quinta-feira, 24 de maio de 2012

O homem de bailarina e a saúde norte-americana

Acordo cedo depois de uma noite de insônia. O que afinal me impediu de dormir direito? Ansiedade com os projetos futuros? Preocupações financeiras? Afetivas? Acadêmicas?
Acordei com sono, mas com a promessa de um café forte que me manteria acordado durante a aula em que discutiríamos o governo Nixon e o filme "Rede de Intrigas" (1976) que aborda os jogos sujos de poder dentro das grandes corporações de TV em busca de audiência. A discussão e o café deixaram a desejar, mas o roteiro cheio de reviravoltas e as atuações excepcionais do filme de Sidney Lumet me mantiveram acordado, no entanto o que me chamou atenção foi outra coisa. Enquanto esperava meu café, assistia ao jornal matinal da NBC que faz a Ana Maria Braga parecer a seriedade do jornalismo em pessoa. Todos aqueles repórteres bem vestidos falando de assuntos completamente desnecessários e entrevistando os mais variados tipos sem o mínimo nexo. É tão ruim que chega a ser engraçado e não me surpreendi ao ver um homem de meia-idade tirando fotos dele mesmo vestindo apenas uma saia rosa de bailarina. "Mais uma besteira!" pensei, mas ao ver as fotos que passavam na tela enquanto o fotógrafo e a mulher eram entrevistados, percebi uma qualidade técnica tanto de composição quanto tratamento de imagem e por algum motivo aquele ponto rosa adornando o tiozinho gordinho no meio de paisagens inusitadas me chamou a atenção.
  
Four Trees ©2012 Bob Carey

Corn Field ©2012 Bob Carey


O tal gordinho se chama Bob Carey, um fotógrafo que desde 2003, quando descobriu que a mulher tinha câncer de mama, resolveu sair pelos Estados Unidos e pelo mundo fazendo autorretratos pouco convencionais como uma terapia que, em sua opinião, explora a fragilidade humana. É através desse humor sutil (ou escrachado?) que ele tira sorrisos das pacientes que, como sua mulher, lutam contra o câncer. Além disso, o Projeto Tutu (como é chamada a saia das bailarinas) arrecada fundos através do site para ajudar mulheres que não tem condições de pagar um plano de saúde que ajude a tratar a doença. Inocentemente, essa empreitada coloca em questão o sistema de saúde norte-americano que é completamente privado e deixa os cidadãos à mercê de planos caríssimos que às vezes não cobrem quase nada. "Não sei como ainda tem tanta gente viva nesse país?" brinquei uma vez com a mulher que cuida da minha papelada aqui na VCU depois de entregar meus documentos provando que tinha tomado todas as minhas vacinas que, falem o que quiserem do SUS, não peguei um centavo para tomá-las enquanto que na "América" qualquer injeçãozinha não sai por menos de US$50 (R$100). E essa mentalidade vai do hospital à Universidade. Recentemente, os republicanos vêm tentando aumentar os valores das faculdade (seja pública ou privada, a Universidade aqui é paga) e Mr. Obama está desesperado lutando contra isso pois afinal não quer perder os votos do jovens para as eleições de outubro.
Não me surpreendo com a indignação da classe média brasileira de ter de pagar tantos impostos e não ver retorno real e imediato, mas me surpreendo com a passividade com que muitos norte-americanos veem seus impostos serem catapultados para objetivos belicosos em nome da "liberdade" dos povos do oriente médio e não para terem um sistema de saúde e educacional gratuito ou pelo menos mais barato. Sem falar que por aqui quanto mais rico for o cidadão, menos ele paga imposto, coisa que os ricaços do Brasil de meu Deus tentam incorporar a todo custo justamente por interesses próprios.
Não quero aqui falar mal dos EUA e deixar a entender que na nossa República Federativa está tudo uma maravilha, mas sim argumentar que cada país tem suas vantagens e desvantagens e não é possível colocar na balança quem está melhor ou pior pois isso só cai numa discussão simplista que fica limitada aos almoços de domingo com aquele tio que ainda acha que no tempo da ditadura é que era bom.
De qualquer modo, é de uma paradoxo descabido ver o Brasilsão como a sexta maior economia do mundo enfrentando problemas que perduram por séculos, mas é também de uma tristeza só saber que um cidadão tirando fotos vestido de bailarina ajuda mais as mulheres com câncer de mama do seu país do que o próprio governo, mas nesse assunto, é claro, os entrevistadores da NBC não se atreveram a tocar e, se bobear, eles nem perceberam pois a mentalidade do "pagar pra ter" está tão impregnada na população que a maioria sequer a questiona e não há fraqueza maior de um povo do que o silêncio apático.


Parking Lot ©2012 Bob Carey

Mais fotos no site do projeto.

 Ouvindo David Bowie com "Young Americans"

3 comentários:

  1. Cayo, um dia estava vendo Jay Leno na Record News aqui em Ribeirão... e eu peguei uma entrevista com o Mitt Romney na metade... ele falando para o Jay Leno se ele gostaria que o governo mandasse no programa dele. O Jay Leno disse que não, de jeito nenhum. E o Mitt: por isso mesmo que não queremos também o governo se metendo na gestão dos hospitais. Quando eu fui estudar saúde pública lá, tbm achei muito estranho a falta de discussões sobre políticas de saúde. Ficou uma impressão de que eles se voltam para a saúde global - e tocam projetos em países africanos, na américa latina, e nem tchum para o próprio umbigo (?). Fiquei com a pulga atrás da orelha.

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  2. Pois é, Ti. Saúde e educação aqui são negócios lucrativos e sempre que qualquer político tenta mudar um tiquinho é acusado de socialista sem nem saberem exatamente o que isso significa. Enfim, sempre que esse assunto vem à tona eu lembro de você: A paladina da saúde pública no Brasil! =P

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  3. Eu estou do lado da prevenção. Se cuide hoje para não precisar de cuidados amanhã.

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