sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sobre Norah Jones, road trips e falta de química...

Num bar com amigos.
Ela: Você deve fazer uma road trip sim! É uma experiência e tanto. Eu já fiz e posso te dar umas dicas se quiser.
Ele: Com certeza! Que nem naqueles filmes em que a personagem principal sai pelo mundo, tem várias experiências diferentes e acaba voltando pro mesmo lugar só que com uma cabeça totalmente diferente.
Ela: É...
Ele: Você teve muitas experiências diferentes quando fez sua road trip?
Ela: Sim...
Ele: Não disse? Tem um filme muito bom chamado My Blueberry Nights, você já viu?
Ela: Não! Não vi! É sobre o quê?
Ele: Errr... Sobre uma road trip.
Ela: Ah sim! Claro! É bom?
Ele: Muito bom! Tem a Norah Jones, sabe?
Ela: Não.
Ele: Não? (escondendo a indignação) É... É uma cantora muito boa.
Ela: Ah...
Ele: Mas nesse filme ela atua, não canta.
Ela: Entendi.
Ele: Quero dizer, tem uma ou outra música dela, mas ela não é cantora no filme.
Ela: Sei...
Ele: Tem o Jude Law também.
Ela: Ah! Legal!
Ele: É...
Ela: Aham...
Ele: Ele é dono de uma coffe shop e se apaixona pela Norah Jones... A personagem dela, não a cantora.
Ela: Hum...
Ele: Mas ela toma um pé na bunda do namorado e resolve sair pelo mundo. Você sabe, coração partido, essas coisas.
Ela: É...
Ele: Dai ela conhece um monte de gente interessante.
Ela: Hum...
Ele: A Natalie Portman, por exemplo!
Ela: Uau!,
Ele: Quero dizer, ela não conhece a atriz, mas a personagem dela.
Ela: Entendi.
Ele: O filme é bom, vai por mim!
Ela: Sim! Deve ser!
Ele: O diretor é chinês!
Ela: Sério? Deve ser bem diferente.
Ele: É... Mas é bom!
Ela: É...
Ele: Não porque ele é chinês, mas tem outros filmes bons dele, só que chineses. Esse é o primeiro mais Hollywood.
Ela: Entendi...
Ele: É...
Ela: É...
Ele: Bom... Preciso ir ao banheiro.
Ela: OK.
Ele: Onde é o banheiro?
Ela: Ali no fundo, perto daquela placa.
Ele: Ah tá!
Ela: Não tem como errar.
Ele: Você não vai beber mais nada?
Ela: Não! Acho que não! Esse vinho não é muito bom.
Ele: É... Não parece.
Ela: É...
Ele: É...
Ela: Acho que vou sentar com o pessoal.
Ele: Sim, claro! Até mais...
Ela: Até!
Alguns passos de distância.
Ele: Você ainda precisa me dar aquelas dicas pra road trip.
Ela: Sim! Claro! A gente vê isso!
Ele: Legal! Até mais então!
Ela: Até...

Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, Wong Kar-wai, Hong Kong, China, França, 2007)


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Ouvindo "The Story" com Norah Jones.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Amor de vinte e poucos

"Você cortou o cabelo?" ela perguntou.
"Não! Por quê? Parece?" ele replicou.
"Não! Não! Está meio diferente, sei lá!"
"Não! Não cortei não..." e foi sentar na poltrona.
"Quer um café?" ela perguntou.
"Não, obrigado! Você vai demorar muito? O filme começa em uma hora e pelo jeito você nem arrumou o cabelo!" ele disse.
"É claro que arrumei! Por quê? Não parece?"
"Parece sim!" sorriu "Estava só brincando!" mentiu.
Ela saiu da sala, ele pegou um jornal e começou a procurar algo que o interessasse.
"Não vai demorar que vai ter fila! Sabe como são esses festivais!" ele gritou da sala. Ela voltou.
"Está melhor?"
"O quê? O cabelo? Mas é claro! Já estava bom antes!" disse alternando os olhos entre o jornal e os cabelos dela.
"Você disse que parecia desarrumado!"
"Eu falei brincando!"
"Vou pegar o secador!"
Ele largou o jornal, levantou e se aproximou "Está ótimo! Deus do céu! Eu gosto assim! É mais selvagem! Fica mais cool!" 
"Esse é seu melhor elogio?"
"Sim! Agora veste logo um sapato que já estamos atrasados."
"Eu não tenho nenhum sapato bom!"
"O quê? Você tem um milhão de sapatos!"
"Mas nenhum que combine com esse vestido... Nem com o cabelo!"
"Você está de brincadeira! Metade das garotas na sala do cinema não estão nem aí com o sapato que elas estão vestindo." ele argumentou.
"Você que se engana! É muito mais difícil seguir essa moda de hoje em dia!"
"Então não siga moda nenhuma!" ele protestou.
"Mas essa é a ideia! Não seguir moda nenhuma, entende? Não seguir nada é seguir alguma coisa! Por isso é tão difícil escolher o sapato certo! Porque não tem sapato certo."
"No final vocês vão estar todas vestindo o mesmo estilo!" checou as horas no celular "Caramba! Estamos atrasados! Veste aquele verde com detalhes de florzinhas que fica bom!"
"Como você sabe que eu tenho esse sapato?" ela se espantou.
"Eu sei lá! Reparei uma vez!"
"Foi você quem me deu de presente, não lembra?"
"É! Isso também! Agora vamos!"
Esperando pelo elevador.
"Por que você insiste em fingir que não liga pra essa coisas?" ela perguntou.
"Que coisas?" ele apertou novamente o botão para chamar o elevador.
"Essas coisinhas fofas! Aposto que você conhece cada sapato que eu tenho."
"Eu sei desse verde porque fui eu quem te dei! Não fico reparando nos outros."
"Fica sim que eu sei! E você às vezes finge que não lembra que me deu tal coisa só pra dar uma de durão."
"É! É isso mesmo!" checou as horas "Depois de você!" e entraram no elevador.
"Grosso!" e fechou a cara.
"O quê? O filme começa em meia hora e a gente nem comprou os ingressos! Depois a gente discute o quão durão eu tento aparentar, pode ser? Agora vamos!"
Na fila.
"Ainda bem que conseguimos!" disse ele aliviado.
"É claro que conseguimos! Ninguém mais quer ver esses filmes."
"Bom... Até que a fila está grande! Hei! Olha ali! Uma menina vestindo o mesmo sapato que você!"
"Onde? Ah! Que droga! Eu sabia que devia ter vestido outro." disse se escondendo atrás dele.
"Pare de besteira! É só um sapato! E outra, o seu cabelo é bem mais selvagem que o dela! Você está muito mais cool!"
"Você adora essa palavra, né? E vá pro inferno! Meu cabelo está ótimo! Melhor que o seu!"
"Como assim? O meu está super cool!"
"De novo! Enfim, você devia dar um aparada nele! Sei lá..."
"Você sempre disse que gostava dele assim!"
"Sim! Eu gosto, mas não sei! Talvez tenha crescido muito, não sei!"
"Eu gosto dele assim!"
"Você é preguiçoso, isso sim!"
"É! É isso mesmo!" disse acompanhando a fila que começava a andar "Depois de você!"
E entraram na sala escura.

Antoine et Colette (François Truffaut, França, 1962)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Lembrança

Saudade. O que é?
Deve ser o cheiro ou a lembrança ou a lembrança do cheiro. Ou o cheiro que traz a lembrança?
É lembrar do nosso jeito, os dias em que as coisas aconteceram. Saudade talvez é lembrar de várias coisas e misturar tudo numa lembrança só fazendo um redemoinho sólido de algo em que só colocamos as coisas boas que nos apetecem. Dos altos e baixo que vivemos, somente os altos. Que os baixos caiam no esquecimento, mas não sumam da memória.
Lembrar não é refazer, muito menos reproduzir. Lembrar é escolher, decidir. É interpretar.
A música te faz lembrar, o embalo, o toque, o carinho e também o cheiro (ato e substantivo). E das lembranças extraímos aquilo que nós faz humanos. O registro é humano, mas não a razão. A lembrança é humana e é a lembrança que nos atravessa quando ouvimos, vemos ou sentimos (o cheiro).

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Barulhos e cores

As máquinas tilintavam por dentro devido às peças de metal embutidas nas roupas que giravam. Pegou o cesto e procurou uma máquina vazia onde despejou as roupas, o sabão, o amaciante e o toque final que havia recebido de uma amiga que há anos já praticava tal ritual: o desinfetante. Não desses de limpar o chão, mas um especial para roupas que você coloca no lugar do alvejante e as peças ficam mais protegidas dos vestígios microscópicos de tantas outras anônimas que visitam o local. Toda a filosofia desceu pelo tanque ao perceber que esquecera o produto.
Parou por um instante observando sua máquina.
As outras tilintavam. 
Optou pela lavagem mesmo assim. Lia seu livro durante o ciclo e volta e meia aparecia alguém, mas ninguém interessante o suficiente para chamar sua atenção. Quando levantava os olhos para descansar a vista, estudava as outras roupas nas outras máquinas. Algumas rodavam tão rápido que mal conseguia distinguir as cores das peças. Lembrou das aulas de ótica no colégio. Tudo que via era um borrão cinza "Mas não era pra ser branco?" pensou.
Ao lado de sua máquina, o ciclo ia terminando e a força centrípeta já não mantinha as roupas nas paredes. Coloridas. Vermelho, verde, rosa, amarelo. Quem seria o dono de tais peças?
"Centrípeta ou centrífuga?" perguntou para si mesmo, mas a memória não lhe respondeu.
Voltou ao livro e ao conflito das personagens. A cena colocada, personagens presentes e o conflito em jogo. Baixou o livro para ver novamente e percebeu que o borrão cinza (que devia ser branco) começava a ganhar cor.
As máquinas tilintavam e a sua parou. Levantou-se, deixou o livro num canto junto ao amaciante e o sabão, tirou as roupas da máquina sem se importar com as peças pequenas que caíam no chão vez ou outra. Tudo recolhido, levou-as para a secadora. Mais um ciclo.
O plano era terminar o livro ali mesmo. Faltava pouco, mas logo a secadora também parou e o epílogo ficou para aquela mesma noite, na cama, angariando forças para trazer o sono que andava tão desequilibrado. 
Juntou as peças no cesto novamente recolhendo sem muita preocupação as que caíam no chão involuntariamente arrastadas pelas peças maiores. Juntou livro, roupas, sabão e amaciante no mesmo cesto e retirou-se deixando apenas o silêncio que constantemente era interrompido pelo tilintar das peças de metal embutidas nas roupas que giravam.

Ouvindo "Canção do Amanhecer" com Tom Jobim e Edu Lobo.