quinta-feira, 29 de março de 2012

Aleatoriedades

Hoje quero brindar o inbrindável
correr o incorrível
beber o imbebível
e sofrer o insofrível

Quero pular do ponto mais alto
e cavar o poço mais fundo

quero você, você, você e você
quer ouvir sim, não e talvez
quero dizer
quero você

hoje acordei com sono
e o Sol me fez levantar
o vento me fez acordar
mas eu andei pelo mundo
e vi que era triste
e vi que não tinha sentido em:
brindar o inbrindável
correr o incorrível
beber o imbebível
e sofrer o insofrível

então eu voltei pra cama


**


Ouvindo a versão de "Autumn Leaves" de Miles Davis e John Coltrane. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Tinta e pele

"E essa?" ele perguntou.
"Essa eu fiz quando tinha uns dezessete. Por impulso mesmo." ela respondeu.
"É... Dá pra ver!" ele brincou.
"Acho feia, mas ainda assim representa algo pra mim." ela explicou.
"E essa? Parece recente!" ele apontou.
"É, fiz no ano passado. O jeito que ela circula a antiga me faz lembrar que amadureci."
"Precisa lembrar sempre disso?" ele perguntou levantando as sobrancelhas.
"Eu preciso!" ela respondeu com um sorriso encabulado.
"Isso diz muito sobre você!" ele disse e tomou um gole do café.
"Você não tem nenhuma?" ela disse levantando o braço dele em tom de brincadeira.
"Não!"ele riu "Acho que tenho outros métodos para perceber que amadureci."
"Por exemplo?" ela inquiriu.
"Não sei... Lembrando das coisas! Das merdas que fiz, sei lá! Não fazer de novo!" ele disse meio incomodado.
"Eu fiz muita coisa errada..." ela disse levando as duas mãos ao queixo e o olhar pra qualquer lugar menos ali.
"Pelo menos você tem onde lembrar! Eu corro o risco de fazer tudo de novo..." ele disse olhando nos olhos dela que lentamente voltavam.
"É..." sem que ele protestasse, ela roubou o docinho que vinha com o café dele "Você devia fazer uma..." ela disse.
"Você acha?" ele perguntou com um sorriso.
"É... A mulherada adora!" ela brincou e ele gargalhou.
"Não quero sentar num Café daqui dez anos dizendo que me arrependi!" ele disse.
Ela riu desconcertada. Ele tentou concertar:
"Não foi o que quis dizer!"
"Eu entendo! Não se preocupe!" ela o tranquilizou.
"Só não é meu estilo, entende?" 
"Eu sei!" ela sorriu.
"Eu faria coisas terríveis! Experimentaria de tudo! Acredite!"
Ela fez que sim com a cabeça. Ele continuou:
"Dai pra cravar uma coisa em minha pele pra sempre é outra coisa!"
"Eu te entendo! Não quero te convencer nem nada."
"Eu sei! O que eu quero dizer é que daqui um tempo eu já não serei mais o mesmo, daqui dez, cinco, dois anos. Quando a gente se despedir eu já serei outro, entende? E você também."
"Verdade..." ela disse pensativa.
"De qualquer modo eu admiro sua coragem! Cada uma delas diz uma coisa sobre você e todas dizem outra coisa em conjunto. Eu acho bonito. E acho mais bonito ainda porque não foi uma ou duas com uma frase em latim que a galera faz só pra institucionalizar a juventude ou rebeldia repreendida, você me entende? Elas são parte de você e de algum modo elas são você!"
Ela ficou um tempo em silêncio.
"Nunca tinha pensando por esse lado... Meu pai não ligou da primeira, mas quando viu minhas costas ele quis me matar, mas eu já estava prestes a sair de casa então foi tranquilo. Dai as outras foram vindo com o tempo."
"Você quer fazer outras?" ele perguntou.
"Talvez! Não agora, mas vai saber da minha vida?" ela disse dando de ombros exageradamente.
"Vai saber?" ele disse repetindo o gesto.
Eles riram e uma música ao fundo fez o assunto mudar.

Angelina Jolie por Annie Leibovitz
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Ouvindo "Tatuagem" de Chico Buarque.

terça-feira, 20 de março de 2012

Memórias de um corredor

É primavera e as flores começaram a aparecem. Galhos secos que ornamentavam as árvores são substituídos pelo rosa, amarelo e violeta que dão o tom da nova estação. A corrida se aproxima. Não vou participar, mas vou me juntar ao treino dos corredores de plantão da West Main Street. No inverno, ninguém se aventurava, mas agora o tempo pede e às seis e meia da tarde é minha hora de partir. Coloco o tênis, seleciono as músicas e saio na corrida diminuindo o passo sempre que o cansaço pede. Faz tempo que não corro ou pratico qualquer coisa. Tentei nadar, mas as complicações do percurso me desanimaram. Tentei correr na esteira, mas o clima de academia me deprime. Corpos suados em busca de qualquer coisa. Saúde? Beleza? Sei lá, mas me deprime. Nada melhor que correr na rua então, na calçada, junto de outros corredores que se preparam para a corrida que se aproxima.
A rua tem mais vida e não me cobra nada. Na rua não tem televisão como na academia, tem carro apressado, gente andando, cachorro brincando, criança chorando e a garçonete que sempre me cumprimenta com um sorriso ainda que nunca tenha parado ali para tomar um suco ou provar um sanduíche. Na rua tem de tudo e mais um pouco. Tem café na esquina, arte na galeria, mercadinho no final. Corro até a South Boulevard e volto.
Quatro quilômetros e meio, ida e volta. Todo dia! Esse é o plano! Pouco, mas é um recomeço.
"Preparando pra corrida?" um conhecido pergunta ao me encontrar no meio do caminho.
"É..." eu minto para evitar a longa explicação e sigo correndo.
"É mais um passatempo! Me ajuda a pensar!" devia ter dito.
A temperatura amena me permite fazê-lo e faço sozinho.
Ao voltar, o banho relaxa o corpo recém exercitado e pela primeira vez sinto um certo alívio. 
Deve ser a cabeça mais leve. Achei um horário bom, um tempo bom e me achei na rua. A rua que me oferece um cenário diferente a cada dia me acolheu sem nem querer saber meu nome, assim, sem mais.

Pôr do Sol em Richmond (ainda era inverno)

Ouvindo "Fotografia" com João Gilberto ao vivo.

terça-feira, 6 de março de 2012

Dois Amigos - Parte I

O cinza cobriu o azul e o vento fresco, porém forte, anunciava uma tempestade.
"E como foi isso?" ele perguntou enquanto esperavam pelo pedido.
"Isso o quê?" ela retrucou.
"Virar mãe tão cedo..." explicou.
"Foi difícil no começo! Toda a pressão e tudo, mas depois passou."
"Deve ter sido difícil!" ele supôs.
"Foi no começo, mas dai é encarar os fatos. Além disso, depois que você vê aquela carinha, aquela coisinha frágil nos seus braços, e saber que aquilo é parte de você. Não tem como não se derreter."
O trovões retumbaram lá fora. Ele riu.
"Não sei se vou sentir isso algum dia!"
"Vai sim! Pelo que te conheço você vai!"
"Talvez, mas agora não é o momento." ele titubeou.
"Não foi isso que quis dizer! Isso pode acontecer em qualquer hora. Calhou de acontecer mais cedo comigo. Foi até bom! Quebrar esse ciclo da vida pós-moderna de conquistar uma porção de coisas e depois pensar em criar filhos. Você já está tão cansado ou tão atolado em trabalho que vai acabar criando de qualquer jeito."
"Eu sinto um tom meio conservador nesse argumento." ele observou.
"Meu Deus! Não precisa notar "tons no meu argumento"! A gente só está almoçando!" ela disse ao pegar seu pedido no balcão.
"Desculpe! Essa coisa de família me incomoda! Envolve uma série de questões que eu ainda não tenho formulada na minha vida." ele se explicava enquanto andavam para uma mesa livre.
"Ai não! Vamos na janela!" ela disse.
"Mas vai chover daqui um minuto!" ele reclamou.
"A gente fecha!" e sentou-se. Ele a seguiu.
"Uma amiga minha me falou uma vez que a gravidez é o último estágio da formação biológica da mulher." ele contou.
"Ótimo! Nem precisei esperar tanto!" ela sorriu.
"Antes mulher que menina!" ele também sorriu "Vi umas fotos de você quando mais jovem! A diferença é incrível! Acho que minha amiga tinha razão!"
"Todo mundo muda muito nessa fase, especialmente as mulheres, mas admito que a gravidez tenha ajudado."
"Não digo só fisicamente, você parece mais madura mesmo. Seu olhar, não sei. Não te conheci naquela época, mas consigo imaginar."
"Você pode parar?" ela pediu.
"O quê?"
"Não estou no clima para flertar." ela desviou o olhar.
"Mas eu..." ele se recostou na cadeira e deu um longo suspiro "Não se pode elogiar mais ninguém hoje em dia..."
Ela sorriu "Não me subestime!"
"Não estou! Só estava te elogiando..."
"Como está seu lanche?" ela mudou de assunto.
"Se estivéssemos num filme eu diria que tinha perdido o apetite!" ele brincou.
"Dramático!" ela riu dando uma mordida generosa no seu próprio lanche.
"Acho que posso retirar qualquer elogio depois de ver você comendo!"
Os dois riram e a chuva começou a cair. 


Ouvindo "Nicinha" com Caetano.