segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sobre memória

Era um dia ensolarado.
"Pai, como você e a mãe se conheceram?" perguntou enquanto caminhavam de volta do supermercado.
"Eu já não te contei?"
"Não!"
"Foi na época da faculdade... A gente morava perto um do outro."
"Só isso?"
"Não... A gente se encontrou numa locadora."
"Numa o quê?"
"Antigamente a gente alugava filmes, não via tudo pela internet."
"Mas a gente vê pela tevê."
"Sim! Que é ligada na internet." explicou o pai.
"É mesmo... Mas e a loucadora?"
"Locadora! Sem o U! Era onde a gente alugava filmes!"
"Não devia ser alugadora então?"
"Locar significa alugar!" explicou o pai.
"Entendi..." ele deu mais alguns passos, ajeitou as sacolas nas mãos e continuou "E ai?"
"Bom, um dia eu estava procurando um filme pra assistir..."
"Não tinha internet naquela época?" o filho interrompeu.
"Tinha, mas eu queria alugar o filme e não baixar."
"Você baixava filmes? Eu vi em algum lugar que isso é errado..."
"Na época não tinha problema."
"Sei... E porque você não baixava um filme ao invés de alugar?"
"Porque baixando na internet eu não tinha a chance de escolher entre várias opções na prateleira."
"Que estranho... É tão mais fácil ver pela internet da tevê."
"É, mas não tem o charme de escolher o filme, achar uma preciosidade, conversar com o atendente sobre filmes e futebol, essas coisas... Aquela era uma das últimas locadoras do bairro. Hoje tem um prédio no lugar. Eu te mostrei uma vez quando passamos por lá! É um prédio muito feio, todo cinza, lembra?"
"Não..." ele disse como se não tivesse prestado atenção na pergunta.
"Você é mesmo filho da sua mãe... Cuidado com o sinal!"
O garoto parou no braço do pai. Voltaram a andar e ele perguntou.
"Mas e ai?"
"E ai o quê?"
"Você e a mãe!"
"Ah! Sim! Um dia eu estava lá escolhendo um filme e eu vi essa menina simpática na seção de filmes clássicos."
"Filmes clá...?"
"Filmes antigos!" respondeu antes que o filho terminasse.
"Tipo "O Rei Leão"?"
"É, um pouco mais antigos. Tipo preto e branco. Tipo Charlie Chaplin, lembra que eu te mostrei?"
"Lembro! Tipo engraçado!"
"É... Também..." desistiu de tentar explicar "De qualquer maneira, ela estava lá e eu me aproximei e sugeri um filme francês que eu já tinha visto. Só pra parecer inteligente!"
"Você é bom em matemática?" o menino perguntou.
"Como assim?" o pai voltou do transe que se encontrava ao contar a história.
"Na escola tem um menino que é bom em matemática e a professora disse que ele é inteligente."
"Inteligência não se mede em números!"
"Como se mede então?"
"Não se mede!"
"E como você tentou parecer inteligente para a mãe na loucadora?"
"É locadora! E eu só estava tentando impressionar."
"E deu certo?"
"Não! Ela deu um sorriso sem graça, pegou o filme dela e foi embora."
"E o que você fez?"
"Nada..."
"Nada?"
"É! Peguei meu filme e fui embora pra casa."
"Você devia ter ido atrás dela!"
"Isso não dá certo!"
Já estavam perto do prédio.
"Você devia ter ido lá de novo! No mesmo horário, todos os dias até encontrar com ela de novo!"
"Como num filme?"
"É!" o filho respondeu categórico.
"Mas não fiz nada disso."
Passaram pela portaria.
"Pai..."
"O quê?"
"Eu perguntei pra mãe como vocês se conheceram..."
"E o que ela disse?"
"Ela disse que vocês conheciam as mesmas pessoas e se conheceram no aniversário de alguém."
"É..." entraram no elevador "Depois de um tempo eu a encontrei de novo! Eu descobri que a gente tinha muito amigos em comum. E dai a gente se conheceu de verdade e começou a namorar. Depois de um tempão você apareceu." o pai explicou.
"Por que ela não falou da lou... Da locadora?"
"Sua mãe não lembra de nada!" falou abrindo a porta do apartamento.
"Mãe, o pai falou que você é esquecida!" falou ao entrar correndo pelo apartamento.
"E eu tenho um filho dedo-duro!" falou para si mesmo enquanto fechava a porta.

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Ouvindo The Strokes com "I'll Try Anything Once ('You Only Live Once Demo)"

sexta-feira, 20 de julho de 2012

"Hallo" da Alemanha

Se tem uma coisa que detesto fazer é planejar viagem. Você começa a ver o preço das coisas, a cotação do dólar, do euro, da gruta que caiu e o desânimo começa a bater. Dai você dá de cara com o mapa do metrô de Berlim e já repensa a sua viagem. Quantas camisetas vou levar na mala? Só vou levar as mais cool. Mas e se eu trombar com um neonazista na esquina e ele não gostar do desenho na minha roupa? Quantos tênis? Vou andar bastante? Então melhor aquele confortável. E blusa? Mas é verão na Europa!
"O verão mais frio em muito tempo!" foi o que me disseram.
Planejar viagem é um saco, mas tem gente que adora isso. Ficam contando os dias antes de embarcar. Parece que a ansiedade satisfaz mais que o objetivo em si. E não que eu não goste da ansiedade. Sempre preferi as sextas aos sábados. As vésperas aos feriados. Aquela sensação de sair do trabalho e ter aquele montão de nada pela frente. Aquele monte de filmes que você ficou de assistir, os livros pra ler, o dia pra andar, os amigos pra conversar e o chamego de noite para os mais espertos. Bem melhor do que aqueles momentos em que você lembra que no outro dia tem que ver a cara daquele seu colega de trabalho inconveniente que adora bradar as mazelas do país sem perguntar se você está interessado em ouvi-lo. Posso até gostar da ansiedade, mas planejar não está pra mim e o mais louco é que quando chego no meu destino e me encontro perdido, fico brigando comigo mesmo dizendo que deveria ter planejado a viagem. A primeira vez que fui pra Nova York, anotei nuns papéis os lugares que queria conhecer e acabei esquecendo esse papel em algum lugar no meu quarto. Foi a melhor coisa que pude fazer pois apesar do sufoco inicial para encontrar o hostel no Brooklyn, pude sair pela cidade sem rumo.
E foi mais ou menos nesse esquema torto que eu cheguei em Munique na Alemanha. O salário que iriam me pagar na segunda foi atrasado para quarta, mas minha passagem já estava comprada e não tinha como adiar. Cheguei na cidade com minha mochila, uma mala média e outra gigantesca com todas as bugigangas que eu trouxe de Richmond. Era a primeira vez em que eu chegava num país em que não dominava a língua de jeito nenhum e o inglês seria minha salvação. Ainda bem que a maioria dos Alemães, pelo menos nas cidades grandes como Munique sabem falar a língua da rainha. Eu só não contava com o sotaque carregadíssimo, mas isso a gente dá um jeito.
Ao chegar na terça, eu não tinha ideia de como pegaria meu dinheiro na quarta. Tinha uma merreca que troquei por euros e fui pro primeiro hostel que encontrei (falando assim parece fácil, mas tive que ir pra lá e pra cá com minhas malas pelo metrô do Munique cheio de conexões e estações com nomes impronunciáveis). Chegando no hostel, consegui falar com o Jan, o alemão que dividia a república comigo em São Paulo. Eu já prevendo que o fuso horário atrapalharia minhas transações financeiras com o banco nos EUA, expliquei pra ele a situação e ele me comprou uma passagem para sua cidade, Darmstadt, perto de Frankfurt. Como eu ainda tinha tempo, fui visitar a antiga capital da Bavaria.

Prédio em Munique (clique aqui para mais fotos)

A viagem de trem que não teria nenhuma conexão foi mais longa que o previsto e virou mais um capítulo da minha novela europeia que com certeza vai merecer uma tira. A questão é que depois de ser expulso do trem por um erro na impressão da passagem, consegui chegar em Darmstadt são e salvo e o Jan pode me acolher em sua casa e me levou para tomar uma cerveja local. Agora que meu dinheiro caiu na conta e eu estou começando a entender umas palavras soltas de Alemão, o país não me parece tão hostil. Semana que vem vou pra Berlim! Melhor me planejar melhor... Ou não...

Sempre que arranjar tempo colocarei as fotos da viagem nesse álbum do Flickr.
Não esperem fotos turistonas que nem as da California. Talvez uma ou duas ou seis, mas não mais que isso.

Abraços e até breve!

Câmbio desligo!