro dia a mesma coisa.
Isso me lembrou uma vez em que ouvi falar desses pacotes relâmpagos de turismo pela Europa. Em uma semana você visita uma porrada de cidades e volta cheio de fotos ao lado da Torre Eiffel e lembrancinhas pra tia Fátima no Brasil. A verdade é que nunca fui de viajar assim. Além dos pontos turísticos, também gosto de sentir a cidade, comer no restaurante onde os habitantes vão na hora do almoço em plena quarta-feira ou o melhor bar pro happy hour, essas coisas. 
Las Vegas, a cidade que menos me apeteceu, foi onde ficamos mais tempo. Todas aquelas máquinas de jogo, aquele povo fumando desesperado, todo mundo querendo viver uma vida no melhor estilo "Se Beber Não Case" e um pouco mais. Fiquei meio sufocado naquela cidade erguida no meio do deserto cheia de luzes  vibrantes e coloridas. Como estava em grupo grande, seguia as decisões da maioria e não queria bancar o chatão. Sendo assim tentei tirar proveito da situação. Andamos de limusine, bebemos coquetéis, jogamos um pouco e quando eu quis ficar um pouco mais na parte antiga da cidade (mais charmosa sem os edifícios e hotéis enormes) a galera me arrastou pruma balada no Bellagio Hotel. Definitivamente não é uma cidade para se ir sozinho!
Senti meio que a mesma coisa em Hollywood. Tudo muito artificial. Em algum momento sugeriram uma visita à Rodeo Drive, a Oscar Freire de Los Angeles onde a Julia Roberts fez as compras em "Uma Linda Mulher" e eu querendo visitar o centro da cidade fui logo dizendo "Pra que ver uma rua com produtos que nunca poderemos comprar?" ao que todo mundo respondeu com um silêncio resignado. No final passamos pela rua e fomos para Santa Monica, o destino final da Rota 66 e eu fiquei devendo uma visita ao centro de Los Angeles.
Queria ter ficado mais tempo em São Francisco, mas a paranoia de ver o máximo de coisas em menos tempo não me permitiu. A impressão que tive foi de uma Nova York mais preguiçosa, mais de buenas com a vida, tipo Rio pra São Paulo.
Com certeza os pontos altos foram as visitas ao Grand Canyon e ao Yosemite Valley, mas que ficaram resumidas em poucas horas de passeio e eu nem consegui dar um pulo na cachoeira do Yosemite, mas algumas fotos saíram bacanas. Em breve posto tudo na minha página do Flickr.
De qualquer modo, tirando os gastos inesperados (gorjetas para o guia e o motorista e passeios não inclusos no tour) a viagem foi até que positiva. Pelo menos posso dizer que conheci esses lugares e quando estiver numa roda de bar vou poder falar "Uma vez quando estava num barco em São Francisco..." só pra parecer mais descolado e viajado.

É isso! De volta à vida real! O curso de verão que eu iria fazer sobre diretores foi cancelado por falta de alunos então me matriculei num outro sobre História no cinema na década de setenta. A gente basicamente assiste e discute um filme todo dia baseando-se nas leituras e no contexto histórico. Nada grave! E daqui um mês começa a labuta brava! Que a força esteja comigo!

Muitos amigos reclamam que eu não tiro muitas fotos de turista então fiz um seleção de algumas da viagem pegando do cartão da câmera e dos álbuns alheios no Facebook! Não editei nem nada! Estão do jeito que foram tiradas! Aproveitem!

PS: Se você ainda não viu a versão em quadrinhos desse relato, clique aqui!

Eu de turista no Grand Canyon
Eu tentando cometer suicídio no Grand Canyon

Eu atrapalhando uma foto no Grand Canyon
Eu pedindo arrego em Las Vegas

Eu num buffet chinês no estilo "coma até morrer" chupando laranja pra ajudar na digestão (dica da minha mãe)

Num Outlet da Tommy Hilfiger lotado de turistas e produtos chineses
Eu e o grupo feliz na piscina do hotel (detalhe para a criançada ao fundo causando na nossa foto)

Autorretrato nos óculos do Niki (o austríaco que me arranjou o emprego na Inglaterra e consequentemente meu futuro chefe)

Eu esquentando a mulherada no barco na baía de São Francisco

Eu em Santa Monica fazendo a minha famosa dança do robô
Eu na calçada da fama junto com o Sr. Spock

Eu e a mulherada

Eu no Yosemite Valley tirando foto de tudo menos da porcaria da cachoeira

Eu em Las Vegas protestando ao não apontar para o mundo das ideias
E finalmente eu no glamour de Hollywood


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Do outro lado + Até breve!

Caros, amanhã parto para o outro lado dos Estados Unidos. Junto com meus queridos amigos intercambistas, voaremos para a Califórnia e lá faremos um tour de busão de uma semana pelos pontos turísticos mais manjados. É lá também que cada um seguirá seu rumo para seu país de origem enquanto o cidadão aqui volta para Richmond primeiro prum curso de verão sobre Truffaut, Fellini, Bresson, Howard Hawks e Tarantino (Êta, vida boa!) e depois troco de cadeira e começo a dar aulas de História em português para alunos de Ensino Médio até o meio de julho como falei no último post. Parto então para o velho continente pra lecionar mais um pouco por lá e só volto pro Brasil Baronil no começo de setembro se tudo correr como planejado.

Não tive tempo de editar novas fotos nem de escrever sobre o show da Feist em Nova York pois essa semana foi tensa! As provas finais foram tranquilas, mas o que pegou mesmo foi finalizar o documentário e um trabalho de pesquisa pra minha aula de Origens do Modernismo, mas como minha mãe sempre diz, no final tudo dá certo e mais uma vez a sabedoria materna acertou em cheio. No momento em que escrevo, meu roommate está me apressando para eu terminar de empacotar tudo para que possamos deixar o dormitório e entregar as chaves sem problemas. Estranhamente, minha mala parece menor do que quando cheguei, mas tenho certeza de que darei um jeito de encaixar tudo.

É isso! Coloco abaixo os links pro meu documentário finalizado e também as cenas deletadas.
O tema engloba a relação dos alunos de intercâmbio com a cultura americana e também entre eles.

Digam o que acham!
Infelizmente está tudo em inglês e além disso um monte de estrangeiro falando com sotaque pesado, mas nada grave!


 O documentário:


As cenas deletadas:


É isso! Assim que sair do dormitório amanhã, vou me desconectar geral e deixar facebook, e-mails e qualquer coisa eletrônica de lado por uma semana (nem vou levar meu computador pra não ter recaídas) e só vou curtir, tirar fotos e ver a banda passar!

Abraços e até breve!


Ouvindo "Mistério do Planeta" dos Novos Baianos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Adeus, América? Ainda não...

É verdade quando dizem que depois de quatro meses você já vai se acostumando à comida, às pessoas e ao lugar em que está vivendo e é verdade também quando dizem que é justamente nessa hora em que você se sente em casa é que chega a hora de voltar. Esse era meu plano pois as aulas acabam dia 12 de Maio, dai vou dar uma viajada e voltaria para o Brasil no começo de Junho. O que não estava nos planos é que dia 21 de Maio eu volto para a VCU para fazer um curso de verão sobre alguns diretores fundamentais na história do cinema que vai até dia 8 de Junho (aniversário da minha querida irmã Camila que costumava dividir o apartamento comigo em terras garoísticas). Mais fora dos planos ainda foi o emprego que arranjei aqui na universidade que vai durar entre o dia 21 de Junho até o dia 14 de Julho. A ideia é ensinar português com aulas de História para alunos de Ensino Médio que vão participar desse programa também de verão chamado Startalk Academy. Estou bastante empolgado pois além da experiência pessoal, acredito que isso fará um bem danado pro meu currículo. 
Até ai eu já estava super feliz e satisfeito até que encontrei um intercambista austríaco cujo os pais são donos de uma escola de inglês que proporciona cursos de verão na Inglaterra para a molecada da Áustria. Enquanto conversávamos ele mencionou que o programa precisa desesperadamente de professores homens independente da nacionalidade, contanto que tenham um inglês minimamente decente.  Foi assim que arranjei mais um emprego de verão na terra da Rainha que vai durar do dia dia primeiro até 18 de Agosto. Acho que não vai doer fazer um mochilão the flash pela Europa pra visitar alguns cantos e voltar correndo no começo de setembro pra terrinha. 
Estava guardando pra usar como despedida da terra do Tio Sam a clássica canção "Adeus, América" interpretada pelo João Gilberto que diz "Não posso mais! Que saudade do Brasil, ai que vontade que eu tenho de voltar. Adeus, América! Essa terra é muito boa, mas não posso ficar porque o samba mandou me chamar" mas agora que vou pra ilha de Shakespeare, a terra dos Beatles, o lar do bruxo mais famoso do mundo, a música não vai caber muito bem.

Pois bem... Continuou por aqui até o meio de Julho escrevendo, desenhando e fotografando minhas impressões e outras cositas más sempre que bater uma inspiração. Aliás, nesse final de semana volto pra New York pra ver um show da Feist e aproveito pra dar mais uma passeada pela cidade tão romantizada por alguns cineastas.
 
Vista de New York do topo do Rockfeller Center


Abraços e até breve!

Ouvindo The Beatles com "Get Back"

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Segredos de lanchonete

Era dia, à tardinha, e eles se encontraram.
"Não sei se isso é certo..." ela disse.
"E por que veio?" ele replicou.
"Não sei... Acho que queria te ver."
"Então é certo?" ele perguntou.
"Claro que não!" respondeu quase sem deixar ele terminar.
Silêncio.
Ele quebrou.
"Deixa ser... Que nem naquele som dos Beatles!"
Pegou na mão dela que esboçou algum sorriso.
"Melhor não." resignou-se.
"Pessoa certa e hora errada, não é?" ele perguntou meio cabisbaixo.
"Acho que sim." resignou-se mais uma vez.
E se despediram antes que a noite caísse.


"registro de uma tarde perdida" por Mari Waechter
















Ouvindo "Aquellos Ojos Verdes" com Nat King Cole.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Dia dos discos

Nesse sábado além de ser o dia do grande herói da nossa pátria é também o dia da Loja de Discos e a maioria das lojas dá descontos especiais para LPs novos e usados. A questão é que aqui em Richmond, por conta da conceituada School of Art a população hispster é de oito por metro quadrado (quase a mesma que a da minha querida Rua Augusta) então a cidade tem um bocado de lojas de vinis e nesse dia, ouvi dizer, rola um fervor entre os record lovers. Não tenho toca-discos nem nada, mas não consigo fugir de uma promoção de coisa velha. Um dia saí de um sebo da Rua Martins Fontes com dez LPs por um preço baixíssimo. Outro dia comprei outros três numa loja daqui cada um por um dólar (um de bossa nova perdido no meio dos de Jazz).
Lembrei que nessa semana, minha amiga Aline Zuliani postou no Facebook a notícia de que os Los Hermanos vão lançar a discografia deles em vinil. Indignada, ela perguntava aos internautas: "Quem tem um toca-discos?" e eu respondi que vinil ainda era de boa perto de um cara que eu vi vendendo a música dele numas fitas K7 depois de uma apresentação num bar aqui perto da VCU. 
Não seria K7 o cúmulo do "só ouve quem está afim de ouvir mesmo"?
Enfim, de qualquer modo minha amiga que me perdoe, mas eu não consigo perder uma promoção, nem que seja de vinis! Qualquer dia arranjo um toca-discos e ouviremos Los Hermanos numa tarde morna de Setembro tomando cerveja e vendo a banda passar, pode ser, Zu?
Nesse sábado, vou dar uma de Durval e cair no saudosismo!

John Cusack em "Alta Fidelidade" (2000) de Stephen Frears

Agora sim, abraços e bom final de semana a todos!

Ouvindo "Anti-Pioneer" do novo CD (ou LP?) da Feist.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Saudades, comida e saudades

Hoje uma brasileira me falou com seu mineiro sotaque "Você está com cara de que está com saudades do Brasil!" e eu nem lembro o que respondi mas sei que dei a boa e velha impressão de sim e não.
É claro que estou com saudades! Só de pensar no santo picadinho das quintas-feiras no restaurante Madrid ali na Caio Prado minhas lágrimas começam a inundar minha bomba de colesterol que eu chamo de prato. 
"Mas você só está comendo besteira?" é o que me perguntaram dia desses pela internet.
Lá vou eu com meu sim e não. O "bandeijão" aqui da VCU é chamado de "Shafer" e até oferece uma variedade básica de refeições. No começo, os alunos mais antigos que encontrei reclamavam da falta de opções enquanto eu me lambuzava nas fatias de pizza de pepperoni e engolia os hambúrgueres bem passados numa enorme grelha, afinal, uma vez dentro do refeitório, você pode comer e beber até que uma luz se abra no horizonte começando a chamar pelo seu nome.

Teto do Shafer Court Dining Center
"Essa galera precisa de cinco minutos de Bandejão da USP pra poder reclamar!" eu pensava julgando essa geração Europeia que só agora está sofrendo na pele as garras malignas do famigerado capitalismo, mas enfim, é inevitável que toda rotina gere certa fatiga e logo eu, o mais pé-rapado da turminha, comecei a reclamar quando percebia que em certos dias as opções menos piores seriam as tais bombas de gordura, mas vez ou outra aparece algo novo e como a camaradagem reina entre os alunos de intercâmbio, as mensagens no celular ou no facebook começam a pipocar "Aproveita que hoje tem frango no Shafer!" ou "Corre pro Shafer que hoje tem carne assada ao molho! Meio borrachuda, mas dá pra engolir!" Eu que não sou besta nem nada, levo sempre umas duas tupperwares na mochila e discretamente, depois de satisfeito, despejo salada num pote e qualquer outra coisa no outro. Se estiver carregando uma garrafa, dá-lhe suco de laranja pra mais tarde e dai economizo meus créditos que já estão acabando, afinal, dia 12 de Maio findam-se as aulas por aqui e no mesmo dia embarco para a Califórnia pra fazer um tour bem manjado pelos pontos turísticos de lá. Ainda fico um tempo hospedado na casa da família do meu colega de quarto mexicano. 
Desejem-me sorte!
Ainda tenho algumas novidades que talvez deixem alguns corações mais apertados pelas terras do Brasil de meu Deus (estou falando da minha mãe), mas ainda não tenho tudo confirmado, portanto deixo para explicar em post futuro.

Enquanto isso, fiquem com uma prévia do documentário que estou fazendo como exame final para uma de minhas aulas abordando o relacionamento dos alunos de intercâmbio entre eles e suas impressões da cultura norte-americana. Um dos tópicos: Culinária Americana!
Pirem no plano-sequência e na trilha sonora!



Abraços e boa semana!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Aborto: crime ou escolha?

Abro a página da Folha e dou de cara com a notícia de que a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal votou em favor de que a gestante possa escolher abortar um feto anencéfalo. A notícia chamou minha atenção pois dia desses enquanto caminhava para uma de minhas aulas, deparei-me com um cartaz que registrava em letras vermelhas "Atenção: cenas fortes de genocídio à frente". Continuei meu caminho até topar com as tais cenas que eram na verdade montagens que associavam o aborto ao holocausto empenhado pelos nazistas contra os judeus durante a Segunda Guerra. Tentei ligar uma coisa à outra no meu pobre cérebro, mas a resposta foi imediata: o ato não tem nada a ver com o fato. Mais à frente, uma garota levava em uma bandeja um pedaço de carne cinzenta ensanguentado que de perto lembrava um feto em formação que, segundo a garota, era mais ou menos o tamanho da criança no útero nos primeiros meses. Meio cínico que sou com qualquer bandeira levantada com muito fervor, seja ela a favor ou contra alguma coisa, continuei meu caminho sem que as "cenas fortes de genocídio" atrapalhassem o meu dia, mas o assunto voltou na mesa do bar umas noites depois já que o evento tomou conta da universidade e não passou despercebido. Alguns apontavam a ação como estúpida, outros discordavam do ato, mas admitiam criatividade e foi então que me perguntaram "O que você achou?" e eu que estava contente com meu copo de cerveja e minha conversa banal com a garota do meu lado dei aquela resposta que me levou direto ao topo do muro "Prefiro não discutir esses assuntos polêmicos!" mas algumas figuras que me conhecem melhor soltaram "Você fala isso por que é a favor de abortar, mas não quer causar!" e eu ri dizendo que só responderia na frente dos meus advogados. Voltei pro apartamento junto com meu colega de quarto mexicano e acabei soltando "Nada a ver relacionar o holocausto com aborto!" e ele respondeu um sim meio sério. Não queria cair na discussão naquela hora, mas ele acabou dizendo que se há fecundação então há vida e eu me joguei pra cima do muro de novo pra evitar conflitos.
A questão é que dificilmente me posiciono aguerridamente à qualquer opinião, o que não significa que aceito tudo que me falam, aliás, nunca tomo nada como verdade absoluta pois qualquer verdade é construída socialmente pelo seu meio (inclusive isso que acabei de falar) portanto eu compreendo alguém que discorda do aborto por questões religiosas afinal a fé e tantos outros conceitos são martelados em nossas cabeças desde que nascemos, em especial a doutrina judaico-cristã que molda os caminhos do Ocidente desde os tempos mais primórdios. Desse modo, crença não é sinônimo de ignorância como muitas pessoas contra o aborto alegam assumindo-se especialmente inteligentes pelo fato de não seguirem qualquer religião adotando um posicionamento niilista que no final carrega tantas convicções cegas quanto qualquer crença religiosa, logo fanatismo é o posicionamento que me irrita. Aquele que tenta vencer no grito, seja de um lado ou de outro. No final, parece que o exagero serve como um calço para o argumento que está faltando. E dai eu volto para o assunto inicial desse texto. Aqueles que são contra o aborto de um feto anencéfalo alegam que apesar da falta do cérebro, o ser em formação possui uma "alma" que deve ser preservada enquanto que quem defende o aborto alega que a ausência do cérebro indica a ausência de uma consciência, portanto, não há vida. Ora, ambas as teorias baseiam-se em argumentos retóricos pautados por meras observações empíricas que tiveram que ser debatidas por oito anos dentro do governo até que se chegasse à conclusão de que cabe aos progenitores a decisão de manter ou não a gravidez. O Estado não está sumariamente abortando todos os fetos anencéfalos, mas sim dando o poder de escolha às mulheres que carregam seres nessas condições.
Sendo assim, acredito que eventualmente o aborto será descriminalizado no Brasil e essa foi só a primeira etapa de um longo processo. Espero também que isso venha acompanhado de campanhas contraceptivas para que aborto não vire festa e as pessoas comecem a achar que gravidez é algo fácil de ser solucionado. Foi por isso que me abstive na conversa de bar pois em assuntos polêmicos, parece que você deve sempre seguir o sistema binário de dizer sim ou não às ideias e nunca tentar propôr soluções mais trabalhadas que vão além de crenças e convicções rasas. Como não disse sim nem não, fui pra cima do muro como um gato preguiçoso que finge não estar atento aos ruídos da madrugada e por lá fiquei.

Placa em apartamento de estudantes em Richmond, capital da Virginia que recentemente recebeu restrições contra o aborto.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Aleatoriedades

Hoje quero brindar o inbrindável
correr o incorrível
beber o imbebível
e sofrer o insofrível

Quero pular do ponto mais alto
e cavar o poço mais fundo

quero você, você, você e você
quer ouvir sim, não e talvez
quero dizer
quero você

hoje acordei com sono
e o Sol me fez levantar
o vento me fez acordar
mas eu andei pelo mundo
e vi que era triste
e vi que não tinha sentido em:
brindar o inbrindável
correr o incorrível
beber o imbebível
e sofrer o insofrível

então eu voltei pra cama


**


Ouvindo a versão de "Autumn Leaves" de Miles Davis e John Coltrane.