quinta-feira, 26 de abril de 2012

Segredos de lanchonete

Era dia, à tardinha, e eles se encontraram.
"Não sei se isso é certo..." ela disse.
"E por que veio?" ele replicou.
"Não sei... Acho que queria te ver."
"Então é certo?" ele perguntou.
"Claro que não!" respondeu quase sem deixar ele terminar.
Silêncio.
Ele quebrou.
"Deixa ser... Que nem naquele som dos Beatles!"
Pegou na mão dela que esboçou algum sorriso.
"Melhor não." resignou-se.
"Pessoa certa e hora errada, não é?" ele perguntou meio cabisbaixo.
"Acho que sim." resignou-se mais uma vez.
E se despediram antes que a noite caísse.


"registro de uma tarde perdida" por Mari Waechter
















Ouvindo "Aquellos Ojos Verdes" com Nat King Cole.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Dia dos discos

Nesse sábado além de ser o dia do grande herói da nossa pátria é também o dia da Loja de Discos e a maioria das lojas dá descontos especiais para LPs novos e usados. A questão é que aqui em Richmond, por conta da conceituada School of Art a população hispster é de oito por metro quadrado (quase a mesma que a da minha querida Rua Augusta) então a cidade tem um bocado de lojas de vinis e nesse dia, ouvi dizer, rola um fervor entre os record lovers. Não tenho toca-discos nem nada, mas não consigo fugir de uma promoção de coisa velha. Um dia saí de um sebo da Rua Martins Fontes com dez LPs por um preço baixíssimo. Outro dia comprei outros três numa loja daqui cada um por um dólar (um de bossa nova perdido no meio dos de Jazz).
Lembrei que nessa semana, minha amiga Aline Zuliani postou no Facebook a notícia de que os Los Hermanos vão lançar a discografia deles em vinil. Indignada, ela perguntava aos internautas: "Quem tem um toca-discos?" e eu respondi que vinil ainda era de boa perto de um cara que eu vi vendendo a música dele numas fitas K7 depois de uma apresentação num bar aqui perto da VCU. 
Não seria K7 o cúmulo do "só ouve quem está afim de ouvir mesmo"?
Enfim, de qualquer modo minha amiga que me perdoe, mas eu não consigo perder uma promoção, nem que seja de vinis! Qualquer dia arranjo um toca-discos e ouviremos Los Hermanos numa tarde morna de Setembro tomando cerveja e vendo a banda passar, pode ser, Zu?
Nesse sábado, vou dar uma de Durval e cair no saudosismo!

John Cusack em "Alta Fidelidade" (2000) de Stephen Frears

Agora sim, abraços e bom final de semana a todos!

Ouvindo "Anti-Pioneer" do novo CD (ou LP?) da Feist.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Saudades, comida e saudades

Hoje uma brasileira me falou com seu mineiro sotaque "Você está com cara de que está com saudades do Brasil!" e eu nem lembro o que respondi mas sei que dei a boa e velha impressão de sim e não.
É claro que estou com saudades! Só de pensar no santo picadinho das quintas-feiras no restaurante Madrid ali na Caio Prado minhas lágrimas começam a inundar minha bomba de colesterol que eu chamo de prato. 
"Mas você só está comendo besteira?" é o que me perguntaram dia desses pela internet.
Lá vou eu com meu sim e não. O "bandeijão" aqui da VCU é chamado de "Shafer" e até oferece uma variedade básica de refeições. No começo, os alunos mais antigos que encontrei reclamavam da falta de opções enquanto eu me lambuzava nas fatias de pizza de pepperoni e engolia os hambúrgueres bem passados numa enorme grelha, afinal, uma vez dentro do refeitório, você pode comer e beber até que uma luz se abra no horizonte começando a chamar pelo seu nome.

Teto do Shafer Court Dining Center
"Essa galera precisa de cinco minutos de Bandejão da USP pra poder reclamar!" eu pensava julgando essa geração Europeia que só agora está sofrendo na pele as garras malignas do famigerado capitalismo, mas enfim, é inevitável que toda rotina gere certa fatiga e logo eu, o mais pé-rapado da turminha, comecei a reclamar quando percebia que em certos dias as opções menos piores seriam as tais bombas de gordura, mas vez ou outra aparece algo novo e como a camaradagem reina entre os alunos de intercâmbio, as mensagens no celular ou no facebook começam a pipocar "Aproveita que hoje tem frango no Shafer!" ou "Corre pro Shafer que hoje tem carne assada ao molho! Meio borrachuda, mas dá pra engolir!" Eu que não sou besta nem nada, levo sempre umas duas tupperwares na mochila e discretamente, depois de satisfeito, despejo salada num pote e qualquer outra coisa no outro. Se estiver carregando uma garrafa, dá-lhe suco de laranja pra mais tarde e dai economizo meus créditos que já estão acabando, afinal, dia 12 de Maio findam-se as aulas por aqui e no mesmo dia embarco para a Califórnia pra fazer um tour bem manjado pelos pontos turísticos de lá. Ainda fico um tempo hospedado na casa da família do meu colega de quarto mexicano. 
Desejem-me sorte!
Ainda tenho algumas novidades que talvez deixem alguns corações mais apertados pelas terras do Brasil de meu Deus (estou falando da minha mãe), mas ainda não tenho tudo confirmado, portanto deixo para explicar em post futuro.

Enquanto isso, fiquem com uma prévia do documentário que estou fazendo como exame final para uma de minhas aulas abordando o relacionamento dos alunos de intercâmbio entre eles e suas impressões da cultura norte-americana. Um dos tópicos: Culinária Americana!
Pirem no plano-sequência e na trilha sonora!



Abraços e boa semana!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Aborto: crime ou escolha?

Abro a página da Folha e dou de cara com a notícia de que a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal votou em favor de que a gestante possa escolher abortar um feto anencéfalo. A notícia chamou minha atenção pois dia desses enquanto caminhava para uma de minhas aulas, deparei-me com um cartaz que registrava em letras vermelhas "Atenção: cenas fortes de genocídio à frente". Continuei meu caminho até topar com as tais cenas que eram na verdade montagens que associavam o aborto ao holocausto empenhado pelos nazistas contra os judeus durante a Segunda Guerra. Tentei ligar uma coisa à outra no meu pobre cérebro, mas a resposta foi imediata: o ato não tem nada a ver com o fato. Mais à frente, uma garota levava em uma bandeja um pedaço de carne cinzenta ensanguentado que de perto lembrava um feto em formação que, segundo a garota, era mais ou menos o tamanho da criança no útero nos primeiros meses. Meio cínico que sou com qualquer bandeira levantada com muito fervor, seja ela a favor ou contra alguma coisa, continuei meu caminho sem que as "cenas fortes de genocídio" atrapalhassem o meu dia, mas o assunto voltou na mesa do bar umas noites depois já que o evento tomou conta da universidade e não passou despercebido. Alguns apontavam a ação como estúpida, outros discordavam do ato, mas admitiam criatividade e foi então que me perguntaram "O que você achou?" e eu que estava contente com meu copo de cerveja e minha conversa banal com a garota do meu lado dei aquela resposta que me levou direto ao topo do muro "Prefiro não discutir esses assuntos polêmicos!" mas algumas figuras que me conhecem melhor soltaram "Você fala isso por que é a favor de abortar, mas não quer causar!" e eu ri dizendo que só responderia na frente dos meus advogados. Voltei pro apartamento junto com meu colega de quarto mexicano e acabei soltando "Nada a ver relacionar o holocausto com aborto!" e ele respondeu um sim meio sério. Não queria cair na discussão naquela hora, mas ele acabou dizendo que se há fecundação então há vida e eu me joguei pra cima do muro de novo pra evitar conflitos.
A questão é que dificilmente me posiciono aguerridamente à qualquer opinião, o que não significa que aceito tudo que me falam, aliás, nunca tomo nada como verdade absoluta pois qualquer verdade é construída socialmente pelo seu meio (inclusive isso que acabei de falar) portanto eu compreendo alguém que discorda do aborto por questões religiosas afinal a fé e tantos outros conceitos são martelados em nossas cabeças desde que nascemos, em especial a doutrina judaico-cristã que molda os caminhos do Ocidente desde os tempos mais primórdios. Desse modo, crença não é sinônimo de ignorância como muitas pessoas contra o aborto alegam assumindo-se especialmente inteligentes pelo fato de não seguirem qualquer religião adotando um posicionamento niilista que no final carrega tantas convicções cegas quanto qualquer crença religiosa, logo fanatismo é o posicionamento que me irrita. Aquele que tenta vencer no grito, seja de um lado ou de outro. No final, parece que o exagero serve como um calço para o argumento que está faltando. E dai eu volto para o assunto inicial desse texto. Aqueles que são contra o aborto de um feto anencéfalo alegam que apesar da falta do cérebro, o ser em formação possui uma "alma" que deve ser preservada enquanto que quem defende o aborto alega que a ausência do cérebro indica a ausência de uma consciência, portanto, não há vida. Ora, ambas as teorias baseiam-se em argumentos retóricos pautados por meras observações empíricas que tiveram que ser debatidas por oito anos dentro do governo até que se chegasse à conclusão de que cabe aos progenitores a decisão de manter ou não a gravidez. O Estado não está sumariamente abortando todos os fetos anencéfalos, mas sim dando o poder de escolha às mulheres que carregam seres nessas condições.
Sendo assim, acredito que eventualmente o aborto será descriminalizado no Brasil e essa foi só a primeira etapa de um longo processo. Espero também que isso venha acompanhado de campanhas contraceptivas para que aborto não vire festa e as pessoas comecem a achar que gravidez é algo fácil de ser solucionado. Foi por isso que me abstive na conversa de bar pois em assuntos polêmicos, parece que você deve sempre seguir o sistema binário de dizer sim ou não às ideias e nunca tentar propôr soluções mais trabalhadas que vão além de crenças e convicções rasas. Como não disse sim nem não, fui pra cima do muro como um gato preguiçoso que finge não estar atento aos ruídos da madrugada e por lá fiquei.

Placa em apartamento de estudantes em Richmond, capital da Virginia que recentemente recebeu restrições contra o aborto.