quinta-feira, 14 de junho de 2012

Conversas

O telefone vibrou anunciando a mensagem.
"A porta está aberta." ele respondeu, ela subiu e sentou-se na cama onde ele estava deitado com a cabeça afundada no travesseiro.
"O que foi dessa vez?" ela perguntou pousando a mão carinhosamente em seu cabelo.
"Não sei... Não consegui dormir." ele respondeu.
"Você bebeu ontem?" ela perguntou.
"Não... Não muito..." ele disse escondendo o constrangimento.
"Você não acha que está bebendo demais?"
"Não! Claro que não!" ele virou a cabeça para ela.
"Tudo bem! Não vou bancar a chata..." ela disse lavando as mãos no ar. Ele puxou a mão dela de volta para seus cabelos.
"Criança..." ela continuou o carinho.
"A vida é difícil! Eu não consigo abrir uma página de jornal sem me deprimir todo dia..." ele argumentou.
"Não abra então!" ela replicou.
"Não é assim, você sabe..."
"Então aprenda a conviver! O que deu em você? Cadê aquele menino que conheci que queria mudar o mundo?"
"Ele cresceu..."
"E decidiu ficar enfurnado dentro de casa o domingo todo?" ela questionou.
"Você sabe como domingos me deprimem..." ele virou a cabeça de volta pro travesseiro.
"Eu ficaria surpresa de achar algo que não te deprime ultimamente!"
"Não seja irônica! É sério!" ele reclamou.
"Não! Não é sério! É frescura! Quantas vezes a gente já teve essa conversa?"
Ele fingiu que não escutou e depois de uns segundos de silêncio a puxou para junto dele.
"É só desculpa pra fazer você vir aqui!" ele a beijou no ombro. Fazia calor lá fora.
"Já não sei se vai funcionar da próxima vez." ela disse sem se desvencilhar.
"Eu invento outra história!" ele disse.
"E se eu não aparecer?" ela desafiou.
"Então eu vou até você." ele propôs.
"E se eu não estiver lá?" perguntou.
"Eu te procuro..." decidiu.
"E se não me achar?"
Ele ficou um tempo em silêncio e depois disse brincando:
"Eu dou um jeito!"
Ela riu e perguntou:
"Há quanto tempo a gente está nisso?"
"Não sei..." ele a abraçou mais apertado e depois largou levantando-se "Não quero pensar nisso. Vamos comer alguma coisa?"
"Não posso! Eu disse que passaria aqui só pra ver se você estava bem." falou pulando da cama e indo em direção à porta.
"Mas eu pensei..." ele sentou-se de volta na cama.
"Outro dia, pode ser?" ela disse passando a mão uma última vez em seu cabelo.
"Pode ser..." ele a abraçou e ficaram ali por um tempo como que dançando à uma canção que tocava na imaginação de cada um.
"Tenho que ir!" disse ela voltando à realidade.
"Tudo bem! Depois nos falamos..." ele disse.
"Sim! Claro!" ela o beijou e saiu pela porta.
Ele ainda ficou um tempo sentado na cama. Almoçou sozinho naquele dia.

Cookie monster perdido na cidade grande

Ouvindo Seu Jorge com sua versão de "Life on Mars?"

terça-feira, 12 de junho de 2012

Final de semana felino...

A breguice tomou conta do meu ser.
Não sei se é por conta do dias dos namorados ou por causa da crise que ando passando, mas resolvi embarcar num projeto relâmpago e registrar momentos solitários do Minhoca (Worm), o gato que tive que tomar conta nesse final de semana. Começou com uma brincadeira enquanto ele dormia no meu colo e eu fiz um foto com o celular, depois percebi que o bichino tinha toda uma personalidade digna de um top model.
Eu sei! Eu sei! Não tem nada mais brega que tirar fotos do bichinho de estimação! Ainda mais gatos que vivem parados num canto comendo, dormindo e esperando para serem amados, mas o Minhoca tem só três meses e a energia de quatrocentas pilhas Duracell, portanto, retratar os dias solitários do pobrezinho enfurnado dentro de casa não foi tarefa fácil pois toda hora que ele me via com a câmera, vinha correndo atacar a abelha que ele achava que estava dentro dela. Até tentei fazer uma fotos mostrando o movimento dele, mas não ficaram muito boas.

Essa é a foto mais abacaxi que eu tirei dele:


Confiram as outras clicando AQUI e digam o que acham do projeto mais brega da minha jovem carreira como fotógrafo.
Para quem não viu, também fiz uma tira contando o meu final de semana com ele.

Abraços, até breve e feliz dia dos namorados pra quem tem motivo para comemorar!

domingo, 10 de junho de 2012

Quando morei em repúblicas

Meu curso de verão finalmente acabou. Depois de três semanas, dois trabalhos, uma prova final e uma professora bem chatinha, acabei sobrevivendo aos fatídicos anos setenta em Hollywood e à história dos EUA no mesmo período. Desde a última segunda estou morando numa outra casa (passei por quatro lares nesse verão) sendo essa a última antes de começar a trabalhar. Será o lugar onde ficarei mais tempo e a troca foi justa: três semanas por US$50 pra ajudar na internet e a promessa de que não andaria pelado pela casa e que cuidaria do gato durante os fins de semana enquanto as duas mocinhas que moram aqui voltariam para casa de seus pais. Digamos que ainda estou pensando em alternativas eficientes para arranjar os cinquenta mangos, quebrei a segunda regra uma ou duas vezes, mas não fui flagrado e enquanto escrevo, um gato de três meses pula na tela do computador sem entender porque não consegue morder seus alvos. Ah! Os gatos...
Lembro quando morava numa república no Jd. Bonfiglioli e meu amigo Verde resolveu comprar um felino para sua namorada Mariana que morava com a gente. O dia dos namorados se aproximava e ele veio cheio de dedos conversar com cada morador da casa (na época eram seis) mas ele só teve que conversar com quatro já que um deles teria uma surpresa. Todos concordaram meio com o pé atrás, mas admito que a coisa que faltava naquela casa era um bichinho. Acho que no fundo ele estava comprando para ele. Já havia um tempão que morávamos em república, mas lembro até hoje quando no primeiro semestre da faculdade a gente visitou a casa do Lucas, um amigo nosso que estudava no Instituto de Artes da UNESP quando ainda era no Ipiranga. O sobrado ficava numa vila tranquila do bairro e era um verdadeiro muquifo - livros jogados por todo canto, móveis empoeirados, um cara que não parava de fumar e sua namorada que só dormia, um gato gordo que nos encarava com seu único olho e uma cozinha que mais parecia um depósito de restos de comida. Ainda assim, o Verde e eu nos encantamos com a ideia de morar longe dos pais e perto da faculdade, colar qualquer porcaria na parede e fazer o que bem entendêssemos. Seis meses depois estávamos assinando o contrato de trinta meses de um sobrado numa viela no Caxingui, bairro vizinho à USP. Em muitos aspectos a casa se parecia muito com a do Ipiranga com a exceção de que tentamos mantê-la menos bagunçada apesar de alguns momentos e moradores que contribuíram com certas situações que se reservam a histórias engraçadas contadas em mesa de bar.
Ainda mudamos para dois outros apartamentos e moramos com um bocado de gente que para o bem ou para o mal fizeram parte de nossas vidas. Lá pro final me vem o Verde com essa ideia de comprar um gato. E foi assim que a Lilú fez parte da República por uns seis meses até que a Mariana voltou para as terras distantes de Mauá. Na realidade, acho que o Verde só estava esperando o momento certo para arranjar um gato e finalmente igualar nosso lar àquele que nos inspirou. Pouco tempo depois foi ele quem voltou para os confins da Vila Cisper e eu também me mudei deixando o apartamento a ser tocado por outras pessoas que vivenciariam tantas outras experiências por lá. 
Foi um tempo bacana e acho que toda essa história de ficar mudando de casa, cuidar de um gato e lidar com gente ainda no meio da faculdade me fez lembrar de tudo isso com um leve sorriso no rosto. Pois é, a saudade aperta, mas não sufoca.

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Esse é um vídeo que fiz da Lilú lutando pela sua vida contra um pedaço malígno de papel.
Achei que ia virar um hit no Youtube tipo aquele gato que pula nas caixas, mas não rolou...


É isso! Abraços e boa semana a todos!

Ouvindo Errol Garner com "All of Me"