quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O Encontro

Foi parado na rua por um indivíduo sorridente, desses que não se parecem com ninguém, mas podem ser confundidos com qualquer um.
"Nossa! Quanto tempo! Como é que você está?"
"Err... Bem, e você?"
"Vou indo. E você? Se formou? Conseguiu emprego? Casou? Teve filhos?"
"Err... Me formei. Estou na segunda graduação agora. Fico pulando de emprego em emprego."
"E os filhos?"
"Err... Filhos?"
"Você não teve filhos?"
"Err... Não... Não... Ainda não... Quero dizer... Não..."
"Mas como não? Todo mundo da turma teve filho, o Betinho, a Dani, o Pequeno, lembra do Pequeno?"
"Err... Na verdade não..."
"Como não? O Pequeno era o espírito da turma, a alma da galera. Grande cara o Pequeno."
"Err... Não me lembro não..."
"Ah! Que importa? Esse pessoal tá em outra. Tudo com filho. Mas e você, fala de você! Casou?"
"Não. Não casei."
"Mas você não saía com a Bete? A Bete era ótima. Sempre achei que vocês fossem casar."
Ele ficou por alguns instantes procurando alguma Bete em seu banco de memória. Já saíra com um bocado de pessoas, mas não se lembrava de nenhuma Bete em específico.
"A Elisabete?"
"Elisabete? HA! HA! Ce tá maluco? A Elis casou com o Jonas, aquele do bigodinho."
Ele começava a se sentir mal. Estava ficando tão velho que nem se lembrava mais de pessoas cruciais em sua vida? Bom... Se ele não se lembrava delas, não deviam ter sido assim tão importantes.
"Tô falando da Bernadete. BER-NA-DE-TE. Vocês eram um grude só. Até lembro daquela vez..."
"Err...  Que vez?"
"Ora, da vez que ela achou que estivesse grávida de você. Foi lá toda medrosa falar com a Tita. A Tita que veio me contar. Fofoqueira aquela Tita. Por onde será que ela anda?"
"Boa pergunta."
Ele não fazia ideia de quem fosse a Tita, mas já não levava sua memória assim tão a sério.
"É, mas no final a Bete viu que era só um negócio estragado que ela tinha comido na padaria do Seu Tomás."
"Grande Seu Tomás." 
Ele brincou sem nunca nem ter ouvido falar do distinto cavalheiro.
"Bota grande nisso! Só não vai sair grávido de lá, hein? HA! HA! HA!"
O outro ria de um modo que beirava o constrangimento. Ele interrompeu o momento:
"Err... Bom... Amigo..."
Nem o nome do outro ele se lembrava.
"Preciso ir... Estou meio atrasado..."
"Ah! Sem problemas!" 
"Err... Bom te rever... Mas estou até aqui de coisas pra fazer."
"Tranquilo! Tranquilo! Pode ir! A gente se tromba por aí. Vou falar pro Cassiano que te encontrei. Ele não vai acreditar!"
"Sim! Faça isso! Preciso ir..."
"Vai lá! Vai lá! Esse Carlinhos, sempre ocupado!"
"É... Bom... A gente se trom..."
Parou por um instante. Os olhos do outro ainda brilhavam com as lágrimas do riso. 
"A gente... Se tromba... Por aí..."
Seguiu seu rumo ainda meio confuso. 
No outro dia, decidiu pegar um outro caminho.
Quando passava em frente à uma padaria, uma mulher veio em sua direção. Encostou a mão em seu ombro antes de perguntar:
"Carlinhos?"
Ele nem esperou para responder:
"Err... Bernadete?"
"Bete, me chama de Bete. Parece que nem me conhece."
"Err..."



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Padre e a Rúcula

Vez ou outra, quando vou ao mercadão perto de casa, encontro com o padre, que não é mais padre.
Na fila do pão, eu dei lugar para um senhor de chapéu que carregava um vinho barato na mão.
"Deus te abençoe, meu filho."
"Amém." eu disse quase que automaticamente.
"Você é católico?" ele indagou.
"Não!" respondi categoricamente.
O olhar do senhor mantinha-se igual.
"Fui criado, mas não sigo." disse eu cogitando que o senhor fosse um católico fervoroso.
"Eu falo essas coisas porque já fui padre, sabe?"
"Entendi..." respondi evitando que o assunto continuasse.
Passando as compras no caixa, dou uma conferida no computador.
"Moça, acho que você passou errado. É rúcula, não agrião."
"O quê?" ela perguntou olhando para a tela.
"Ali, o terceiro item, de cima para baixo."
Ela passou o leite e eu corrigi.
"O quarto item. De cima para baixo."
"O agrião?" ela disse lendo o item e depois apontando para a verdura que esperava pelo saquinho de plástico cheio de propagandas ecologicamente corretas.
"Sim." balancei a cabeça "Quero dizer, não! Não é agrião! É rúcula."
"Não, moço. É agrião. Rúcula não tem essas folhinhas."
"Pelo contrário, moça, é a rúcula que tem essas folhinhas."
O burburinho da fila atrás de mim começava a aumentar. Havia duas pessoas atrás de mim segurando poucas coisas. O mercado tinha três caixas e somente um funcionava porque o movimento era baixo.
"Moço, eu não gosto de rúcula." ela disse com a certeza de um político em ano eleitoral.
"E eu não gosto de agrião." respondi à altura, mas sem a mesma intensidade.
Ela virou para o rapaz da padaria e o chamou com um grito que assustou a rúcula e espantou alguns pombos da viela que dava de frente para o mercado.
"Fala, minha linda." ele era só sorrisos.
"Isso aqui é rúcula ou agrião?" ela apontou para a verdura que começava a sentir que talvez ainda não fosse a hora do saquinho.
Ele ficou pensativo.
"É agrião, né?" ela indagou.
"Agrião! Certeza!"
Ela olhou para mim com um sorriso que faria qualquer alma sã voar em seu pescoço. Eu me contive. Ele era só sorrisos.
"Rapaz, você já comeu agrião?" eu perguntei.
"Já! É amargo pra cacete!" ele respondeu.
"E rúcula? Já comeu?" perguntei. O burburinho atrás de mim ia ficando mais alto.
Ele colocou a mão na cabeça pensativo. Virou e chamou o senhor que organizava as laranjas numa bancada. Era um senhor gordo de bigode com seus quase sessenta anos.
"Que é?" ele perguntou sem sair do lugar.
"Isso aqui é rúcula ou agrião?" o rapaz da padaria levantou a verdura que se assustou novamente, dessa vez com o movimento súbito.
"Eu sei lá. To arrumando as laranjas." ele voltou a colocá-las no lugar.
"Isso é rúcula, meu Deus!" a senhora atrás de mim trouxe luz à discussão.
"Será?" a caixa ainda duvidou.
"É sim! Tá vendo essas folhinhas?" ela pegou a verdura da mão do rapaz da padaria e a mutilou, fazendo-a se sentir invadida "Essa folhinha só dá na rúcula. Agrião é amargo e rúcula também, só que mais azedinha."
O rapaz fez aquela cara de quem descobre algo pela primeira vez na vida. A senhora devolveu a rúcula para o balcão balbuciando algo enquanto a moça interrompia o momento de ilustração do rapaz:
"Por isso que eu não gosto de rúcula. Não gosto de coisa azeda." e continuou a passar os produtos.
"Moça..." eu me continha.
"Oi?" ela perguntou sem olhar nos meus olhos.
"Você não vai trocar?"
"Ah! É mesmo!" ela parou de passar os produtos e gritou o nome de uma mulher que veio rapidamente. Era baixa, tinha mexas louras no cabelo e um porte físico considerável. A gerente, provavelmente.
"O que foi?" ela não parecia simpática, nem rude. Gerente.
"Tem que cancelar o item... Aquele ali!" ela apontou com o dedo.
"O oitavo de baixo pra cima." eu respondi.
"Qual?" ela ficou olhando para a tela.
"Esse aqui!" a caixa meteu o dedo no monitor.
A fila aumentara e já começava uma movimentação que poderia culminar numa manifestação contra as filas nos mercados. A senhora reclamava com uma criança atrás dela que era seguida por um homem alto e bem vestido que só tinha um chocolate na mão e que não parava de olhar para o relógio. Atrás dele, uma mulher de seus quarenta anos roía as unhas e ouvia alguma música em seus fones de ouvido. No fim da fila. O padre.
"O agrião?" a gerente perguntou.
"Isso!" a caixa confirmou.
"Mas por que vai trocar o agrião? Tá estragado?"
A caixa ameaçou uma resposta, mas eu me antecipei.
"É porque isso não é agrião. É rúcula"
"Esse aqui?" ela apontou para a única coisa que poderia parecer uma agrião ou uma rúcula.
"Sim..." eu respondi já cansado. A multidão se enfurecia. O padre sorria.
"Mas isso é agrião!" ela respondeu.
A senhora atrás de mim soltou um urro que assustou a todos, menos a verdura que já estava preparada para novos sustos.
O padre furou a fila e veio até nós. Ele já era conhecido dos funcionários.
"Furando a fila, seu padre! Isso é pecado!" brincou o rapaz do padaria que ainda estava lá sorrindo para a caixa. O padre ignorou o rapaz solenemente.
"Minha filha, quanto é o agrião?"
"É..." a gerente olhou na tela "Dois reais."
"Meu filho," o padre gritou o quanto pode para o homem que organizava as laranjas "quanto é a rúcula?"
"Dois reais, seu padre." respondeu e sorriu como se tivesse sido absolvido dos pecados terrenos.
O padre olhou para todos com um sorriso. As mãos trêmulas seguravam o vinho barato, um saco de pão e uma lasanha de micro-ondas.
"Deus te abençoe, seu padre!" eu disse feliz e constrangido.
"Amém, meu filho, mas eu não sou mais padre."
E voltou para o final da fila sem falar mais nada.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Missiva

Hoje sonhei com você, mas não foi um bom sonho. Sonhei que você vinha com uma notícia ruim, mas não era ruim como quando você disse que tinha medo de partir pra longe ou quando você me disse, naquele tempo em que a gente ainda era mais jovem, que não dava pra gente ficar junto. A notícia era ruim mesmo. Envolvia a sua vida, e me lembro que no sonho fiquei sem palavras. Nunca tinha perdido ninguém tão próximo assim para a vida, aliás, para a morte, porque no sonho você dizia que iria morrer. Ainda tinha os tratamentos, mas no fundo a gente sabia que não ia dar certo - sempre fomos pessimistas de mão cheia. Eu aqui achando que era imortal e você me vem com essa notícia no sonho. Eu aqui que encarava essa coisa de morrer com a maior naturalidade, me peguei chorando no sonho como uma criança que perde a mãe na multidão. Não foi fácil. As coisas nunca acontecem com a gente até que elas aconteçam de verdade, não é mesmo? Não me lembro se no sonho você se salvava e se caía na escuridão para sempre. Só sei que acordei triste como o diabo e você não estava ao meu lado para eu me certificar se você estava bem. Espero que sim.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Solidariedade de classe e horóscopo


 para Barbara Abramo


"O horóscopo disse para eu não me preocupar com meus filhos hoje e dedicar mais tempo à minha esposa." disse em tom quase melancólico perguntando logo em seguida: "O que será que isso quer dizer?"
"Que você anda lendo um horóscopo machista e conservador." ela respondeu.
"Não dizia 'esposa' literalmente. Dizia 'parceiro' ou algo assim! Peraí! Deixa eu pegar!"
Do outro lado da linha ela ouvia o remexer das folhas do jornal.
"Vai ficar com os dedos todos pretos!" ela pensou. Ele voltou.
"Por que ainda imprimem jornais? Fiquei com a mão toda suja!" reclamou.
Ela riu alto.
"O que foi?" ele perguntou.
"Nada... E então?"
"Então! Aqui! Diz 'parceiro(a)', sabe? Com o 'a' entre parênteses?"
"Sei... É pra ficar bem genérico, é claro!" ela disse.
"É... Mas o que significa?"
"Como assim?"
"Não me preocupar com os filhos e me dedicar à minha parceira?"
"É... Dar um tempo na criançada e tentar reacender a chama!" ela argumentou.
"Mas eu não sou casado, muito menos tenho filhos!" ele notou.
"E dai?"
"E dai que esse horóscopo é restrito a algumas pessoas apenas."
"E dai?"
"Ué! O que aconteceu com o bom e velho horóscopo genérico que contemplava todas as classes?"
"Você está falando sério?" ela desacreditou.
"É claro! O horóscopo era a última ponta de igualdade nesse mundo que unia todas as classes, todos os gêneros e, principalmente, todo os signos!" falou em tom de discurso.
"E agora?" ela ironizou, ele não percebeu.
"E agora eles vêm me falar de filhos e parceiros..."
"Um absurdo!" ela brincou.
"De verdade!" pausou "E essa história de Vênus em Gêmeos?"
"O que tem?" ela perguntou.
"Tá dizendo que meu dia começa com Vênus em Gêmeos. O que isso significa?" ele soava irritado.
"Eu não sei! Deixa eu ver!"
"Você tá com o jornal ai?" indagou e logo atentou "Cuidado pra não sujar os dedos!"
"Eu vejo na internet."
"Não acredito que você paga pelo conteúdo digital!" ele soava mais irritado.
"Você assina o jornal e vem querer me criticar! Além de mais caro é completamente antiecológico!"
"Eu não assino!" pausa "Roubo do serviço!" outra pausa "Mas só a parte de cultura..."
"Você rouba?" ela disse rindo de espanto.
"Digamos que é uma retaliação quanto à exploração dos meus serviços."
"Você rouba mais alguma coisa?"
"Não que eu me lembre!" ele disse sem se preocupar.
"Não que você se lembre?" ela ria alto.
"Sei lá, uns papéis aqui, um elásticos ali..."
"O suplemento de cultura do jornal..."
"Também, mas esse eles não ligam mesmo!"
"Entendi..." ela parecia sincera.
"Então?" ele perguntou.
"Então o quê?" ela replicou.
"Vênus em Gêmeos..."
"Sim! Estou tentando achar... É complicado de encontrar... Achei!"
"E ai?"
 "Parceiro(a) com o 'a' entre parênteses..." ela riu.
"Não falei? E Vênus?" ele perguntou.
"Estranho..."
"O quê?"
"Meu signo também fala de Vênus em Gêmeos." ela respondeu.
"Meu Deus! Esses caras não têm inspiração nem pra isso!"
"Talvez a sua sonhada igualdade horoscópica não tenha morrido por completo..."
"É... Se ainda fizesse algum sentido." ele disse fingindo-se desapontado.
"Verdade..." ela concordou e continuou "Posso te falar uma coisa?"
"Claro!" ele disse.
"A senha que eu uso pra acessar o conteúdo do jornal é da minha chefe! Acho que isso é roubo também, não?"
"Claro que é, mas como disse, não é nada que se condene considerando o quanto a sua chefe rouba de você em horas trabalhadas."
"É, ainda assim me sinto culpada!"
"Não se sinta!" ele a consolou.
"Ela nem lê o jornal!" desabafou.
"Pois é! Você pelo menos faz proveito dele!" ele argumentou.
"É mesmo! Você quer a senha?"
"Com certeza!"
"Assim você não precisa mais roubar o jornal físico!"
"Por que eu deixaria de fazer isso?"
"Ué! Se tem o digital, pra que pegar o físico?"
"Você não entende! É uma questão de classe! Não faço isso pelo jornal ou por necessidade! Faço por todos os camaradas que morreram nas máquinas banhados pelo sangue e suor dos outros trabalhadores!"
"Você nem trabalha com máquinas!" ela disse um pouco indignada.
"Não quer dizer nada!"
"Sei..."
"Mostre um pouco de solidariedade de classe e passe logo essa senha, vai!"
"Nós nem temos a mesma profissão pra termos solidariedade de classe!"
"Mas nós dois temos chefes!" ele apontou.
"Bom..." ela ficou em silêncio.
"E Vênus está em Gêmeos pra nós hoje!" ele lembrou.
"Verdade! Anote ai..."

quinta-feira, 7 de março de 2013

Por que tiramos tantas fotos de nós mesmos?

Photo Booth Self-Portrait, ca. 1963 - Andy Warhol
Você alguma vez já se perguntou quantas fotos tirou de si mesmo e postou na internet? Quantas dessas você escolheu meticulosamente levando em conta o sorriso, o cabelo ou aquele papo a mais que nem a língua encostada no céu da boca salvou?
Por que fazemos isso? Qual é a necessidade em compartilhar com nossos contatos as nossas conquistas, nossa comida, nossa vida e nossas intimidades?
Será vaidade, insegurança ou simplesmente automatismo?
A fotografia é uma técnica criada em fins do Séc. XIX, mas que ganhou maior repercussão ao longo do Séc. XX e uma foto é, sem dúvida, um registo. Seja ele afetivo ou artístico, é ainda assim um registro que nos conta alguma história. Seja ela fotojornalística ou experimental, é a cabeça de alguém funcionando em função de dizer algo àquele que verá o registro posteriormente. Não há fotografia imparcial. Há sempre o olhar de quem a tira. Há ali toda uma visão de mundo resumida a um clique independentemente se esse for amador ou profissional.
Com o advento da fotografia digital na virada para o nosso século somando-se ao barateamento das novas tecnologias e à difusão das redes sociais, a vida do típico homem moderno ocidental (o que inclui chineses e japoneses que copiam tal modo de vida há décadas) virou um turbilhão de imagens compartilhadas a todo instante e em todo lugar.
Pra que esperar um dia se já posso mostrar meu cabelo novo aos meus amigos assim que saio do cabeleireiro? Por que mostrar mais tarde se já posso compartilhar minhas conquistas instantaneamente? Qual é a graça em viajar para a Europa (ou América do Sul que está super em voga) se não posso compartilhar todas as trezentas e cinquenta e seis fotos de uma vez?
Lá nos anos 1970, quando as câmeras ainda eram de filme, uma teórica da fotografia já alertava para o  fato de que parecia "decididamente anormal viajar por prazer sem levar uma câmera" já que as fotos ofereciam "provas incontestáveis de que a viagem se realizou [...] de que houve diversão" ou seja "as fotos documentam sequências de consumo realizadas longe dos olhos da família, dos amigos, dos vizinhos." Não é à toa que tiramos fotos do cabelo cortado, da comida no restaurante ou das viagens feitas! Mostramos o quanto estamos bonitos, de bem com tudo e satisfeitos com a vida e se deixamos de fazê-lo por um tempo há a possibilidade de algumas pessoas perguntarem se estamos bem já que andamos muito sumidos das redes sociais. Nunca estivemos tão sumidos e tão aparecidos.
"A necessidade de confirmar a realidade e de realçar a experiência por meio de fotos é um consumismo estético em que todos, hoje, estão viciados." O hoje de Susan Sontag descrito em seu livro "Sobre Fotografia" é o hoje da década de 1970. Quarenta anos no passado, muito antes do celular ou do Instagram
Ela completa: "As sociedades industriais transformaram seus cidadãos em dependentes de imagens; é a mais irresistível forma de poluição mental."
Até que ponto estamos compartilhando um momento feliz em nossas vidas ou caindo no automatismo ao mantermos os mesmos paradigmas de consumo desenfreado e até mesmo patológico?
Antes de tirar uma foto (ou quarenta e cinco) diante do espelho esbanjando excelente forma física (ou não) fruto de uma óbvia construção social, não deveríamos pensar minimamente no sentido daquilo?
Não é uma questão de parar de tirar fotos! O registo foi, é e sempre será importante, no entanto, enquadrar-se no automatismo social do consumo foi, é e ainda será por muito tempo mera ferramenta de alienação e manobra. Logo, o clique que vinha vinha rodeado de significado artístico ou afetivo acaba por se tornar vazio, resumindo assim a visão de mundo daquele que o fez.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Relato de um sonho

"Moça, não me leve a mal, mas tive um sonho e você estava nele.
Era aniversário de São Paulo, mas a galera comemorava como se fosse Carnaval e você estava naquele programa "Mulheres Ricas".
Você namorava um cara alto, louro e sarado que nunca te tratava bem, mas ainda assim você gostava dele (coisa de algumas mulheres, vai entender!)
Nesse sonho a gente não se conhecia, mas a gente se encontrava num bar (acho que era uma cantina italiana) e você estava com gente famosa enquanto eu comia uma sopa sozinho num canto, mas a gente não parava de se olhar - como se a gente soubesse que fora do sonho a gente se conhecia.
No final você foi embora cercada por seguranças e eu fiquei lá tomando minha sopa. Dai eu acordei! Bizarro, né?
Só estou te escrevendo para deixar registrado, afinal os sonhos sempre somem depois de um tempo acordado.

Beijos por ai!"

Algum terapeuta pra me ajudar?

Ouvindo Caetano com  "A Tua Presença Morena"

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Da precisância

Preciso
Preciso urgentemente voltar a fotografar
Preciso urgentemente voltar a escrever

preciso

Preciso urgentemente voltar ao estado em que as coisas
[divinas coisas]
são sublimes
sem laços
sem amarras
só coisas
que me [nos] alegram

Preciso ver mais o mundo
sair por ai
Preciso ver, ouvir, sentir

o sentido das coisas

preciso

E nessa precisância toda

preciso parar de reclamar.