Parou por um instante observando sua máquina.
As outras tilintavam.
As outras tilintavam.
Optou pela lavagem mesmo assim. Lia seu livro durante o ciclo e volta e meia aparecia alguém, mas ninguém interessante o suficiente para chamar sua atenção. Quando levantava os olhos para descansar a vista, estudava as outras roupas nas outras máquinas. Algumas rodavam tão rápido que mal conseguia distinguir as cores das peças. Lembrou das aulas de ótica no colégio. Tudo que via era um borrão cinza "Mas não era pra ser branco?" pensou.
Ao lado de sua máquina, o ciclo ia terminando e a força centrípeta já não mantinha as roupas nas paredes. Coloridas. Vermelho, verde, rosa, amarelo. Quem seria o dono de tais peças?
"Centrípeta ou centrífuga?" perguntou para si mesmo, mas a memória não lhe respondeu.
Voltou ao livro e ao conflito das personagens. A cena colocada, personagens presentes e o conflito em jogo. Baixou o livro para ver novamente e percebeu que o borrão cinza (que devia ser branco) começava a ganhar cor.
As máquinas tilintavam e a sua parou. Levantou-se, deixou o livro num canto junto ao amaciante e o sabão, tirou as roupas da máquina sem se importar com as peças pequenas que caíam no chão vez ou outra. Tudo recolhido, levou-as para a secadora. Mais um ciclo.
O plano era terminar o livro ali mesmo. Faltava pouco, mas logo a secadora também parou e o epílogo ficou para aquela mesma noite, na cama, angariando forças para trazer o sono que andava tão desequilibrado.
Juntou as peças no cesto novamente recolhendo sem muita preocupação as que caíam no chão involuntariamente arrastadas pelas peças maiores. Juntou livro, roupas, sabão e amaciante no mesmo cesto e retirou-se deixando apenas o silêncio que constantemente era interrompido pelo tilintar das peças de metal embutidas nas roupas que giravam.
Ouvindo "Canção do Amanhecer" com Tom Jobim e Edu Lobo.
Ouvindo "Canção do Amanhecer" com Tom Jobim e Edu Lobo.
Centrípeto é como você se encontrava na lavanderia.
ResponderExcluirCentrífugo era o movimento da máquina para secar as roupas.
Cuide-se, valorize mais o sono.
Sua mãe.
Quer dizer: Maria Aparecida disse...
ResponderExcluirAdorei. O ordinário ganha tilintares e cores diferentes com o olhar "certo". E tarefas cotidianas sempre podem render boas histórias.
ResponderExcluirBeijo