sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Padre e a Rúcula

Vez ou outra, quando vou ao mercadão perto de casa, encontro com o padre, que não é mais padre.
Na fila do pão, eu dei lugar para um senhor de chapéu que carregava um vinho barato na mão.
"Deus te abençoe, meu filho."
"Amém." eu disse quase que automaticamente.
"Você é católico?" ele indagou.
"Não!" respondi categoricamente.
O olhar do senhor mantinha-se igual.
"Fui criado, mas não sigo." disse eu cogitando que o senhor fosse um católico fervoroso.
"Eu falo essas coisas porque já fui padre, sabe?"
"Entendi..." respondi evitando que o assunto continuasse.
Passando as compras no caixa, dou uma conferida no computador.
"Moça, acho que você passou errado. É rúcula, não agrião."
"O quê?" ela perguntou olhando para a tela.
"Ali, o terceiro item, de cima para baixo."
Ela passou o leite e eu corrigi.
"O quarto item. De cima para baixo."
"O agrião?" ela disse lendo o item e depois apontando para a verdura que esperava pelo saquinho de plástico cheio de propagandas ecologicamente corretas.
"Sim." balancei a cabeça "Quero dizer, não! Não é agrião! É rúcula."
"Não, moço. É agrião. Rúcula não tem essas folhinhas."
"Pelo contrário, moça, é a rúcula que tem essas folhinhas."
O burburinho da fila atrás de mim começava a aumentar. Havia duas pessoas atrás de mim segurando poucas coisas. O mercado tinha três caixas e somente um funcionava porque o movimento era baixo.
"Moço, eu não gosto de rúcula." ela disse com a certeza de um político em ano eleitoral.
"E eu não gosto de agrião." respondi à altura, mas sem a mesma intensidade.
Ela virou para o rapaz da padaria e o chamou com um grito que assustou a rúcula e espantou alguns pombos da viela que dava de frente para o mercado.
"Fala, minha linda." ele era só sorrisos.
"Isso aqui é rúcula ou agrião?" ela apontou para a verdura que começava a sentir que talvez ainda não fosse a hora do saquinho.
Ele ficou pensativo.
"É agrião, né?" ela indagou.
"Agrião! Certeza!"
Ela olhou para mim com um sorriso que faria qualquer alma sã voar em seu pescoço. Eu me contive. Ele era só sorrisos.
"Rapaz, você já comeu agrião?" eu perguntei.
"Já! É amargo pra cacete!" ele respondeu.
"E rúcula? Já comeu?" perguntei. O burburinho atrás de mim ia ficando mais alto.
Ele colocou a mão na cabeça pensativo. Virou e chamou o senhor que organizava as laranjas numa bancada. Era um senhor gordo de bigode com seus quase sessenta anos.
"Que é?" ele perguntou sem sair do lugar.
"Isso aqui é rúcula ou agrião?" o rapaz da padaria levantou a verdura que se assustou novamente, dessa vez com o movimento súbito.
"Eu sei lá. To arrumando as laranjas." ele voltou a colocá-las no lugar.
"Isso é rúcula, meu Deus!" a senhora atrás de mim trouxe luz à discussão.
"Será?" a caixa ainda duvidou.
"É sim! Tá vendo essas folhinhas?" ela pegou a verdura da mão do rapaz da padaria e a mutilou, fazendo-a se sentir invadida "Essa folhinha só dá na rúcula. Agrião é amargo e rúcula também, só que mais azedinha."
O rapaz fez aquela cara de quem descobre algo pela primeira vez na vida. A senhora devolveu a rúcula para o balcão balbuciando algo enquanto a moça interrompia o momento de ilustração do rapaz:
"Por isso que eu não gosto de rúcula. Não gosto de coisa azeda." e continuou a passar os produtos.
"Moça..." eu me continha.
"Oi?" ela perguntou sem olhar nos meus olhos.
"Você não vai trocar?"
"Ah! É mesmo!" ela parou de passar os produtos e gritou o nome de uma mulher que veio rapidamente. Era baixa, tinha mexas louras no cabelo e um porte físico considerável. A gerente, provavelmente.
"O que foi?" ela não parecia simpática, nem rude. Gerente.
"Tem que cancelar o item... Aquele ali!" ela apontou com o dedo.
"O oitavo de baixo pra cima." eu respondi.
"Qual?" ela ficou olhando para a tela.
"Esse aqui!" a caixa meteu o dedo no monitor.
A fila aumentara e já começava uma movimentação que poderia culminar numa manifestação contra as filas nos mercados. A senhora reclamava com uma criança atrás dela que era seguida por um homem alto e bem vestido que só tinha um chocolate na mão e que não parava de olhar para o relógio. Atrás dele, uma mulher de seus quarenta anos roía as unhas e ouvia alguma música em seus fones de ouvido. No fim da fila. O padre.
"O agrião?" a gerente perguntou.
"Isso!" a caixa confirmou.
"Mas por que vai trocar o agrião? Tá estragado?"
A caixa ameaçou uma resposta, mas eu me antecipei.
"É porque isso não é agrião. É rúcula"
"Esse aqui?" ela apontou para a única coisa que poderia parecer uma agrião ou uma rúcula.
"Sim..." eu respondi já cansado. A multidão se enfurecia. O padre sorria.
"Mas isso é agrião!" ela respondeu.
A senhora atrás de mim soltou um urro que assustou a todos, menos a verdura que já estava preparada para novos sustos.
O padre furou a fila e veio até nós. Ele já era conhecido dos funcionários.
"Furando a fila, seu padre! Isso é pecado!" brincou o rapaz do padaria que ainda estava lá sorrindo para a caixa. O padre ignorou o rapaz solenemente.
"Minha filha, quanto é o agrião?"
"É..." a gerente olhou na tela "Dois reais."
"Meu filho," o padre gritou o quanto pode para o homem que organizava as laranjas "quanto é a rúcula?"
"Dois reais, seu padre." respondeu e sorriu como se tivesse sido absolvido dos pecados terrenos.
O padre olhou para todos com um sorriso. As mãos trêmulas seguravam o vinho barato, um saco de pão e uma lasanha de micro-ondas.
"Deus te abençoe, seu padre!" eu disse feliz e constrangido.
"Amém, meu filho, mas eu não sou mais padre."
E voltou para o final da fila sem falar mais nada.