quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Barulhos e cores

As máquinas tilintavam por dentro devido às peças de metal embutidas nas roupas que giravam. Pegou o cesto e procurou uma máquina vazia onde despejou as roupas, o sabão, o amaciante e o toque final que havia recebido de uma amiga que há anos já praticava tal ritual: o desinfetante. Não desses de limpar o chão, mas um especial para roupas que você coloca no lugar do alvejante e as peças ficam mais protegidas dos vestígios microscópicos de tantas outras anônimas que visitam o local. Toda a filosofia desceu pelo tanque ao perceber que esquecera o produto.
Parou por um instante observando sua máquina.
As outras tilintavam. 
Optou pela lavagem mesmo assim. Lia seu livro durante o ciclo e volta e meia aparecia alguém, mas ninguém interessante o suficiente para chamar sua atenção. Quando levantava os olhos para descansar a vista, estudava as outras roupas nas outras máquinas. Algumas rodavam tão rápido que mal conseguia distinguir as cores das peças. Lembrou das aulas de ótica no colégio. Tudo que via era um borrão cinza "Mas não era pra ser branco?" pensou.
Ao lado de sua máquina, o ciclo ia terminando e a força centrípeta já não mantinha as roupas nas paredes. Coloridas. Vermelho, verde, rosa, amarelo. Quem seria o dono de tais peças?
"Centrípeta ou centrífuga?" perguntou para si mesmo, mas a memória não lhe respondeu.
Voltou ao livro e ao conflito das personagens. A cena colocada, personagens presentes e o conflito em jogo. Baixou o livro para ver novamente e percebeu que o borrão cinza (que devia ser branco) começava a ganhar cor.
As máquinas tilintavam e a sua parou. Levantou-se, deixou o livro num canto junto ao amaciante e o sabão, tirou as roupas da máquina sem se importar com as peças pequenas que caíam no chão vez ou outra. Tudo recolhido, levou-as para a secadora. Mais um ciclo.
O plano era terminar o livro ali mesmo. Faltava pouco, mas logo a secadora também parou e o epílogo ficou para aquela mesma noite, na cama, angariando forças para trazer o sono que andava tão desequilibrado. 
Juntou as peças no cesto novamente recolhendo sem muita preocupação as que caíam no chão involuntariamente arrastadas pelas peças maiores. Juntou livro, roupas, sabão e amaciante no mesmo cesto e retirou-se deixando apenas o silêncio que constantemente era interrompido pelo tilintar das peças de metal embutidas nas roupas que giravam.

Ouvindo "Canção do Amanhecer" com Tom Jobim e Edu Lobo.

3 Comentários:

  1. Maria AparecudaFeb 1, 2012 09:29 AM

    Centrípeto é como você se encontrava na lavanderia.
    Centrífugo era o movimento da máquina para secar as roupas.

    Cuide-se, valorize mais o sono.

    Sua mãe.

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  2. Maria AparecidaFeb 1, 2012 11:22 AM

    Quer dizer: Maria Aparecida disse...

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  3. Adorei. O ordinário ganha tilintares e cores diferentes com o olhar "certo". E tarefas cotidianas sempre podem render boas histórias.
    Beijo

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