terça-feira, 30 de outubro de 2012

Quando as folhas caem

Lá estava eu esperando para ser entrevistado. Uma menina de uns seis anos estava sentada à minha frente.
"Duvido você adivinhar o meu nome!" ela me disse e antes que eu pedisse ela deu a dica:
"Começa com I."
"Iara!" mandei certeiro.
"Não!" ela respondeu rapidamente.
"Ingrid?" chutei.
"Nãããão!" disse zombando de mim.
"Não sei! Dá outra dica!" eu pedi impaciente.
"Começa com I e termina com A."
"Iracema, acertei?" eu disse sabendo que tinha errado.
"Não! É Isabela!" ela respondeu antes que eu tentasse mais.
"Ah! É mesmo..." e eu voltei a tamborilar os dedos no braço do sofá.
"E o seu nome?" ela perguntou.
"Caio." falei sem dar tempo para ela querer adivinhar.
"Tenho um amigo que se chama Caio..." ela disse pensativa.
"É um nome muito comum hoje em dia." eu expliquei.
Ela ficou me olhando meio que sem entender muito bem o que eu tinha dito e quebrou o silêncio:
"Vem da natureza, né?"
"O quê? O nome? Não sei..." eu disse.
"Claro que não! Menina doida!" pensei.
"Acho que sim! Veja bem, as folhas caem..." e ficou lá pensando.
"É... Pode ser..." eu disse em tom duvidoso.
"Vem da natureza sim! Olha! As folhas caem e elas vêm da natureza!" disse tomando seu argumento como fato.
Antes de ser chamado eu ainda tive tempo de responder à minha nova amiga:
"É! Com certeza!"
Respondi convicto, afinal, as folhas realmente caem.

Bebê na Leicester Square, Londres, 2012

Ouvindo "Tempo de Estio" do Caetano.

sábado, 20 de outubro de 2012

Sobre direção de fotografia, Walter Carvalho e algumas derrotas diárias...

Ontem fui ao Museu de Imagem e Som (MIS) e tive o prazer de presenciar o depoimento de Walter Carvalho sobre os filmes que marcaram sua vida. Ele é um dos grandes diretores de fotografia do Brasil, participando de filmes como "Central do Brasil", "Abril Despedaçado", "A Febre do Rato" entre muitos outros.
Ver aquele senhor de seus sessenta e cinco anos falando de suas referências numa humildade de amador foi uma experiência e tanto. A sala estava vazia, umas cinco pessoas no pequeno auditório mais os funcionários que foram convocados para dar corpo à plateia e outros funcionários que ficavam furiosos sempre que alguém decidia sentar no caminho da câmera que apontava para aquele senhor paraibano de óculos redondos que discorria sobre os filmes que mais lhe marcaram.
"Meu contato com o cinema foi pela pessoas, não pelo cinema em si." ele começava seu depoimento que num primeiro momento parecia não ser permitido que fizéssemos perguntas. 
"O primeiro filme que vi foi num livro." referindo-se ao clássico curta francês "Le ballon rouge" de 1956 que estava num livro que foi dado pelo seu irmão Vladimir Carvalho que já era cineasta.
Depois de contar seu contato com o Cinema Novo e de como foi entrando no ramo, ele soltou aquilo que eu mais esperava "Vocês não querem perguntar nada?" mas todo mundo ficou calado e ele seguiu com seu depoimento. "Merda! Devia ter perguntado alguma coisa, mas o quê?" pensei comigo.
Um cabeludinho finalmente perguntou alguma coisa e depois uma mulher também e quando o evento já ia se dando por encerrado ele perguntou "Mas vocês não querem saber mais nada?" como que querendo fazer valer a viagem do Rio até São Paulo, como que não querendo deixar aquele momento passar em vão. Foi dai que me prontifiquei e perguntei quem eram suas referências quando o assunto era direção de fotografia já que até ali ele só havia citado filmes e diretores. O velho deu um sorriso e começou a citar diretores japoneses e outros grandes nomes como Gordon Willis, diretor de fotografia de "O Poderoso Chefão" e seus ídolos máximos Sven Nykvist e Christopher Doyle que respectivamente fizeram a fotografia de "Gritos e Sussurros" de Bergman e "Amor à flor da pele" de Wong Kar-Wai, dois filmes que deixam qualquer amante de cinema num êxtase indescritível muito em conta, é claro, por sua fotografia. "Esses caras são o demônio!" disse.
Ele também contou de como foi quando conversou com Nykvist antes e depois de uma sessão de "Central do Brasil" na Macedônia e que após a exibição do filme eles conversavam como se fossem grandes amigos justamente por se entenderem no quesito fotografia. Ele então começou a discorrer sobre o que ele achava da fotografia em si alegando que ele gostava de fazer com que o objeto fotografado deixasse se sê-lo e se tornasse outra coisa, além daquilo. Falava tudo aquilo e me olhava como se soubesse que talvez fosse aquilo que eu precisasse ouvir naquela hora, como aquele político que olha nos seus olhos no horário político, aquela pessoa recitando aquele seu poema predileto ou aquela música que começa a tocar na hora certa. Ao final, fui cumprimentá-lo ao que ele devolveu com um sorriso, um aperto de mão e um "Eu que agradeço sua presença!" e fui pegar meu ônibus em direção ao Banco do Brasil que por algum motivo mantém minha conta bloqueada sem razão aparente. Perdi minha tarde no banco sem que o problema fosse resolvido e por conta disso não consegui enviar pelo correio uma série de fotos para um concurso que ia participar. De noite ainda fui para um curso de "retratos estranhos" que estou fazendo no Sesc aqui perto de casa, mas depois de ouvir os grandes, a gente sempre se sente um pouco mais pequeno, num bom sentido é claro.
Hora de revisitar os clássicos!

Uma das fotos da série que não consegui enviar

Um abraço e até breve!

Ouvindo a antiga "Love, Love, Love" do Caetano.