quinta-feira, 7 de março de 2013

Por que tiramos tantas fotos de nós mesmos?

Photo Booth Self-Portrait, ca. 1963 - Andy Warhol
Você alguma vez já se perguntou quantas fotos tirou de si mesmo e postou na internet? Quantas dessas você escolheu meticulosamente levando em conta o sorriso, o cabelo ou aquele papo a mais que nem a língua encostada no céu da boca salvou?
Por que fazemos isso? Qual é a necessidade em compartilhar com nossos contatos as nossas conquistas, nossa comida, nossa vida e nossas intimidades?
Será vaidade, insegurança ou simplesmente automatismo?
A fotografia é uma técnica criada em fins do Séc. XIX, mas que ganhou maior repercussão ao longo do Séc. XX e uma foto é, sem dúvida, um registo. Seja ele afetivo ou artístico, é ainda assim um registro que nos conta alguma história. Seja ela fotojornalística ou experimental, é a cabeça de alguém funcionando em função de dizer algo àquele que verá o registro posteriormente. Não há fotografia imparcial. Há sempre o olhar de quem a tira. Há ali toda uma visão de mundo resumida a um clique independentemente se esse for amador ou profissional.
Com o advento da fotografia digital na virada para o nosso século somando-se ao barateamento das novas tecnologias e à difusão das redes sociais, a vida do típico homem moderno ocidental (o que inclui chineses e japoneses que copiam tal modo de vida há décadas) virou um turbilhão de imagens compartilhadas a todo instante e em todo lugar.
Pra que esperar um dia se já posso mostrar meu cabelo novo aos meus amigos assim que saio do cabeleireiro? Por que mostrar mais tarde se já posso compartilhar minhas conquistas instantaneamente? Qual é a graça em viajar para a Europa (ou América do Sul que está super em voga) se não posso compartilhar todas as trezentas e cinquenta e seis fotos de uma vez?
Lá nos anos 1970, quando as câmeras ainda eram de filme, uma teórica da fotografia já alertava para o  fato de que parecia "decididamente anormal viajar por prazer sem levar uma câmera" já que as fotos ofereciam "provas incontestáveis de que a viagem se realizou [...] de que houve diversão" ou seja "as fotos documentam sequências de consumo realizadas longe dos olhos da família, dos amigos, dos vizinhos." Não é à toa que tiramos fotos do cabelo cortado, da comida no restaurante ou das viagens feitas! Mostramos o quanto estamos bonitos, de bem com tudo e satisfeitos com a vida e se deixamos de fazê-lo por um tempo há a possibilidade de algumas pessoas perguntarem se estamos bem já que andamos muito sumidos das redes sociais. Nunca estivemos tão sumidos e tão aparecidos.
"A necessidade de confirmar a realidade e de realçar a experiência por meio de fotos é um consumismo estético em que todos, hoje, estão viciados." O hoje de Susan Sontag descrito em seu livro "Sobre Fotografia" é o hoje da década de 1970. Quarenta anos no passado, muito antes do celular ou do Instagram
Ela completa: "As sociedades industriais transformaram seus cidadãos em dependentes de imagens; é a mais irresistível forma de poluição mental."
Até que ponto estamos compartilhando um momento feliz em nossas vidas ou caindo no automatismo ao mantermos os mesmos paradigmas de consumo desenfreado e até mesmo patológico?
Antes de tirar uma foto (ou quarenta e cinco) diante do espelho esbanjando excelente forma física (ou não) fruto de uma óbvia construção social, não deveríamos pensar minimamente no sentido daquilo?
Não é uma questão de parar de tirar fotos! O registo foi, é e sempre será importante, no entanto, enquadrar-se no automatismo social do consumo foi, é e ainda será por muito tempo mera ferramenta de alienação e manobra. Logo, o clique que vinha vinha rodeado de significado artístico ou afetivo acaba por se tornar vazio, resumindo assim a visão de mundo daquele que o fez.


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